Branca de Neve, de Preljocaj: feerica, mágica e fantástica

Pouco mais de um ano depois de sua estreia na Bienal de Dança de Lyon (França), a versão coreografada do francês de origem albanesa Angelin Preljocaj para o conto de fadas Branca de Neve e os Sete Anões,dos Irmãos Grimm, chega ao Brasil para apresentações no Teatro Alfa de São Paulo (5 a 8/11) e no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro (13 a 15/11). A companhia com sede em Aix-em-Provence que leva o nome do coreógrafo apresenta uma superprodução em que 26 bailarinos dançam feericamente e até sobem pelas paredes, como desejava Preljocaj ao criar este espetáculo grandioso, que conta com figurinos de Jean-Paul Gautier e música do compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911).

O Ballet Preljocaj, que esteve em São Paulo em 2004 dançando Near Life Experience, tem colhido elogios desde a estreia de sua Blanche Neige (Branca de Neve), obra com tons mais sombrios e uma boa dose de psicanálise. Aqui, Preljocaj assume que desejava deixar um pouco de lado as peças abstratas que têm marcado sua carreira de coreógrafo para passear numa seara mais narrativa, com toques teatrais. Mas o rigor de sua composição coreográfica continua tão forte como nas demais obras importantes de seu repertório, como Romeu e Julieta, criada em 1990 para o Ballet da Ópera de Lyon. Dono de uma incensada trajetória, Preljocaj, de 52 anos, tem trabalhos espalhados pelos quatro cantos do mundo, sobretudo em grandes companhias como o Ballet da Ópera de Paris e o New York City Ballet. Atualmente, ele está preparando uma versão em DVD de Branca de Neve, para ser lançada em breve, enquanto cria uma obra para o Ballet Bolshoi, de Moscou.

A seguir, a entrevista de Preljocaj para o Conectedance.

Conectedance – Por que o senhor decidiu fazer uma releitura de Blanche Neige (Branca de Neve) ?
Angelin Preljocaj – Eu tinha muita vontade de contar uma história. Recentemente, com Empty Moves [de 2004, 2006 e 2007, com música de John Cage] e Eldorado [de 2007, com música de Karlheinz Stockhausen], eu concebi peças muito abstratas. Tive vontade de remar contra a maré e criar um trabalho mais concreto, abrindo um parênteses feérico e encantado nas minhas criações. Eu não queria cair nas minhas próprias armadilhas. E finalmente porque como todo mundo eu adoro histórias.

Conectedance – Ao criar Branca de Neve o senhor queria fazer uma peça de grande sucesso como foi sua versão coreografada de Romeu e Julieta, obra de 1990 para o Balé da Ópera Lyon?
Preljocaj – Eu simplesmente queria contar uma história com a dança. É muito delicado fazer algo assim e é isto que torna a criação um desafio apaixonante. Como fazer com que a história seja compreendida pelo público? Em L´Anoure, obra de 1995, eu escolhi trabalhar em cima do libreto de Pascal Quignard [escritor francês]. Mas com Branca de Neve eu levei em conta o argumento de que todo mundo conhece a história, o que me permitiu concentrar o trabalho no que os corpos estavam dizendo, em suas energias, no espaço em que os personagens sentem, para dar a ver somente a transcendência dos corpos.

Conectedance – Por que Branca de Neve e não Cinderela, por exemplo?
Preljocaj – Branca de Neve contém temas incríveis para a imaginação de um coreógrafo. Trata-se, sobretudo, de um personagem trágico e não exatamente uma mocinha de conto de fadas. A história tem um lado sombrio, sexualmente ambíguo e psicologicamente muito complexo. Para mim, é quase um thriller. A problemática em questão é muito atual. As mulheres estão cada vez mais bonitas, aparentando menos idade. Existe uma certa rivalidade entre mães e filhas, ligada à sedução e ao fato de que a mãe não quer mais ser reduzida apenas a esta simples função. A mãe não quer renunciar ao status de amante. É o conflito interior da mãe, que vendo sua filha crescer, não quer perder seu espaço na sociedade.

Conectedance – Por que o senhor escolheu a música de Gustav Mahler, que é conhecido como um compositor muito profundo? O que gostaria de comunicar com esta música?
Preljocaj – As sinfonias de Mahler, com suas catarses magníficas, são a essência do romantismo. De certa forma, a música de Mahler foi manipulada com uma imensa precaução e este foi um risco que queria enfrentar.

Conectedance – Como o senhor define a sua releitura da Branca de Neve? É possível dizer que de uma forma geral é uma versão mais dura do que o conto de fadas original?
Preljocaj – Sou fiel à versão dos Irmãos Grimm, mas há algumas variações de cunho pessoal, fundadas na minha análise dos símbolos do conto. Bettelheim [psicólogo americano de origem austríaca, Bruno Bettelheim] descreve Branca de Neve como uma espécie de Édipo ao inverso. A madrasta é, sem dúvida, a personagem principal do conto. Seu lado narcisista faz com que ela não queira renunciar à sedução e ao seu lugar de mulher e por isso resolve sacrificar a enteada.

Conectedance – Como foi o trabalho com Jean-Paul Gautier?
Preljocaj – Com Branca de Neve eu quis fazer um espetáculo feérico, mágico, fantástico. Para mim, o costureiro que encarna mais a fantasia é ele, Gautier. Jean-Paul Gautier deveria fazer os figurinos, era uma evidência! Cada uma de suas criações tem a capacidade de contar uma história. Não é apenas um vestido ou um casaco. São personagens. Eu quis deixar o máximo de espaço para a sua imaginação e testar suas escolhas até o fim. No primeiro encontro, eu mostrei a minha história da Branca de Neve, mostrei os cenários, o palácio, a floresta, a mina e descrevi como os personagens iriam interagir entre eles. Quando nos encontramos de novo, ele tinha os croquis nas mãos e já havia desvendado o meu universo, revelando nos figurinos tudo que eu tinha imaginado.

Conectedance – O senhor estudou com Merce Cunningham (1919-2009). Depois da morte dele e da morte de Pina Bausch (1940-2009), quem são os grandes coreógrafos da atualidade?
Preljocaj – Ainda há coreógrafos muito interessantes, como William Forsythe ou Jiri Kylian.