Artistas se manifestam sobre possível extinção da assessoria de dança da Secr. Municipal de Cultura

Com a nomeação de Lara Pinheiro para a direção artística do Balé da Cidade de São Paulo, fica vago o cargo de assessoria de dança da Secretaria Municipal de Cultura, já ocupado por Iracity Cardoso, Antonio Carlos Cardoso e Umberto da Silva. O vácuo, momentâneo ou definitivo, preocupa os profissionais de dança da cidade, que consideram tal função um canal de representatividade e mesmo de conquista da classe.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria, a saída de Lara é fato recente e por isso ainda não foi possível avaliar quem poderá substituí-la. Contudo, não está descartada a hipótese de se deixar vaga a função, o que significaria a sua extinção. Em cargo específico da área estaria a bailarina Andrea Thomioka, que vai ocupar o lugar de Vanessa Lopes na programação de dança.

A seguir, opiniões de alguns profissionais de dança, sobre a situação:

Marcos Moraes, bailarino e coreógrafo, ex-coordenador de dança da Funarte (Fundação Nacional de Artes) de setembro de 2004 a janeiro de 2007:

“Durante anos a dança foi tratada como um apêndice menor do teatro, ficando agrupada ao setor de artes cênicas. As políticas para dança, quando houveram, eram formuladas à imagem e semelhança das de teatro, por pessoas de teatro. A falta de profissionais com conhecimento das especificidades da dança prejudicou muito o desenvolvimento dessas políticas. A partir de alguns anos atrás a dança reivindicou e conquistou um tratamento específico para suas questões específicas. Houve um reconhecimento, tardio, de que dança é uma área de conhecimento, com suas especificidades e fazeres próprios, portanto com necessidades próprias.

Outra razão é que dentro do poder público não há, como imaginamos às vezes, uma completa unidade ao redor de procedimentos e esforços em cooperação. Portanto é preciso, sim, batalhar para fazer as coisas andarem e um profissional da área é fundamental para isso. Por outro lado, o poder público é um funcionário da sociedade (embora no Brasil as pessoas confundam o estado com um patrão); por isso é essencial haver uma interlocução com a sociedade e um coordenador de dança deve ser esse elo. Finalmente, na gestão de programas específicos há questões próprias que necessitam de compreensão para serem administradas. Exemplo: a dança precisa, em geral, de um espaço com piso adequado. Sem esse conhecimento um programa pode ser excelente para um grupo de teatro mas totalmente inadequado para um grupo de dança.

Se o cargo de assessor de dança da prefeitura deixar de existir estaremos avançando em alta velocidade para o passado. A classe de dança não pode aceitar um retrocesso desses. Parece piada que ainda estejamos discutindo isso. Uma piada de mau gosto. Cheira a distração, diversão (no sentido de desviar a atenção do que importa para algo que não faz nenhum sentido discutir agora).

Para se ter uma ideia, uma das cinco prioridades estabelecidas pela Pré-Conferência Setorial de Dança, ocorrida neste mês de março em Brasília, é a existência de cargos de coordenação de dança em todos os municípios com mais de 200 mil habitantes no país. Se São Paulo cancelar o cargo será uma grande desmoralização nacional. Se a Secretaria de Cultura estiver cogitando essa possibilidade ela estará demonstrando que não tem capacidade de compreensão da gestão da coisa pública na área cultural. Uma decisão nesse sentido mereceria nosso repúdio veemente e deporia muito contra a atual gestão em São Paulo.”

Sandro Borelli, bailarino e coreógrafo:

“O cargo de assessoria de dança na Secretaria Municipal de Cultura representa demarcação de espaço. É preciso um representante da dança dentro do poder público para que a classe possa dialogar. A existência dessa função foi um ganho da classe, a dança não pode ficar restrita apenas ao cargo de programação, seria ridículo. Não ter representante junto ao poder público é procedimento estúpido, mais parecendo uma volta ao passado. Quando algo é extinto significa que não cumpre mais com suas funções e necessidades e quando essa extinção ocorre num departamento público significa a suposição de que a área não é necessária ou importante.

Acho que a classe deve ficar atenta a essa situação. Se a extinção da assessoria de dança vier a acontecer, será preciso fazer pressão e um ótimo instrumento para isso seria uma manifestação na Galeria Olido, pois não há outro instrumento de pressão que não seja esse. O dia em que a classe de dança colocar umas 25 mil pessoas (acho possível) na rua para reivindicar seus direitos, muita coisa vai mudar.”

Mariana Muniz, bailarina, atriz e coreógrafa: 

“Seria lastimável a extinção da assessoria de dança porque ficaríamos com menor representatividade junto à prefeitura. O risco é grande para todos nós, pois não teremos planejamentos próprios, programas voltados para os movimentos de trabalho e educação a partir do pensamento e da mobilização da classe de dança. Ficaremos à mercê de outros setores de planejamento de políticas públicas.”

José Renato Almeida, produtor cultural da área de dança: 

“Acho muito importante a manutenção do cargo de assessoria de dança porque a representação da categoria ainda se encontra muito frágil. Face às necessidades atuais, que demandam enorme esforço para o avanço das políticas públicas para a dança, é fundamental que tenhamos alguém dentro dos órgãos públicos refletindo sobre a situação e buscando mecanismos de atendimento específico para essas demandas. Contar com a assessoria de dança significa um espaço aberto – uma possibilidade de acesso mais direto da classe junto ao poder público, que permite proposições de projetos e programas que realmente atendam às necessidades e demandas da categoria.”