Jorge Garcia evolui e sua obra se destaca

Jorge Garcia tem 37 anos e quer, por intermédio de sua obra, entender a humanidade e, por extensão, o mundo. Recifense radicado na pauliceia, o coreógrafo afirma partir de coisas que desconhece para aprofundar-se na pesquisa de cada montagem a fim de desbravar, por meio de observações e sensações, as relações que nos entrelaçam e o ambiente em que vivemos.

“Vejo tantas coisas e quero entendê-las melhor. Quando crio é mais para aprender que para falar do que já sei, é por não saber e não por querer explicar”, diz. O que alimenta o artista Jorge Garcia? “Busco a relação com o ser humano. Gosto de estabelecer um universo (de pesquisa) e aprofundar um pensamento. Nem quero saber onde vou chegar.”

Garcia se introduziu no universo da dança aos 19 anos, a partir do forró, da lambada, da salsa. Passou por duas companhias do Recife, a Compassos Cia. de Danças e o Grupo Experimental. Começou a coreografar ainda quando dançava na Cisne Negro Cia. de Dança, na qual ingressou quando tinha 23 anos: Sonho que se Sonha Só, criação independente que assinou ao lado de Laudinei Delgado, Marcelo Bucoff e Paulo Goulart Filho.

Sonho que se Sonha Só
 entrou em cartaz em 1995 no Centro Cultural São Paulo, pelo projeto O Masculino na Dança. “Fiz muitas parcerias no começo talvez um pouco por insegurança, porém mais pela oportunidade de trabalhar com amigos como Willy Helm.” Parceria, pois, é a palavra-chave. “Não pesquiso sozinho, e sim trocando ideias. O diálogo com as pessoas está presente na minha obra”, revela.

Ao atender a convite de Ivonice Satie em 1996, engrossou o elenco do Balé da Cidade de São Paulo, no qual permaneceu por sete anos. Sua primeira obra (dividida com outros criadores) para a companhia, Baile na Roça, surgiu em 1997, já sob a gestão de José Possi Neto. Depois vieram, entre outras, Divineia (2001, sobre Estação Carandiru, de Drauzio Varella) e R.G. (2006, sobre Radamés Gnattali). Mas não se prendeu ao Balé da Cidade, que não dava inteira vazão à vontade de criar – coreografava para companhias de menor porte.

Fundou com Bucoff o P.U.L.T.S. Teatro Coreográfico em 2000. “Ficamos dois anos juntos. Saía do Balé da Cidade para lá. Foi um exercício diário de criação, pude experimentar um pouco mais”, relata. Em 2002, com Agnaldo Bueno, Delgado, Helm e Osmar Zampieri, criou o Grua – Gentlemen de Rua, que explora o improviso em meio ao público.

Fundada em 2005, a J.Garcia&Cia já traz em seu portfólio quatro montagens: Cantinho de Nóis (2005, sobre a cultura popular), Histórias da 1/2 Noite (2006, sobre Machado de Assis), Um Conto Idiota (2008, sobre a arte do palhaço e o cinema mudo) e Cabeça de Orfeu (2009, sobre a morte).

Garcia procura trabalhar discussões diferentes a cada coreografia, o que sugere uma fragmentação dentro do todo. “Cada trabalho tem um universo tão particular que até tenho dificuldade de falar sobre o conjunto da obra.” Apesar disso, de uma certa maneira uma montagem se conecta a outra: “O ponto principal é o ser humano”.

E não dá por esgotada a pesquisa para um espetáculo. “Sempre estou revendo, refazendo. O ato de mexer na obra é fundamental.” Cantinho de Nóis é de 2002 – antes, portanto, da fundação da J.Garcia&Cia – e passou por uma reformulação para marcar a estreia do grupo, que se deu no Panorama Sesi de Dança. “Cenário, figurinos e cenas foram refeitos.” Um Conto Idiota é uma releitura de Noites de Fortunello (2003, para a Distrito Cia. de Dança) e Cabeça de Orfeu, de Orfee’s Head (que ele desenvolveu em 2007 para a Amsterdam Theater School).

Uma das características mais marcantes de suas criações é a sobreposição de linguagens. “O movimento é pouco para mim, gosto de entender outras artes, outras relações (cênicas)”, resume. Não à toa, cita como referências artísticas Pina Bausch, David Lynch, Lars Von Trier, Wim Vandekeybus e Machado de Assis.

Outra particularidade de suas composições coreográficas é a infiltração do universo popular brasileiro – com o qual convive desde pequeno, no Recife – na dança contemporânea. As manifestações da cultura popular, naturalmente, passam por um filtro antes de ganhar o linóleo. “Você não vê em Cantinho de Nóis passos de maracatu ou xaxado, mas sente esse universo.”

Expandir os limites do palco tradicional é uma tarefa a que ele se propõe. “Embora não descarte apresentações em lugares não convencionais como arena e galpão, digo que o palco italiano tem uma atmosfera que proporciona possibilidades infinitas. Mas sempre tento me moldar aos espaços.”

Novos projetos embalam a J.Garcia&Cia. O coreógrafo anuncia que revisitará Interlúdio (2001, para o Balé da Cidade, sobre a bufonaria) com cinco intérpretes, um a mais que a montagem original. “Está pronto, só esperamos dinheiro para o cenário.” Além disso, um vídeodança baseado no material coreográfico de Um Conto Idiota está em produção – e Cantinho de Nóis embarca para Cabo Verde (África) ainda neste mês.

Garcia, que contabiliza “mais de 30” trabalhos assinados na dança, no teatro, no cinema e no circo, menciona também “um projeto para um grande teatro, com um cenário que tenha um peso grande no espetáculo, com as coisas acontecendo a partir dele”. Take a Deep Breath é o título provisório do trabalho, “que trata da morte mas, na verdade, fala da vida”. A inspiração vem dos livros Felicidade, de Eduardo Giannetti, e Uma Longa Queda, de Nick Hornby.

Filho do ex-atacante Pedrinho, que defendeu as cores do Clube Náutico Capibaribe e de agremiações portuguesas, o coreógrafo revela que na infância se imaginou trocando passes em campos de futebol. “Meu pai achava que eu seria um bom jogador, mas desvirtuei”, graceja. “Mas ele era tão fanático (pelo esporte) que deixava a família em segundo plano. Hoje não torço para time algum, só assisto a jogos da seleção brasileira.”