Violência contra a mulher é tema de espetáculo de Gisele Bellot

E se…, espetáculo de dança contemporânea com direção artística de Gisele Bellot e coreografia de Gabriel Malo realiza suas primeiras apresentações entre 21 e 28 de novembro de 2021 com um propósito claro: lembrar de uma data simbólica – o Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher, em 25 de novembro, somada à Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em 10 de dezembro completa 73 anos.

O espetáculo reflete sobre o rompimento do ciclo de violência contra a mulher, trazendo para cena todos os tipos de violências existentes e, sobretudo, colocando lado a lado temas como culpa, liberdade, utopia, medo e desejo de forma humanizada. As exibições integram a temporada do projeto Teatro Sérgio Cardoso Digital, equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e gerido pela Amigos da Arte.

Números alarmantes

Segundo uma pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência no último ano no Brasil, durante a pandemia de Covid-19. Isso significa que cerca de 17 milhões de mulheres (24,4%) sofreram violência física, sexual, moral, patrimonial ou psicológica.

O dia 25 de novembro foi escolhido para homenagear as irmãs Mirabal, que ficaram conhecidas quando se opuseram à ditadura de Rafael Leónidas Trujillo, sendo assassinadas nesta data em 1960. O período se estende até o dia 10 de dezembro, quando se comemora o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e marca 16 dias de ativismo contra a violência contra as mulheres.

A Organização Mundial de Saúde define a violência contra a mulher como todo ato de violência baseado no gênero que tem como resultado o dano físico, sexual, psicológico, incluindo ameaças, coerção e privação arbitrária da liberdade, seja na vida pública seja na vida privada.

“A ideia de transformar o tema em dança surgiu da inquietação em querer dialogar sobre o assunto de forma sensível, que pudesse romper barreiras junto às pessoas. E a arte tem essa potência de atingir o ser humano em suas mais diversas subjetividades”, afirma a bailarina e advogada Laura Delgado, que assina o argumento do espetáculo. “Queremos causar uma

reflexão, provocar a curiosidade em cada um que tiver contato com o material do espetáculo a respeito de reflexões como – ‘Será que eu estou sendo abusada(o) e não estou me dando conta?’, ‘Será que eu estou agredindo e

achando normal?’, ‘Preciso de ajuda?’. Perceber ou assumir a existência do abuso é algo complexo”, acrescenta Gabriel Malo, que assina a coreografia a convite de Gisele Bellot, diretora artística.

A obra apresenta ao espectador um tribunal, no qual agressor, vítima, advogados, testemunhas e juiz trazem à tona os diferentes tipos de violência e como cada mulher se coloca frente dela para depois ter forças para gritar e encontrar a “chave” para sair dessa situação.

“Nosso processo de criação foi denso e cheio de descobertas. Partimos de um trabalho intenso de escuta da própria respiração e da respiração do outro, apresentamos ao elenco referências de filmes, séries e fotos para que eles pudessem descobrir como aquele personagem dançava e trabalhamos a mimese sonora, onde eles reproduziam com o corpo o discurso que estavam ouvindo – áudios de advogados e promotores de justiça em atividade durante um julgamento, ou depoimentos de mulheres que sofreram violência doméstica. As linguagens do elenco começam a se mesclar nesses improvisos e comecei a configurar as cenas baseadas no roteiro que já tinha desenhado, mas que foi se revelando de inúmeras maneiras durante o processo”, pontua Malo.

Foto: Caio Gallucci

Bailarinos de diferentes formações

O elenco, composto por importantes nomes da cena da dança e do teatro do Brasil – Gisele Bellot, Katia Barros, Lucas Teodoro, Carol Dias, Julio César, Luciana Bolina, Malcom Matheus, Milton André, Mariana Camargo e Tutu Morasi – estava preparado inicialmente para apresentações presenciais e por conta da pandemia o processo foi adaptado para uma versão audiovisual, gravado especialmente para a câmera com direção de Patrick Amstalden. “Escolhemos filmar com a câmera na mão, sem uso de estabilizador, retratando o movimento interno das personagens que passavam pelos diferentes tipos de violência. Fizemos o uso de maquiagem e água pingando para expor os momentos pós-traumáticos, trazendo um olhar unificado dessas mulheres e suas dores. Optei por contar essa história enaltecendo esses corpos e seus movimentos e principalmente os olhares e expressões das personagens, que traziam as consequências cruéis dessas agressões e dão ao espectador um olhar reflexivo sobre o tema. Tentei encontrar a visão do agressor e do agredido”, conta Amstalden, que também é ator e bailarino.

“Propositalmente optamos por um elenco versátil de artistas que vêm das mais diferentes e complementares áreas, como bailarinos clássicos, de jazz dance, do teatro musical, sapateado, atores, para que a gente falasse e tratasse de todos os assuntos com a pluralidade necessário e para que que cada um pudesse estar exatamente onde eles estavam. Cada bailarino do elenco doou o seu corpo para nós. O que eu sinto como diretora artística é a doação de cada emoção, de cada sentimento a serviço do trabalho”, fala Gisele. “E como estamos falando de um tema muito humano, sobre cada ser que existe na nossa sociedade é importante dar ao espectador a chance de se conectar e de se identificar com os corpos que estão em cena. A história pessoal de cada um é uma peça-chave na hora de construir o espetáculo. Não é sobre a virtuose ou vaidade de cada corpo e sim sobre “que história eu tenho para contar com esse corpo.”, complementa Malo.

Música e figurinos ressoam temática

E Se… é composto de cenas de conjunto e duetos, sendo que cada parte olha para um tipo diferente de violência, com trilha sonora especialmente composta para a montagem, assinada por Marcelle Barreto. “Iniciei o processo sentindo qual seria a atmosfera sonora que eu gostaria de trabalhar e comecei a experimentar com o elenco formas de improvisos. Ao ver o que fazia sentido, passei as referências para Marcelle que começou a acompanhar os ensaios e improvisava no piano, ao mesmo tempo em que eu conduzia o elenco. O corpo ia alimentando a música e vice-versa”, conta o coreógrafo.

“Estávamos lidando com temas sobre a violência e dor, mas também com luta, coragem e esperança. Traduzir musicalmente tudo isto para os dias de hoje, foi o desafio traçado. Quando iniciamos, testamos algumas sonoridades que trariam maior dramaticidade para as cenas. As ideias surgiram conjuntamente, ora eu sugeria por meio de células musicais, ora apenas improvisava reagindo aos movimentos que captava. Optamos por trazer elementos orquestrais, como as cordas (violinos, viola, violoncello e contrabaixo), texturas e efeitos característicos da música incidental do cinema, além de grooves eletrônicos, pianos, vozes, guitarra, entre outros”, explica Marcelle.

Na proposta, o conceito de que “roupa de mulher é vestido” e “roupa de homem é calça” é desmistificado pela figurinista Carol Franco. Em cena, os bailarinos trazem a dureza do cinza em diálogo com o roxo, que traz a marca da violência em quem a sofre e ao mesmo tempo é uma cor que estimula o sensorial. “Em cena também usamos diferentes tipos de amarrações que dão a sensação de desconstrução dos corpos que estão em busca de serem inteiros, já que um dia foram massacrados pela violência”, finaliza Malo.

Reflexão e acesso

“Toda criação do projeto circunda a experiência de um processo de pesquisa abrangendo quatro diferentes olhares: um olhar para preconceito; um olhar para o mundo em que vivemos; um olhar para o outro e um olhar para si. Nesta premissa contamos com a participação de duas pessoas importantes no nosso processo para o entendimento de vários assuntos. A psicóloga Giselle Rocha trouxe considerações sobre desigualdade de gênero e violência doméstica/familiar e o conciliador Reginaldo Bambini sobre a construção da masculinidade e sociedade patriarcal. Ambos somados aos estudos realizados pelo grupo, solidificam o ponto de partida teórico do projeto”, explica Laura. “Entendemos que era importante que todos ouvissem uma mulher e homem, que pudessem perguntar, trocar informações. E ao longo desse processo percebemos que cada um de nós tinha um pedacinho dessa violência, ou em si, ou em casa, ou na família, ou em um conhecido”, fala a diretora.

Segundo Laura, o projeto tem o compromisso de alcançar a rede de proteção e enfrentamento à violência contra a mulher e a rede pública de ensino. “Nossos contatos estão sendo

direcionados às cidades que nos receberiam presencialmente antes da adequação ao formato online – São Paulo, Osasco, Guarulhos, Jacareí, Sorocaba, Suzano, Campinas e Santos”, explica. Ao final de cada transmissão online acontece um bate-papo com o objetivo de apresentar as alternativas de proteção a

violência doméstica/familiar contra à mulher somado ao diálogo entre os artistas e a plateia. Também estão programadas transmissões exclusivas da obra em organizações, instituições, grupos e afins, que poderão agendar a transmissão do espetáculo no dia e horário que preferirem. E para que todos possam ter um material de apoio educativo criamos uma cartilha com conteúdo informativo/protetivo a respeito da violência/doméstica para distribuição gratuita. É a democratização do acesso a um tema relevante, sendo que é preciso sempre reforçar os canais de comunicação para denúncias do Governo Federal, que são o disque 100 e o ligue 180.

Oficinas e projeto educativo

O elenco promoverá oficinas de gratuitas para o público geral interessado, além da rede de proteção e enfrentamento à violência contra a mulher; educadores e estudantes da rede pública. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas com acesso ao Instagram do projeto @maloproducoes, que também divulgará os dias, temas e profissionais envolvidos.

Sobre Gisele Bellot

Bailarina, coreógrafa e maître de ballet, atua há mais de 40 anos como profissional de dança. Diretora residente da Gisele Bellot Escola de Dança e da Cia. Dans la Danse, teve sua formação atrelada a grandes mestres como Halina Biernacka, Ady Addor e Ismael Guiser. Em sua trajetória destacam-se diferentes prêmios como uma bolsa de estudos na The National School of Canada, no Canadá, e um prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Como primeira bailarina, esteve à frente do Ballet Clássico de São Paulo, sob direção de Halina Biernacka; da Ady Addor Cia. de Dança e da Cia. de Dança Ismael Guiser. Desde 2013 é coreógrafa oficial do Aprendiz de Maestro (projeto TUCCA – Música pela Cura), com a Sinfonieta Tucca Fortíssima, com regência do maestro João Maurício Galindo. É integrante do conselho de notáveis do IBAC – Instituto Brasileiro de Arte e Cultura (dança) e do CID – Conselho Internacional de Dança

da UNESCO. Ministra aulas e workshops de balé clássico em companhias, festivais e escolas de dança, como convidada no Brasil e no exterior, além de ser jurada em diversos eventos da área.

Sobre Gabriel Malo

Coreógrafo, diretor de movimento e professor de expressão corporal, jazz e interpretação, especializado em criação coreográfica pelo International Student Program da Steps on Broadway, de Nova York, Gabriel Malo participou de importantes produções como coreógrafo, como: Chaves – Um Tributo Musical, Natasha Pierre e o Grande Cometa de 1812, Carrossel O Musical, 1984, de George Orwell, Senhor das Moscas, Bento Batuca e 2 Filhos de Francisco. Como intérprete atuou em: Chorus Line, Wicked, Hairspray, West Side Story, Nas Alturas, Lembro Todo Dia de Você, entre outras. É formado em Artes Cênicas pelo INDAC – SP; em balé clássico por Gisele Bellot, em jazz dance por Maiza Tempesta e Roseli Rodrigues. Integrou a companhia de dança contemporânea Steps Repertory Ensemble, de Nova York; participou do reality Dançando na Broadway, da Multishow, foi assistente da coreógrafa Katia Barros na turnê Nossa História, de Sandy e Júnior e colaborador coreográfico de , clipe de Adriana Calcanhoto, além de ter feito a direção artística do show Submersa, da cantora Miranda Kassin.

 

 

Onde:
Teatro Sérgio Cardoso Digital
Quando:
18 a 21 e 25 a 28 de novembro/2021
Quintas e sextas-feiras às 19h
Sábados às 17h
Domingos às 18h
Quanto:
Grátis
Info:

Exibição online e gratuita dentro da programação do projeto Sérgio Cardoso Digital.

Ingressos gratuitos pelo https://site.bileto.sympla.com.br/teatrosergiocardoso/ (Videoconferência via Sympla Streaming)

Este espetáculo foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo (Proac – Edital 03/2000) no eixo Produção e Temporada de Espetáculo Inéditos de Dança.