Carolyn Carlson volta ao Brasil

Pela segunda vez no Brasil (a primeira foi em 1987, no Carlton Dance Festival, com a obra Blue Lady), a bailarina e coreógrafa norte-americana Carolyn Carlson, radicada na França há mais de 40 anos, retornou aos palcos paulistanos nos dias 5 e 6 de setembro. Desta vez, integrando a programação do Ano da França no Brasil, com o espetáculo Double Vision (“Dupla Visão”), realizado em conjunto com o grupo multimídia Eletronic Shadow.

Durante sua estada em São Paulo, Carolyn Carlson concedeu entrevista ao Conectedance. Falou sobre o espetáculo Double Vision, sobre seu trabalho como coreógrafa nestes últimos anos, sobre a sua direção frente ao Centro Coreográfico Nacional de Roubaix e do Atelier de Paris, seus planos para o futuro e sobre a criação de uma obra coreográfica para a Cia. Sociedade Masculina. O espetáculo que ela fará para este grupo paulistano já tem título: Fishermen of the Air (“Pescadores do Ar”) e deverá ter pré-estréia nos dias 19 e 20 de setembro, no Teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. A estréia está prevista para novembro.

Carolyn Carlson começou sua carreira dançando na companhia de dança de Alwin Nikolais (1965-1971), tornando-se uma de suas principais bailarinas. Na década de 1970 transferiu-se para a França, começando a atuar também como coreógrafa. De 1974 até 1980 trabalhou na Ópera de Paris. Neste período também dirigiu o Grupo de Pesquisas Teatrais (GRTOP), criando as obras Density 21,5; The Architects; This, that and the other; Slow, heavy and blue. Entre 1980 e 1985 transferiu-se para Veneza, onde dirigiu o Teatro La Fenice e criou as coreografias Undici Onde, Underwood e Blue Lady. Em 1985 retornou a Paris, como artista residente do Théatre de la Ville. Na década de 1990 foi para a Escandinávia. Trabalhou na Finlândia (1991-1992) e depois assumiu a direção artística do Ballet Cullberg (1994-1995). Ao retornar à França, fez inúmeros espetáculos de improvisação junto com Larrio Ekson, Jorma Uotinen, Malou Airado, entre outros, coreografando, também neste período, para a Ópera de Paris e para Ópera de Bordeaux. Entre 1999 e 2002 foi diretora-artística da Bienal de Veneza. Em 1999, fundou em Paris o Atelier Paris – Carolyn Carlson, subvencionado pela prefeitura pariense, o qual dirige até hoje, com o intuito de proporcionar treinamento técnico aos dançarinos e de apoiá-los na criação de obras coreográficas. Desde 2004 também dirige o Centro Coreográfico Nacional de Roubaix, no norte da França.

Ao longo destes 40 anos, o trabalho de Carolyn Carlson tem sido reconhecido pela sua relevância no desenvolvimento da dança contemporânea francesa e italiana.

A seguir, sua entrevista.

Conectedance – Você poderia nos contar a respeito da coreografia Double Vision, realizada em parceria com o grupo Eletronic Shadows – formado pela arquiteta belga Naziha Mestaoui e pelo designer Yacine Aït Kaci?

Carolyn Carlson – Este trabalho foi inspirado em obras poéticas. Nós trabalhamos neste espetáculo durante um ano, lendo muitas coisas, vendo muitos vídeos e pesquisando imagens. Naziha e Yacine fizeram o vídeo, com aproximadamente 50 minutos de duração, e eu coreografei somente depois que o vídeo estava pronto. Algumas vezes eu interferia pedindo que diminuíssem ou cortassem algumas cenas. Naziha desenhou um cenário muito bonito com linhas curvas brancas no final, como a margem de um rio, e com um espelho por cima. Por essa razão a obra se chama Visão Dupla, evidenciando a visão que tenho de mim mesma e a visão que tenho através do reflexo. Este cenário é de grande impacto. E a peça reúne performance e vídeo, numa coisa só, no âmbito intencional. A peça se divide em três partes: O mundo que vejo, que é a natureza; O mundo que faço, que é a cidade; O mundo que imagino, que é a poesia.

Conectedance – Muito já se falou sobre a influência de Alwin Nikolais sobre seu trabalho. Mas como você vê isso hoje em dia, sobretudo apresentando um trabalho com recursos tão fortes de iluminação e de interação com a multimídia?

Carolyn Carlson – Na verdade, acho meu trabalho bem distinto do dele. A meu ver, a única coisa seria em relação à questão dele trabalhar com a ideia do espaço, da forma e do movimento. Mas isto ele fazia de forma quase matemática, sempre calculando suas luzes, seus voos, como uma poesia dinâmica. E o meu trabalho é totalmente diferente do trabalho do Nikolais. É mais uma consequência dos sonhos, pois para mim, o que interessa é trabalhar com a poesia, em si mesma. O meu trabalho é mais verbal, pois minha inspiração está nos poemas, nas pinturas ou em qualquer outra coisa. Eu acho que como coreógrafa, eu me aprofundo muito mais no movimento do que na sua forma. Acho que sou mais discursiva do que Nikolais.

Conectedance – Em 1987, quando você veio ao Brasil, você apresentou o solo Blue Lady, que fez grande sucesso. No ano passado você remontou esse trabalho com o bailarino Tero Saarinen. Como foi essa remontagem?

Carolyn Carlson – Foi fantástico, realmente inacreditável! As pessoas ficaram maravilhadas ao ver que pude transmitir essa obra para outra pessoa. A ideia de remontar Blue Lady foi minha, no entanto eu preferi que a coreografia fosse dançada por um homem, ao invés de uma mulher, a fim de evitar comparações. Acho que acertei nisso. Eu tenho toda uma ligação com o Oriente. E no Japão, no teatro Kabuki, todos os papéis femininos são feitos por homens. Como Tero é japonês e conhece profundamente o butô, isto passou a ser um desafio para ele. Além disso, em Blue Lady nós também tratávamos sobre os arquétipos da existência. E Tero conseguiu captar isso muito bem. De fato, eu transmiti toda a coreografia para ele porque o corpo dele é bem diferente do meu. Eu sou mais “aérea” e ele é mais “terreno”. Assim, apesar de ser a mesma peça, Blue Lady foi feita de forma diferente. E foi um grande sucesso, pois todos perceberam que, apesar de ter sido remontada com o mesmo cenário e a mesma música, ele é uma outra pessoa. E a emoção veio à tona, a mesma emoção anterior. Um fato interessante foi que este solo foi criado quando eu estava com 43 anos, e Tero, ao dançar, também estava com 43 anos, com a mesma maturidade, compartilhando a mesma filosofia. Ao remontar Blue Lady nós procuramos trabalhar muito mais a filosofia que estava por trás, do que os passos, propriamente ditos.

Conectedance – Você poderia falar um pouco sobre sua trajetória nestes últimos anos? Que mudanças você percebe no seu trabalho?

Carolyn Carlson
 – Acho muito difícil falar sobre mim mesma, sobre minha evolução. Ao longo desses anos, tenho feito muitas coisas diferentes, com companhias de dança e artistas diversos. Recentemente, em Rubaix, tive a oportunidade de criar duas coreografias para crianças – o que até então, eu nunca tinha feito. Também recentemente realizei um trabalho para três artistas asiáticos: um chinês, um japonês e um coreano – o que foi muito interessante. Cada peça é sempre um novo desafio. Eu vejo meu trabalho como uma palheta, cheia de cores diversificadas: azul, vermelho, laranja etc.

Conectedance – Apesar de ser americana, você já vive há mais de 40 anos na Europa. O que isto significa para você? Como você vê isto refletido em seu trabalho?

Carolyn Carlson – Eu sinto que meu coração é americano e minha alma é européia. Porque eu comecei meu trabalho como bailarina nos EUA, com Alwin Nikolais, meu grande mestre. Contudo, eu comecei a coreografar na Europa. Dessa forma, acho que sou mais européia no meu trabalho, na minha alma. No entanto, meu espírito permanece americano, pois a gente nunca perde as raízes.

Eu viajo muito pelo mundo. Eu vivi em Veneza, na Itália, na Finlândia… Aonde eu coloco meu chapéu é minha casa. Agora eu estou neste hotel e enquanto eu colocar meu pequeno chapéu sobre a mesa, São Paulo será minha casa. Acho que ninguém pertence a nenhum lugar. Eu não pertenço ao lugar onde estou, onde vivo. Sou sempre uma hóspede, uma passageira do mundo. Eu não me associo a nada. Hoje vivo em Paris, também já morei em Nova York durante muitos anos, mas o que desejo é ser universal (risos).

Conectedance – Você vai montar uma nova coreografia para a Cia. Sociedade Masculina. Você poderia nos contar um pouco sobre isto?

Carolyn Carlson – Eu vou encontrá-los hoje à tarde [4 de setembro], pela primeira vez. Até agora eu só os conheço por meio dos vídeos que assisti e eles me pareceram extraordinários!

A primeira ideia que me veio para este trabalho foi fazer uma obra sobre o Amazonas, sobre a floresta amazônica, sobre o oxigênio. Porque associei o Brasil com o Amazonas – e o Amazonas, a meu ver, pertence ao mundo. Assim, achei que seria interessante fazer uma obra que falasse sobre o ar, sobre o oxigênio, ao invés de falar sobre desmatamento. Eu quero falar sobre os diferentes níveis de ar, sobre o oxigênio da terra, que passa por cima do vento, do ar cósmico. Estou trabalhando com este tema de forma poética e filosófica. De qualquer forma, eu preciso conhecê-los, pois trabalho com pessoas e me inspiro em suas personalidades.

Conectedance – Como surgiu o convite?

Carolyn Carlson
 – O convite foi feito por Anselmo Zolla e Vera Lafer, em Roubaix, no Centro Coregráfico. Ele me mostrou os vídeos da companhia e eu aceitei, porque gosto de coreografar para homens. Assim, resolvemos aproveitar a minha vinda para o Brasil para desenvolver este trabalho. Infelizmente teremos apenas 12 dias. Eu acho que será suficiente, pois trabalho como um furacão, como um foguete.

Conectedance – Conte-nos um pouco sobre seu trabalho no Atelier de Paris e sobre sua atuação como diretora artística do Centro Coreográfico Nacional em Roubaix, na França.

Carolyn Carlson – No Atelier de Paris são promovidos cursos de dança com professores convidados de diversas partes do mundo, para ensinar diferentes técnicas e promover workshops intensivos durante uma ou duas semanas. Lá também há sempre uma residência de uma companhia pariense. E nossas portas estão abertas para o público que queira assistir aos workshops. Tudo isto é mantido pelo município. A prefeitura nos dá o estúdio e nos ajuda a promover os cursos.

Já em Rubaix, contamos com uma estrutura bem diferente, pois lá temos um centro coreográfico. Existem 19 centros coreográficos na França e eu sou diretora de um deles. Toda a estrutura é financiada pelo Estado, embora muitas vezes tenhamos que ir atrás de outros patrocinadores. Temos muitas atividades em Rubaix, inclusive uma escola para crianças. Lá também temos companhias residentes e contamos com a estrutura de um grande teatro. Nossas condições de trabalho são ótimas e nossa função é ajudar as companhias jovens, mantê-las no seu local de origem, no norte da França. Um outro aspecto maravilhoso é que, por meio do Centro Coreográfico, eu posso viajar para o mundo todo. No ano passado eu estive no Japão e agora estou aqui me apresentando, visto que Double Vision pertence ao Centro Coreográfico. Realmente a França é um lugar incrível para trabalhar! É um dos melhores lugares, mais organizados e financiados do mundo! É por isso que vivo lá há mais de 40 anos.Ano após ano há subsídios. Eu realmente pertenço ao público francês, que me patrocina e ao mesmo tempo confia em mim e me dá liberdade para fazer o que quero.

Em Rubaix, temos mais de 120 bailarinos. São bailarinos clássicos, de dança de salão, dançarinos árabes, e há muitas organizações. Cada grupo tem sua subsociedade. Na verdade, eles não têm dinheiro, são muito pobres, mas agora têm a possibilidade de se organizar e de estar todos juntos fazendo seus trabalhos. O que é maravilhoso! O estúdio parece um aeroporto, com 400 m². Por isso, podemos reunir 60 pessoas, juntando jovens de 16 a 17 anos, grandes, saudáveis; bailarinos clássicos com bailarinos de hip hop. É uma espécie de projeto humanitário. E é por isso que o Centro Coreográfico é maravilhoso! O governo nos possibilita a realização deste trabalho. É muito bom! Cada um vê o que o outro faz. Então um imita o outro, até chegar a sentir e alcançar uma conectividade. Eu acho que a dança é muito universal nesta concepção. A meu ver, não há diferença em trabalhar com essa população carente. Não acho que devemos nos restringir apenas aos grandes artistas inatingíveis. Todo esse contato é muito bom! Muitos me perguntam por que aceitei trabalhar em Rubaix, uma das cidades com mais problemas sociais na França. Por que não? Eu podia estar trabalhando em Nova York, em Paris, mas há o desafio…

Conectedance – Neste momento, o que mais você está fazendo? Você está criando alguma coreografia nova? Quais são seus planos para o futuro?

Carolyn Carlson – Meu próximo projeto será fazer um espetáculo sobre museus. Serão quatro ou cinco dançarinos. Nós pesquisaremos alguns artistas, buscando inspiração em obras diversas. Pretendo realizar algo num espaço inusitado, fora do espaço convencional teatral. Assim, a idéia seria utilizar várias salas num museu, como diferentes palcos, as quais seriam percorridas pelo público. No outono começarei a desenvolver um outro projeto de criação chamado “Memória Presente”. Serão três mulheres coreógrafas: eu, Malou Airado [que trabalhou com Pina Bausch] e a italiana Catarina Sagna. Essas três mulheres vão compartilhar a mesma ideia sobre separação: com seu companheiro, com a família, com a morte. A estreia desta obra está prevista para ocorrer em fevereiro de 2010.