Michelle Moura: um sonoro não-piscar de olhos

Foto: Jônia Guimarães
Cena de BLINK

 A noite de abertura da 8ª edição do Festival Contemporâneo de Dança de São Paulo foi de arregalar os olhos. Isto porque BLINK – mini-uníssono intenso-lamúrio, concebido pela coreógrafa Michelle Moura, burlou as leis fisiológicas e transformou o ato involuntário de piscar em um consciente abrir-e-fechar das pálpebras.

BLINK estreou na 9ª Bienal SESC de Dança, em 22 de setembro, na cidade de Campinas. Em outubro voltou à cena no Festival Contemporâneo. Dueto interpretado por ela e Clara Saito, o trabalho é uma coprodução com o Amsterdam Master of Choreography e resultado de uma residência artística realizada pela artista na Holanda.

Em entrevista ao Conectedance, Michelle revela aspectos da obra e fala sobre seu processo de trabalho e sua atuação como artista da dança na cidade de Curitiba (PR), onde reside.

 

BLINK é uma palavra ou uma sigla? O que significa?

Michelle Moura –  Blink é uma palavra e significa “piscar” em inglês. Porém, em BLINK [em maiúsculas], Clara Saito e eu não piscamos. Abrimos e fechamos os olhos seguindo uma partitura rítmica. Ações que geram mudanças na mente e no corpo me interessam. A interrupção do reflexo do piscar tem um efeito hipnótico. Um transe que intensifica o trânsito entre mundo psíquico e físico. Este interesse começou em 2010, quando fiz CAVALO.

 

A escolha do subtítulo “mini-uníssono intenso-lamúrio” é um direcionamento muito preciso. Isto é um problema ou uma solução?

 Michelle – É uma solução. Sabendo que existe um uníssono e um lamento, o público pode percebê-los e outro tanto de coisas que existe na obra também.

 

O olhar, como gesto e expressão, tem um papel fundamental na peça.

Michelle – Os sistemas visual e vestibular trabalham em conjunto para a manutenção do nosso equilíbrio. Em BLINK tensionamos o equilíbrio porque ficamos com os olhos fechados mais tempo que o habitual. O analista do movimento Hubert Godard chama de “função tônica” a habilidade que o corpo tem de se organizar em relação à gravidade. Os músculos tônicos são músculos posturais, envolvidos em manter o corpo de pé. Então, sempre que trabalhamos com a função tônica, inevitavelmente trabalhamos sobre a expressão. Como prolongamos o tempo em que permanecemos de olhos abertos, há um estresse dos olhos e dos músculos ao redor dos olhos, naturalmente expressões começam a surgir no rosto.

Como estamos constantemente em movimento, abrir e fechar os olhos pode ser comparado a uma “bomba pulsante”. Através deste bombear, produzimos um tipo de ressonância corporal constante e emoções são experienciadas. Mas, não estou interessada em representação, estou interessada em afecção. Afeto como mudança, como passagem de um estado experiencial do corpo para outro. Gosto de pensar que estamos continuamente fazendo-nos corpo. Na vida, esse processo de “fazer-se” é gradual, a ponto de não se perceber a mudança no exato momento em que está acontecendo. Em BLINK isto acontece gradualmente e em um tempo em que o público possa acompanhar as mudanças no momento em que elas acontecem.

 

Fale de sua parceria com Clara Saito.

 Michelle –  Em 2013 e 2014 realizei o laboratório Máquina de Sensações, com grupos diferentes em diversas cidades. Estava compartilhando práticas que já fazia sozinha e investigando-as com grupos. Até então tinha trabalhado mais como solista do que com grupos.

Encontrei a Clara Saito logo no primeiro laboratório, em dezembro de 2013, no Lote #3 organizado pelo Cristian Duarte em São Paulo. Por coincidência (ou destino), ela mora em Amsterdam. Como boa parte da investigação e criação foi feita lá, nós nunca mais deixamos de trabalhar juntas. Pensei inicialmente em criar para um grupo, mas com o tempo fui percebendo que a pesquisa tinha muito mais a ver com um duo.

 

As duas intérpretes geralmente não se comunicam pelo olhar, apenas em raros momentos. Este é um recurso para criar uma aproximação ao olhar do público?

 Michelle – Não. Um dos recursos que utilizo para que o público acesse nossa experiência, além do uníssono, é uma adição progressiva de partes do corpo que se envolvem no movimento: no começo apenas olhos, depois olhos e braços, em seguida olhos, braços e pernas. Assim por diante, até envolver expressão, emoção, voz. Acredito que através dessa progressão gradual de acontecimentos, demonstramos de forma transparente o método de construção do corpo BLINK e da obra que, aparentemente repetitiva, gera algo de hipnótico para quem vê e para a gente que se move.

 

O trabalho é profundamente sonoro. E a sonoridade é algo bastante presente na sua pesquisa. Por quê?

Michelle –  Som dá forma aos corpos. Gera atmosferas. Som é extremamente afetivo.

 

O projeto de luz, embora simples, é muito eficiente e tem uma vibração própria. Como este resultado apareceu em cena?

Michelle –  A palavra “blink” também significa cintilar e lampejar. Talvez esta vibração venha daí.

 

O cenário, somente uma superfície retangular branca, faz todo o foco do olhar do público se concentrar nas intérpretes. Na sua opinião, hoje é difícil encontrar situações “visualmente limpas”?

Michelle –  O foco está em nossos corpos e na atmosfera que é criada a partir da nossa experiência psicofísica. Pode até ser “visualmente limpa”, porém “emocionalmente carregada”.

 

Qual a justificativa da troca de figurino, já que essa troca acaba dividindo a coreografia em dois quadros?

Michelle –  A dualidade é intrínsica a BLINK: abrir-fechar, claro-escuro, e também duas bailarinas, dois figurinos, duas partes.

 

Quando as intérpretes vestem as roupas coloridas de lycra, o silêncio delas acaba. Mas, potencializa a dinâmica de ampliação e redução dos sons e dos movimentos. Ou seja, um movimento “sonorizado” tem uma percepção mais apurada?

 Michelle –  O som é o meio mais efetivo de afecção. Escutamos uma música e batemos o pé no ritmo, balançamos de um lado a outro, e muitas vezes estamos apenas parcialmente conscientes de que nosso corpo está respondendo ao som. Também somos afetados pela aparência e estados mentais-emocionais das pessoas ao nosso redor. É menos tangível que o som e como na maioria das vezes sequer estamos conscientes de nós mesmos, não chegamos a perceber o quanto a presença dos outros nos afeta.

 

Como é sua atuação em Curitiba na área da dança?

Michelle – Moro em Curitiba, mas no momento não estou muito atuante na cidade, me apresento muito mais fora do que lá. Enquanto integrei o coletivo de artistas Couve-Flor, que acabou em 2012, produzia muito na cidade. Em Curitiba está o La Bamba, um espaço cultural organizado por Cândida Monte e Well Guitti e lá tenho o tempo que preciso para criar e pesquisar, o lugar é muito acolhedor. A maioria das pessoas que trabalha comigo também mora lá. Na cidade há cada vez mais espaços independentes e gente produzindo e apresentando-se nesses lugares. Tudo é organizado pelos próprios artistas, na maioria bastante jovens. Já em Amsterdam, estudei e usufruí bastante da infraestrutura e do suporte que a escola Amsterdamse Hogeschool voor de Kunsten oferece para realizar residências, intercambiar com artistas, mentores, colaboradores. Contextos e mentes diferentes sempre são bons exercícios de perspectivas pra mim, inclusive para voltar a ver meu próprio modo de outros modos.

Foto: Jônia Guimarães
Cena de BLINK