Wellington Duarte e Daniel Fagus Kairoz protagonizam “Posição Amorosa”, espetáculo inspirado na obra do artista multimídia Hudinilson Jr.

O Núcleo EntreTanto, do coreógrafo Wellington Duarte, debruçou-se em 2021 na pesquisa sobre as distâncias que separam um corpo do outro, um conceito desenvolvido pelo reconhecido artista visual Hudinilson Jr. (1957-2013). Interessou ao grupo observar o espaço existente entre o amor e o sexo, entre o encontro e o contato. Desse estudo nasceu o trabalho coreográfico Posição Amorosa, peça que reforça a ideia da existência de posicionamentos amorosos, políticos, afetivos e sexuais. Na obra, que tem um caráter de manifesto, o músico e performer Daniel Fagus Kairoz divide o palco com Wellington.

Posição Amorosa estreia no CRD – Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo, com apresentações, em seguida, na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Todas as apresentações são gratuitas e podem ser assistidas tanto presencialmente nos locais, quanto no formato digital pelos canais de cada um dos espaços.

Foto: Keiny Andrade

Com idealização, concepção e direção geral de Wellington Duarte, Posição Amorosa tem dramaturgia e direção cênica assinada por Donizeti Mazonas e textos musicados a partir das obras Infértil, de Rudinei Borges dos Santos e O Inominável, de Samuel Beckett. Com composições, arranjos e direção musical de Rui Barossi, a performance evoca as linguagens da música, teatro e literatura, nas quais Duarte já transitou em sua carreira e que dialogam com a estética proposta também por Hudinilson Jr.

Posição Amorosa avança a pesquisa de Wellington Duarte em relação às situações de atritos, que o artista conceitua como situações que buscam instaurar um caráter insurgente no corpo, numa evocação direta a ele e suas capacidades e potências. “Se existe uma conexão entre arte e política, ela deve ser colocada em termos de dissenso, no sentido de que dissenso produz ruptura de hábitos e comportamentos. Virar do avesso, sacudir o consenso empoeirado, encontrar as contra-potências, os contragolpes, novas desordens que a suposta ordem totalitária encobre”, diz Duarte.

Segundo o dramaturgo e diretor cênico Donizeti Mazonas, Posição Amorosa é uma continuidade direta dessa pesquisa de Duarte. “Essas situações que têm relação direta com a questão do corpo e da política, da arte e da política são um pensamento serial – cada trabalho é uma variação do outro, cada trabalho aprofunda as questões do anterior. É um percurso de exploração e de proximidade de pensamentos”, reforça.

A obra tem um aspecto de manifesto, o que a torna apta a acolher várias linguagens artísticas, ainda que a sua base seja a dança, linha de força do corpo que o artista exercita há mais de 30 anos. “Posição Amorosa tem um caráter discursivo e esse é um momento que pede posicionamento em todos os sentidos, já que estamos vivendo um avanço de conservadorismo assustador e tenebroso no país”, diz Duarte. A investigação do coreógrafo de um pensamento disjuntivo de corpo e sua conexão entre arte e política, bem como suas inquietações como artista gay, somam força ao ativismo presente na obra visual de Hudinilson Jr.

Duarte reforça que as cores, o cenário e a luz da cena remetem ao contexto gay underground dos anos 1980, com ambientações que lembram banheiros públicos, boates e cinemas. “Hudinilson Jr. sempre transgrediu padrões sociais considerados normais, criando uma obra que busca extravasar a criação, o desejo e o direito à sexualidade plena”, complementa o artista. Outros dois artistas que também se tornaram referências marcantes para a criação são Pedro Lemebel, escritor, ensaísta, performer e ativista gay chileno, com o seu manifesto Falo pela minha diferença, e o cineasta e roteirista britânico gay Derek Jarman, cuja filmografia serviu de referência para o registro audiovisual.

Foto: Keiny Andrade

Sobre a obra de Hudinilson Jr.

A colagem, como sistema de construção, permeia a obra de Hudinilson Jr. Mesmo as xilogravuras iniciais foram realizadas com decalques de imagens fotográficas. Já nas colagens de fins da década de 1970 – usa fotografias de nus apropriadas de revistas americanas – os corpos aparecem usualmente sem identidade e em relação com objetos, folhas e raízes secas, texturas. Nas primeiras experiências com grafite a linearidade dos desenhos integra-se à escrita, como em Beije-me. A partir do contato com a obra do artista gráfico Alex Vallauri (1949-1987) passa a utilizar máscaras ou estêncis como instrumentos de produção de imagens.

Em fins dos anos 1970, inicia seus experimentos com fotocópia na produção de arte postal, explorando conjuntamente a repetição e a fragmentação do corpo. No grupo 3Nós3, intervém  no espaço urbano, como na ação Ensacamento (1979), onde foram encapuzados monumentos do centro da cidade de São Paulo durante a ditadura militar.

A série Exercício de me ver (1981) consiste na reprodução xerográfica de partes do corpo do artista, ao simular um ato sexual com a máquina. Esta ocupa a posição de cocriadora da obra. Hudinilson explora a característica da xerografia de omitir e ressaltar detalhes e converte-a num instrumento de especulação.

Em Narcisse/Estudo para autorretrato (1984), dialogando com o mito de Narciso, produz e investiga sua própria identidade visual. Em seus últimos cadernos de colagens, a figura de Narciso se desdobra com a exposição obsessiva e analítica do nu masculino.

Para o crítico Jean-Claude Bernardet (1936), a fragmentação do corpo pela xerox, converte-o em paisagens abstratas, nas quais os fragmentos se esvaem. Em sua performance com a máquina copiadora, Hudinilson Jr. utiliza seu corpo como matriz para a reprodução e investigação de possibilidades visuais.

Foto: Keiny Andrade

Sobre Wellington Duarte

Atua em São Paulo como diretor, bailarino e performer desde 1990 e atualmente dirige o Núcleo EntreTanto. Em sua trajetória promoveu um fazer/dizer no corpo e investiga qualidades corporais além de temas pontuais. Neste contínuo fazer tem elaborado propostas experimentais da fisicalidade, conectando lógicas, pensamentos e questões insuspeitas no corpo. Formado em Artes Cênicas pela Faculdade Mozarteum. Fez dança clássica na Escola Municipal de Bailado (1981/1983) e Escola Ismael Guiser (1985/1986); dança contemporânea: Denilton Gomes, J.C. Violla, Mariana Muniz, Adriana Grechi, Lucilene Favoreto, Patrícia Noronha, Mugiyono Kasido (Lisboa- Portugal), Karen Nelson, David Zambrano, John Jaspers, Tica Lemos, Maria Mommenshon e  Zélia Monteiro.

Sobre Daniel Fagus Kairoz
Iniciou sua carreira como performer em 2000, e em 2001 entrou em contato com a dança. Trabalhou com key zetta e cia; núcleo de improvisação; Wellington Duarte; Vera Sala, além de suas próprias pesquisas em dança vídeo música desenho e performance.

Criou e apresentou os solos “o maior dos pesos”(2004), “pele pelo osso”(2007),”cocktail” (2007), “serumanus”(2008), “koto-ba”(2008). Selecionado pela VERBO 2008 (evento internacional de performance da Galeria Vermelho), com “Existe alguma possibilidade ética que não acene ao totalitarismo?”, e em 2009 “A Maldição de Ford – homenagem a f?”.

Ganhou o prêmio Rumos dança 2007. Durante dois anos fez parte do grupo de performance “phármakon”, idealizando e apresentando performances. É Bacharel em Dança e Performance pelo curso Comunicação das Artes do Corpo, PUC-SP e atualmente é diretor do coletivo Terreyro Coreográfico.

Foto: Keiny Andrade

Ficha técnicaIdealização, concepção e direção geral: Wellington Duarte. Direção cênica e dramaturgia: Donizeti Mazonas. Assistente de direção: Rafael Costa. Performers: Wellington Duarte e Daniel Fagus Kairoz. Textos: poemas de Rudinei Borges dos Santos, fragmento do livro O Inominável, de Samuel   Beckett e o poema Luto, de Josué Nivaldo. Música – composição, arranjos e direção musical: Rui Barossi. Guitarrista: Daniel Fagus Kairoz. Técnico de som: Pedro Canales. Iluminação: Wagner Antonio. Iluminador assistente: Robson Lima. Técnico de iluminação: Matheus Silva Espessoto. Direção de fotografia e operação de câmera: Marcos Yoshi e Yghor Boy. Edição:  Yghor Boy. Cenografia e figurinos: Eliseu Weide. Painel grafite – Arte: Alcântara Puo e Luh Araújo. Assistente de cenografia: Franklin Almeida. Mídias sociais: Maju Tóffuli. Designer gráfico: Rafael Markhez. Fotos: Keiny Andrade. Produção: Jota Rafaelli – MoviCena Produções. Assistente de produção: Luciana Venâncio. Realização: Núcleo EntreTanto, da Cooperativa Paulista de Teatro.

Onde:
CRD – Centro de Referência da Dança
Oficina Cultural Oswald de Andrade
Quando:
6 a 9 de dezembro/2021
Segunda a quinta-feira, 19h: no CRD
13 a 18 de dezembro/2021
Segunda a sexta-feira às 20h
Sábado às 18h: na Oficina Cultural Oswald de Andrade
Quanto:
Grátis
Info:

6 a 9 de dezembro/2021; segunda a quinta às 19h

CRD – Centro de Referência da Dança – Sala Cênica: Galeria Formosa – Baixos do Viaduto do Chá – s/nº – Praça Ramos de Azevedo, São Paulo (SP). Estações de metrô: Anhangabaú e República.

Transmissão também pelo Youtube do Centro de Referência da Dança no mesmo horário.

 

13 a 18 de dezembro/2021; segunda a sexta às 20h; sábado às 18h

Oficina Cultural Oswald de Andrade: Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo (SP). Estação de metrô: Tiradentes.

Transmissão também pelo Youtube das Oficinas Culturais  nos mesmos horários.

 

Duração: 50 minutos.

Classificação: 14 anos.

 

Apresentações gratuitas. Retirada de ingresso 1 hora antes.