A eterna reinvenção

“Uma linha reta quebrada em uma ponta forma um ângulo, mas uma linha reta quebrada simultaneamente em todas as pontas é chamada de curva. Chegou a hora de dizer que eu costumava ser sábio. Sendo extraordinariamente flexível de corpo, até aprendi a beijar meus pés. Eu me sentava num banco, segurava meu pé direito e o puxava na direção do rosto. Eu era feliz. Eu entendia a felicidade dos outros.”

Este trecho de The Old Woman (A Velha), falado em russo pelo bailarino Mikhail Baryshnikov, compõe o monólogo que ele realiza em uma das 12 cenas da peça teatral dirigida por Robert Wilson, na qual contracena com o ator Willem Dafoe. Depois do sucesso em São Paulo, onde 11 apresentações contaram com plateias lotadas no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, o espetáculo seguiu para o Rio de Janeiro, para depois encerrar a temporada sul-americana de 2014 em Buenos Aires.

No trecho em que fala sobre a maleabilidade da linha reta, Baryshnikov está sozinho no palco, em uma cadeira de espaldar alto, cujo desenho segue a limpidez de linhas dos objetos que desenham a cenografia da peça. Enquanto ele fala, o fundo da cena mostra dois retratos antigos do autor de The Old Woman, o russo Daniil Kharms (1905-1942), na época em que estava na prisão (onde, dizem, o escritor morreu de fome, sob o cerco stalinista).

A voz grave de Misha (como costuma-se chamar Baryshnikov), soa melodiosa e, acentuada pelo idioma russo, traz certa melancolia à cena. Este é um dos momentos de The Old Woman, em que o bailarino transmutado em ator, mostra mais uma vez a sua completude artística. Aberto aos riscos e capaz de entregar-se a novas possibilidades a todo momento, Baryshnikov tornou-se uma das personalidades mais instigantes da história da dança. Assim como a linha reta capaz de se transformar em curva, do texto fragmentado de Kharms, Misha tem demonstrado uma flexibilidade artística inesgotável, que faz de seu meio século de carreira um permanente apogeu.

Sob direção de Bob Wilson e dividindo o palco com Willem Dafoe, também extraordinário e arrebatador em cena, Baryshnikov concretiza mais uma parceria singular. No universo multidisciplinar de Wilson, ele e Dafoe exploram sem fronteiras ou convenções os seus próprios recursos de interpretação, nos papeis de dois personagens opostos que se completam e que podem ser vistos como um só.

Dança, teatro, música, artes visuais, tudo se funde na linguagem cênica de Wilson, que em The Old Woman se vale do texto de Kharms adaptado por Darryl Pinckney, num enredo não narrativo e não linear, sobre um escritor em crise de criação, assombrado pela figura de uma velha mulher.

 A mistura de sonho e realidade abre portas para a imaginação do espectador, que pode “viajar” pelo espetáculo na direção que mais lhe estimular. Falada em inglês e russo (Misha alterna os dois idiomas e legendas são projetadas na boca de cena), a peça conjuga música, interpretação e movimentos com precisão e dinâmica coreográfica.

Como ocorre nos espetáculos de Wilson, uma história cultural deixa-se vislumbrar na linguagem definida como vanguardista do diretor. Em The Old Woman, é possível perceber traços dos teatros asiáticos milenares, das danças de Martha Graham e do expressionismo alemão, do minimalismo pós-modernista.

Os personagens usam a voz com modulação musical, movem-se como dançarinos, integram-se como elementos esculturais ou pictóricos à cena onde a plasticidade é desenhada pela luz e pontilhada por objetos que por vezes lembram móbiles de Alexander Calder ou distorções surrealistas. Alternando papeis, Misha e Dafoe interpretam tanto a velha quanto o escritor, em diálogos que prescindem a lógica para misturar tristeza e humor, lirismo e crueldade, num ambiente que ecoa em Beckett e Ionesco, Artaud e Genet, ou ainda no cinema de Buster Keaton.

Foto: Change Performing Arts
Mikhail Baryshnikov (à direita) e Willem Dafoe (à esquerda), em cena da peça The Old Woman, dirigida por Bob Wilson. (CLIQUE NA FOTO PARA AMPLIÁ-LA)

Na arte, respostas para o mundo

Nas duas semanas que ficaram em São Paulo, Misha e Dafoe lidaram com profissionalismo e bom humor com o assédio geral. Entrevistas com a imprensa tiveram tempo controlado pela produção do espetáculo e na conversa de cerca de 15 minutos de Misha com o Conectedance, ele comentou seu interesse em fotografar danças locais. Há mais de 30 anos dedicando-se também à fotografia, ele já se fixou em retratos e paisagens em preto e branco, mas a dança tem sido seu tema principal. Já realizou várias exposições e em 2008 lançou o livro Merce My Way, sobre coreografias de Merce Cunningham. Foi na República Dominicana, onde passa o verão com a família, que começou a registrar a dança como expressão cotidiana. “Lá dança-se em todos os lugares e em todas as ocasiões”. Durante a estada em São Paulo chegou a registrar imagens de forró (segundo a produção de The Old Woman, no Canto da Ema, um dos lugares que ele e Dafoe foram conhecer).

Na conversa com o Conectedance, Misha fala sobre as demandas da dança e o tabalho de fomento que desenvolve hoje em Nova York, por intermédio do Baryshnikov Arts Center (BAC), espaço multicultural (ou “laboratório criativo”, como ele define o local), que inaugurou em 2005, para dar suporte a artistas da dança e também de outras áreas, como teatro e música.

No BAC, Misha não tem sala especial, mistura-se aos artistas e à sua equipe administrativa como mais um colaborador. No website do BAC, em eventos, nas dependências do espaço cultural (que inclui o Teatro Jerome Robbins, pequeno mas super estruturado), em catálogos e materiais informativos, não se vê sequer um logotipo ou qualquer menção publicitária do próprio Misha ou das empresas, fundações e mecenas que patrocinam o local. Discrição, elegância e compromisso efetivo com a cultura prevalecem no ambiente, que vivencia o pleno fazer artístico. Sem sombras de marketing, merchandisings ou similares. Nem burocracias. No BAC, a única contrapartida é a íntegra realização dos trabalhos artísticos e seus resultados.

Em visita ao BAC em agosto de 2010, foi possível colher alguns depoimentos, como o de Annie-B Parsons, diretora da Big Dance Theater, que lá fazia um período de residência.  “Para nós é muito importante contar com o suporte do BAC, que nos oferece tudo o que precisamos, conforto, segurança, estímulo, intercâmbio de alta qualidade. Sem fazer alarde, o BAC está mudando o padrão do trabalho artístico em Nova York”, disse Annie.

Outro depoimento, de Stanfort Makishi, ex-bailarino da Trisha Brown Dance Company que na época era diretor executivo do BAC, afirmou: “A melhor palavra para definir Misha é ‘integridade’. Se percebe talento em um artista desconhecido, ele investe. Misha tem uma curiosidade artística inesgotável e capacidade de enxergar a criação artística sob os mais diversos ângulos. Além do mais, não descarta o risco, que ele assume com muita inteligência”.

Interessado em criar perspectivas para as próximas gerações e também acolher artistas que já possuem uma trajetória desenvolvida, Misha apenas disse sobre sua atuação no BAC: “A arte tem força efetiva e pode gerar respostas para o mundo. Hoje meu papel é criar facilidades, abrir portas. Não sou um líder, sou apenas um porteiro”.

Nascido na Letônia (ex-União Soviética) em 27 de janeiro de 1948, Baryshnikov exilou-se no Ocidente em 1974 e hoje tem cidadania norte-americana. Nos Estados Unidos, onde vive há quase quatro décadas, nasceram seus quatro filhos e as duas netas.

Abaixo, a entrevista concedida ao Conectedance na tarde de 1º de agosto de 2014, no Sesc Pinheiros, onde ele e Willem Dafoe se preparavam para mais uma apresentação de The Old Woman.

 

Conectedance – Você se considera um experimentalista?

Mikhail Baryshnikov Não, eu faço o que minha mente e meu coração me levam a fazer. Não procuro realizar trabalhos experimentais intencionalmente. Trata-se de um diálogo interno, comigo mesmo, sobre o que vem depois, qual será o próximo trabalho, sobre o que eu gostaria de explorar.

Nesse sentido, o convite de Bob Wilson foi muito bem-vindo. É um projeto incomum, porém eu sabia onde estava me envolvendo. Conheço o trabalho de Bob, há muitos anos estávamos procurando um projeto para realizarmos juntos, somos velhos amigos. Foi um de seus dramaturgos [Wolfgang Wiens] quem sugeriu o texto de Daniil Kharms e nós aceitamos a proposta com alegria.

 

Conectedance   Certa vez você me disse: “Sou apenas um bailarino”. Você se considera um bailarino criador, como muitos intérpretes da dança se definem atualmente?

Baryshnikov Eu não penso sobre isto. Gosto, definitivamente, de colaborar com o coreógrafo e eu não sou um coreógrafo. Lógico que é bom trabalhar com um coreógrafo ou um diretor que goste do seu trabalho, ou seja, com alguém que confia totalmente em você. Alguns deles são ditatoriais, outros são mais cooperativos. Tem-se que ser muito flexível, não há uma só maneira de trabalhar. Num dia você pode ser um soldado de infantaria e no outro um intérprete cem por cento associado ao coreógrafo. Eu não me considero um criador, de forma alguma, eu faço de tudo para fazer justiça à visão do coreógrafo ou do diretor. O que, ou como eu me considero, é irrelevante.

 

Conectedance  – Você também já comentou que “quanto mais dança, menos sabe sobre a dança”. Por que? Qual a demanda maior desta arte?

Baryshnikov O mistério sobre este pensamento formal evolui constantemente.

Digamos que o legado da dança tem uma trajetória curta. Começamos a documentar dança a partir do século 19 para o 20. Daquela época em diante, dos dançarinos russos clássicos, passando por Bournonville [August Bournonville, 1805-1879], Petipa [Marius Petipa, 1818-1910],  Fokine [Michel Fokine, 1880-1942], até as influências modernas, de Martha Graham a Merce Cunningham, tudo está à mão. Para um cantor, porém, tem-se um repertório que vem dos séculos 14, 15. Pode-se cantar música barroca e todo o repertório clássico, Donizetti [Domenico Gaetano Donizetti, 1797-1848], Mozart [Wolfgang Amadeus Mozart, 1756-1791] e todos os alemães e austríacos, como Schumann [Robert Schumann, 1810-1856], Schubert [Franz Schubert, 1797-1828], Mahler [Gustav Mahler, 1860-1911] etc.

Porém, no caso dos dançarinos, é necessário que inventemos a nós mesmos o tempo todo porque somos poucos, inclusive os coreógrafos.

O legado, a documentação sobre dança não começou há tanto tempo.

O que é importante é sempre a procura por um bom coreógrafo e eles não são tantos assim. Muitos deles são ruins, infelizmente, como também em outras áreas artísticas, existe um grande número de maus compositores, maus escritores, pintores e cantores [ri] – como também de maus coreógrafos e dançarinos.

O dançarino tem esta responsabilidade extraordinária de escutar, estudar, de ouvir a verdade de si mesmo, de ser um bom colaborador, enfim, uma grande quantidade de coisas. Não é fácil alcançar o sucesso, a satisfação interna consigo mesmo, não é fácil encontrar um espaço para trabalhar.

Por exemplo, um jovem que quer trabalhar em uma companhia de balé clássico, procura estudar na melhor escola que pode encontrar, depois tenta uma audição na melhor companhia que pode sonhar, como Royal Ballet, Ópera de Paris, American Ballet Theater, Kirov Ballet e muitas outras. Então, tenta atingir o melhor resultado possível em 20 anos, o que não é muito tempo e tudo isso não depende só do dançarino, depende também do professor, da educação sobre arte que recebe, várias outras coisas.

É necessário crescer como artista e a nossa educação é, muitas vezes, muito frustrante, a educação artística em geral é muito frustrante porque em alguns países, inclusive nos Estados Unidos, não há educação adequada em arte. Alguns países foram abençoados com sistemas sociais diferentes, como na Europa, onde se investe muito dinheiro na educação em geral e também na educação artística.

Mas retornando à sua pergunta original, quanto mais eu danço… praticamente eu tenho escapado da dança, pois estou trabalhando no teatro, mais no teatro contemporâneo, que eu gosto muito. Alguns diretores, como Bob Wilson, sabem de meu background e utilizam as habilidades que tenho.

É por esta razão que eu não quero, jamais, dar qualquer conselho aos jovens sobre como proceder. Sempre digo que, se você não tem qualquer caminho que lhe faça sentido, a não ser a dança, então vá em frente. Porém, caso tenha alguma dúvida, pelo amor de Deus, não faça dança.

As exigências estão evoluindo, hoje não se sabe o que virá em seguida, as pessoas estão pesquisando.

Logicamente, artistas como Balanchine [George Balanchine, 1904-1983], Cunningham [Merce Cunningham, 1919-2009] e mesmo outros como Anthony Tudor [1908-1987], Frederick Ashton [1904-1988], abriram caminhos a serem seguidos, mas eles não são, necessariamente, referências para o sucesso.

Uma geração de bailarinos considerados bem sucedidos, bem preparados tecnicamente, totalmente destemidos, jovens e energéticos, podem de repente se deparar com uma mudança de atitude, mais romântica, com menos pirotecnias e mais propensa à aptidão individual, mais interessada em algo mais interiorizado e há que procurar entender tudo isto.

O mais importante é a força interna que essas pessoas devem ter. Por que querem se envolver com dança? Esta opção não é para todos.

 

Conectedance Você também já comentou que George Balanchine e Merce Cunningham são os coreógrafos que mais lhe sensibilizaram. Qual o significado destes dois artistas para você e por que os considera tão vigorosos artisticamente?

Baryshnikov Balanchine e Cunningham me sensibilizam porque foram extremos no que fizeram. A dedicação deles, durante todas as suas vidas, em trilhar seus caminhos, em manterem-se fieis às suas próprias verdades… Eles me sensibilizam não exatamente porque me influenciaram artisticamente. Eu simplesmente admiro pessoas assim. Eles foram íntegros, não comprometeram seus trabalhos sob qualquer situação. Mas, existem muitas outras pessoas que também me tocaram profundamente, tais como Jerome Robbins [1918-1988], Mark Morris, assim como muitos diretores de teatro, cinema. A lista é extensa.

 

Conectedance Você desenvolve um trabalho importante de fomento e suporte à dança em Nova York, por intermédio do Baryshnikov Arts Center. Qual é sua principal meta, no BAC?

Baryshnikov Estamos fazendo muitas coisas no BAC, muitos trabalhos em diferentes direções, com artistas emergentes, com aqueles no meio da carreira ou também no fim dela, artistas de todas as idades. Quero que Nova York e os Estados Unidos sejam mais amistosos com os artistas. Não é segredo que nos últimos dez, 15 anos, as pressões econômicas expulsaram os jovens de Nova York. No BAC queremos trazer de volta o espírito amistoso e acolhedor da cidade, com relação aos artistas de todo o mundo.

 

Conectedance Você voltará a São Paulo em 2015 para realizar uma exposição de fotos suas?

Baryshnikov Há um rumor sobre isto, fui convidado mas não está totalmente definido, estamos discutindo esta possibilidade. Farei uma exposição em novembro, em Londres, será a primeira de minhas fotos no Reino Unido, e aí veremos onde chegaremos. É muito cedo para decidir o que acontecerá em São Paulo.

 

Conectedance Caso a exposição fotográfica em São Paulo se confirme, qual será o tema?

Baryshnikov A dança. Um pouco de dança teatral, porém a temática será a dança que acontece em todo o mundo. Em algumas exposições pelo mundo já mostrei alguns trabalhos que fiz com Cunningham, com sua companhia, também a dança dominicana… Aqui em São Paulo andei fotografando algumas coisas, como o forró. Ainda quero fotografar o samba e quando chegar à Argentina é claro que vou procurar registrar as milongas, as expressões locais.

Abaixo, CLIQUE NAS FOTOS DO BARYSHNIKOV ARTS CENTER PARA AMPLIÁ-LAS

Foto: Baryshnikov Arts Center
Fachada do prédio do Baryshnikov Arts Center, em Nova York
    
Foto: Baryshnikov Arts Center
Interior do Teatro Jerome Robbins, que funciona no Baryshnikov Arts Center, em Nova York
Foto: Baryshnikov Arts Center
Interior de um dos amplos estúdios do Baryshnikov Arts Center

Mais sobre Baryshnikov no Conectedance: http://www.conectedance.com.br/dia-a-dia/baryshnikov-se-renova-mais-uma-vez/