“O Olho da Agulha”, de Roberto Alencar, é a nova criação de Laboratório Siameses

A companhia Laboratório Siameses, de Mauricio de Oliveira, inicia 2022 com a estreia de O Olho da Agulha, criação de Roberto Alencar, que também assina a direção do espetáculo.

É a primeira vez que Roberto Alencar trabalha com a Siameses. Coreógrafo, bailarino, ator e artista visual, Alencar compartilha afinidades com Mauricio de Oliveira. Ambos são artistas da dança e também artistas visuais, interessados em promover encontros e diálogos entre as duas expressões.

Em cena, um trio muito especial interpreta O Olho da Agulha:  Mauricio de Oliveira, Marina Salgado e Danielle Rodrigues.

O Olho da Agulha completa o tríptico Corpos Octópodes, que já apresentou, em 2021, Da Natureza da Besta, solo de Mauricio de Oliveira premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria “Interpretação”, e Moscas de Fogo, espetáculo concebido por Mauricio e realizado em conjunto com o elenco, formado por Maria Basulto, Rebeca Tadiello, Gabriel Tolgyesi, Graziely Perdiz, Gustavo Cabral, Jonatan Vasconcelos e Ricardo Ura.

Foto: William Aguiar

Depoimento de Roberto Alencar sobre O Olho da Agulha:

“O caos no ateliê é um dos temas que escolhi investir e aprofundar em O olho da Agulha. Para abordar este assunto, me inspiro em dois artistas que colocam o ateliê (ou os processos de criação) no centro de suas questões – o pintor irlandês Francis Bacon e o multiartista sul-africano William Kentridge.

Ambos são grandes influências no meu fazer artístico há alguns anos. Para conhecer verdadeiramente as obras de Kentridge e Bacon é necessário conhecer também seus procedimentos de criação, visualizar seus dias enfurnados no ateliê, se chafurdando no caos e criando redes e conexões entre as coisas, os afetos e os conceitos.

Desde criança, o ateliê é meu lugar preferido. Quando digo ateliê não estou me referindo ao espaço arquitetônico em si, até porque nunca tive o privilégio de ter um. Falo de um ateliê metafórico, um ateliê que acontece no espaço corporal. Espaço gerador e processador de afetos que mora dentro do artista. Lugar de instabilidade propulsora.

Sou adepto das teorias que dizem que uma obra artística está sempre em processo, nunca finalizada. As apresentações compartilhadas com o público são apenas pontos específicos do percurso, que mostram onde a pesquisa está naquele momento. A obra continuará se construindo enquanto ela for revisitada.

A ambientação cênica em O Olho da Agulha é uma continuação do ateliê. O corpo se propõe estar em constante estado de experimento. O que importa, para mim, é que os gestos, as ações, as sensações, os movimentos, os pensamentos realizados e vividos em cena possam fortalecer o desejo no corpo de continuar inventando. O motor afetivo das sensações precisa ser estimulado sempre nos corpos dos intérpretes em cena e principalmente nos corpos dos espectadores.

Nosso objetivo dramatúrgico é criar – a partir do mundo visível que nos rodeia – mundos invisíveis sobrepostos. O invisível é tornado visível pela clareza que o bailarino mostra como as forças invisíveis atravessam o seu corpo e o espaço onde ele está inserido. A deformação surge desses atravessamentos. A estranheza é uma das características dessa linguagem que perseguimos. O estranhamento provoca um deslocamento em quem observa um fato. E ao deslocar-se do terreno conhecido, outras sensações inéditas se instalam na memória do corpo.

Partindo da ideia de que as obras artísticas estão sempre em processo, decidimos usar na encenação de O Olho da Agulha elementos cenográficos e alguns figurinos reciclados de outros espetáculos realizados pelo Laboratório Siameses. Vou também revisitar e transformar elementos que foram usados em espetáculos anteriores da minha companhia como, por exemplo, luvas de boxe calçada nos pés e vestimentas estampadas com personagens desenhadas a mão, no tecido. Os desenhos, nessa criação, cumprem a função de dispositivos coreográficos. O trânsito entre as linguagens acontece em mão dupla: os corpos animam as figuras desenhadas e, ao mesmo tempo, as figuras animam os corpos.

Os elementos vão ser reconfigurados (pintados, reformados etc.) para ganhar novos significados na nossa dramaturgia. Nesse modo de pensar e proceder tudo que já foi parte de uma obra ‘finalizada’ pode se tornar novamente arquivo; e esse arquivo será disparador em outros processos criativos. E assim sucessivamente.”

Foto: William Aguiar

Roberto Alencar por si mesmo: 

Há duas décadas Roberto Alencar (48 anos em 2022) trabalha como bailarino com diversos artistas da cena paulistana. Em 2010 voltou-se para um trabalho mais autoral.

Uma característica marcante na minha trajetória profissional é o trânsito entre as artes. Como intérprete do corpo, atuei em espetáculos de dança contemporânea, ações performáticas e intervenções urbanas. Fiz teatro, cinema e televisão como ator.  Nas artes visuais, produzi trabalhos como ilustrador e desenhista. Participei como coreógrafo, diretor de movimento e preparador corporal em algumas produções de teatro paulistanas.

Há 20 anos trabalho profissionalmente como bailarino, mas só em 2010 resolvi me dedicar a um trabalho mais autoral. Desde então, venho estudando e desenvolvendo uma linguagem em que a dança contemporânea está em intercâmbio com outras áreas da criação artística, principalmente, o teatro físico-visual e as artes visuais. Nos últimos sete anos, essa pesquisa está se especializando na relação da dança com o desenho. Tenho me dedicado cada vez mais a investigar as relações entre a gestualidade do corpo no espaço, contaminada pelo gesto do desenhista e vice-versa.

Como diretor e intérprete da Incunábula Companhia, realizei quatro criações: Um Porco Sentado (2010); Alfaiataria de Gestos (2011); Zoopraxiscópio (2014) e Aglomerado (2020). Todos esses trabalhos dialogam com as artes visuais, mas foi a partir de Zoopraxiscópio que a relação mais específica com o desenho se intensificou, e desde então vem se desenvolvendo e sendo uma das inquietações mais significativas da Incunábula Companhia.

No processo de criação de Olho da Agulha, a pesquisa sobre possíveis interações do desenho com o corpo foi muito explorada e continuará sendo aprofundada durante todas as temporadas que se seguirem. No encontro com o Laboratório Siameses muitas camadas inéditas estão sendo agregadas à pesquisa sobre o corpo, em trânsito entre a dança e o desenho.”

Foto: William Aguiar

Laboratório Siameses – uma autodefinição:

“Desdobramento dos 15 anos de investigação com a Companhia de Dança Siameses, o Laboratório Siameses – denominação surgida em 2021 – é um espaço de criação artística que procura, nos cruzamentos entre pessoas e linguagens, entender novas formas de criar junto. Assumindo os riscos de se construir algo em cima de parcerias improváveis e de terrenos inseguros, acreditamos que essa instabilidade é a chave para se redirecionar nossa visão sobre o corpo, a dança e a arte, sobretudo em redescobrir o prazer da criação artística. E não há nada mais subversivo do que despertar o prazer pelo nosso estar-no-mundo.”

Foto: Divulgação
Mauricio de Oliveira, Marina Salgado e Danielle Rodrigues

 

Ficha técnica de O Olho da AgulhaCriação e direção: Roberto Alencar. Idealização: Tono Guimarães e Maurício de Oliveira. Direção de produção: Fernando Araújo. Intérpretes-criadores: Danielle Rodrigues, Marina Salgado e Maurício de Oliveira. Texto: Maria Fernanda Elias Maglio (De vaca, de lobo e de homem), Danielle Rodrigues e Tono Guimarães. Desenho e operação de luz: Mirella Brandi. Montagem de luz: Alexandre Zullu. Trilha sonora: Rodrigo Florentino. Operação de som: May Manão. Desenho de figurino: Adriana Hitomi e Roberto Alencar. Pintura do figurino: Roberto Alencar. Cenografia: Guilherme Isnard. Adereço móbile medusa: Tui Xavier Isnard. Assistente de cenografia: Márcia Liedke. Cenotécnico: Rafael Godói Neves Pinheiro. Gravação trilha: Estúdio Urutu. Fotos: William Aguiar. Videografia: Thiago Zanotta Capella. Identidade visual: Alessandro Romio. Preparação física: Graziely Perdiz. Mídia social: Priscila Pereira. Designer de mídia: Guilherme Romaniche. Administração: Alessandra Herszkowicz. Contabilidade: Recserv Assessoria. Espaço de ensaio: Oficina de Atores Nilton Travesso. Gestão de recursos: Giz Cultural. Realização: Laboratório Siameses. Agradecimentos: Ana Luiza Fay; Léo Vaz, Pablo Figueirôa, Martinha e Oficina de Atores Nilton Travesso; Júlio Dória, Patrícia Borges Mesquita e as equipes dos Teatros João Caetano e Cacilda Becker. Agradecimentos pessoais: Renata Aspesi, Lúcia Romano, Zeca Bittencourt, Manuela Romano Bittencourt, Wagner de Miranda, Cecília Almeida Sales, Rogério Marcondes, Domingos Quintiliano, Gal Oppido.

O Olho da Agulha, que integra o projeto Corpos Octópodes, conta com o apoio da 29ª edição do Programa de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo.

 

Onde:
Teatro João Caetano
Teatro Cacilda Becker
Quando:
25 de fevereiro a 6 de março/2022
Quanto:
Grátis
Info:

Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino, São Paulo/SP)

25 a 27 de fevereiro/2022

Sexta e sábado às 21h

Domingo às 19h

 

Teatro Cacilda Becker (Rua Tito, 295 – Lapa, São Paulo/SP)

4 a 6 de março/2022

Sexta e sábado às 21h

Domingo às 19h