Mulheres em Cena apresenta dez criações em três espaços de São Paulo

A 5ª edição de Mulheres em Cena, projeto idealizado por Vanessa Macedo e produzido pela Cia Fragmento de Dança, de São Paulo, realiza sua segunda etapa de 2021, com mostra de dez trabalhos de dança, teatro e performance, que exploram materiais autobiográficos e o depoimento como linguagem.

As apresentações acontecerão de modo presencial, no Kasulo Espaço de Arte, sede da Cia, e em outros dois espaços parceiros – Teatro Cacilda Becker e Oficina Cultural Oswald de Andrade. No encerramento (31/10/21), às 19h, as artistas envolvidas se encontram com o público, para um bate-papo on-line pela plataforma Zoom.

Foto: Marcela Guimarães
"Eu Outra", com Cia Fragmento de Dança

Na abertura, sexta (22/10/21), a Cia Fragmento de Dança ocupa o Kasulo, às 21h, para a estreia de Eu Outra, um passeio por algumas de suas criações que discutem o feminino. Plagiando a si mesma, a companhia constrói sua autoficção, ora duplo, ora sombra, onde os corpos desenham e borram seus contornos em imagens que se organizam e se confundem no espaço. A coreografia de Vanessa Macedo, dançada junto com Maitê Molnar, conta com a participação cênica de Cristiano Saraiva e Vinicius Francês.

Foto: Mayra Azzi
Beatriz Sano em "Estudo de Ficção"

Dias 23 e 24/10/21, no Teatro Cacilda Becker, acontecem duas apresentações no sábado e uma no domingo.  Estudo de Ficção, de Beatriz Sano é o primeiro de sábado (21h). Partindo da premissa de que a ficção está dentro do corpo, o trabalho tenta borrar o limite entre realidade e ficção e potencializar as fábulas e narrativas já existentes num espaço aparentemente vazio. A proposta é criar o máximo de possibilidades de gestos ficcionais, como se cada pequena parte do corpo pudesse se desmantelar e objetos saíssem de dentro dele.

Na sequência, Mirê Pi dança Sargaço, que propõe alargar as interações afetivas entre corpo-imagem-superfície, dentro de uma perspectiva erótica, tendo o prazer como princípio gerador do movimento. Ao potencializar a experiência erótica na interface desses encontros, o solo busca questionar o repertório de prazer que compõe um corpo e fundir-se entre matérias, fluídos e possíveis forças evocadas.

Foto: Fernando Dias
Jesica Barbosa: "Em busca de Judith"

Domingo, às 19h, Jéssica Barbosa entra em cena com Em busca de Judith, dirigida por Pedro Sá Moraes. Ao se deparar com uma foto em um livro e ouvir um relato familiar, a atriz baiana passou a investigar as condições da morte de sua avó paterna, Judith Alves Macedo, que desde a infância acreditou tivera ocorrido num acidente de carro. Na verdade, a mulher negra, mãe de cinco filhos, fora internada compulsoriamente num hospital psiquiátrico, onde permaneceu até a sua morte, em 1958. A peça é sobre as buscas e descobertas dessa história, permeada pelo silenciamento das vozes femininas e questões que atravessam o sistema manicomial.

Foto: Divulgação
"Kiua Matamba – a força dos ventos" – Mona Rikumbi

De 28 a 30/10/21 (quinta, sexta e sábado), a Oficina Cultural Oswald de Andrade concentra a apresentação de seis trabalhos, dois por noite. A dançarina, palestrante e escritora, Mona Rikumbi, primeira mulher negra e cadeirante a atuar no Teatro Municipal de São Paulo, apresenta na quinta, às 19h, Kiua Matamba, a força dos ventos. Por meio dos valores da cosmovisão africana bantu, o trabalho propõe uma solução lúdica, que pode soprar para bem longe de qualquer criação viva, a dor, o medo, a pandemia, as diferenças raciais e sociais. Em sua mensagem de dignidade e bem viver a todo mundo, Mona Rikumbi é acompanhada ao vivo pelo músico Ngoma.

Tatiana Guimarães se apresenta às 20h, com Breve, que traça um paralelo entre a história de sua avó e a situação macropolítica do Brasil, do fim da ditadura militar até os dias atuais. Breve postula que a ascensão do autoritarismo tem profundos traços patriarcais e traz como pano de fundo a perspectiva de um atentado ao feminino – metaforizado nas figuras da avó e da democracia. No aspecto mitológico, o trabalho reflete dualismos como vida e morte, feminino e masculino, democracia e autoritarismo, que se desestabilizam de forma irruptiva de tempos em tempos.

A performer e videoartista paulistana Estela Lapponi, que tem no centro de sua investigação o discurso do corpo com deficiência, começa as apresentações da sexta (29/10/21), com B.U.N.I.T.A.S. Composta por ação ao vivo – a performer vestida com uma indumentária de cirurgiã, corta sem parar, com um cutelone, um grande pedaço de carne crua pendurado – e instalação visual – projeção de um vídeo documentário, com fotografia fechada em bocas de sete mulheres cis, que descrevem suas vulvas e como gostam de tocá-las -, a performance propõe uma nova narrativa em resposta à ninfoplastia – prática cirúrgica de “correção” da vulva. Participam da obra Angélica di Paula, Cristina Maluli, Juliana Fierro, Luanah Cruz, Paula Cohen, Thais Ponzoni e Vanessa Moraes.

Foto: Carolina Santaella
“Almarrotada” – Melina Marchetti

O trabalho seguinte, Almarrotada, com a atriz Melina Marchetti, é uma investigação sobre solidão “acompanhada” de mulheres casadas no Brasil e no mundo. Do dilema entre a angústia e a promessa de libertação de uma mulher diante da morte iminente de seu marido, de quem passou a vida cuidando, a peça verte histórias, desejos, comportamentos aprendidos e medos da mulher relegada pela sociedade à condição de coadjuvante como cuidadora e o caminho para resgatar o protagonismo de sua vida.

Foto: Danilo Batista
Andreia Nhur em "Mulher sem fim"

No sábado, as apresentações começam uma hora antes – às 18h, com Mulher sem fim, de Andréia Nhur, e segue sem intervalo com Inés Terra em Una mirada desde la alcantarilla. Mulher sem fim transita entre dança, teatro, música e performance, para edificar um corpo constantemente trespassado por ecos de mulheres presentes nas memórias de diversas culturas. De Madame Bovary a Lady Macbeth, passando por Carmen Miranda, o trabalho traça uma dramaturgia da transformação corpórea de uma performer que desenha e apaga sua própria identidade de gênero, por meio de citações de outras mulheres. Os textos são da própria Andréia Nhur.

Por último, Una mirada desde la alcantarilla tem ignição na poesia da escritora argentina Alejandra Pizarnik. No solo de Inés Terra – uma escuta da cidade pelo seu subterrâneo –, a memória é recriada por vozes, numa tentativa de reconstruir os materiais a partir dos resquícios sonoros e reverberações no corpo.

A mostra se encerra no domingo com uma conversa com as artistas sobre seus processos de criação, aberta pela plataforma Zoom, às 19h.

Mulheres em Cena

Esta programação surgiu em 2018, com o desejo de difundir trabalhos concebidos e dançados por artistas mulheres. Inicialmente estruturado de maneira independente, as edições anteriores propuseram recortes específicos, tendo se inaugurado com trabalhos apresentados apenas pelo elenco da Cia Fragmento. Depois, já como mostra, por artistas mães e, por último, por mulheres interessadas na cena-depoimento como linguagem. A 5ª edição traz assuntos plurais, mas mantém o interesse em explorar a discussão sobre gênero a partir da simbiose vida e obra, numa relação em que o poético e o político coexistem.

O projeto é financiado pelo edital ProAC Expresso Lei Aldir Blanc – Prêmio por Histórico de Realização de Mostras, Festivais e outros eventos culturais

Quem participa

Cia Fragmento de Dança – núcleo artístico de pesquisa e produção em dança contemporânea, ao longo dos seus 19 anos de existência, construiu uma linguagem estética autoral interessada em discutir gênero, autoimagem, fricção entre vida e obra. Nos últimos anos, tem se voltado para a investigação do autodepoimento na cena, a experiência da alteridade e a dimensão política do falar sobre si em processos de criação.

Beatriz Sano – professora, coreógrafa e dançarina, vem afirmando a presença da voz e do movimento como elementos fundamentais para a sua pesquisa. Faz parte da key zetta e Cia e tem parcerias com Eduardo Fukushima, Júlia Rocha e Isabel Ramos Monteiro. Pratica o seitai-ho, com Toshi Tanaka e Ciça Ohno; é professora da Escola Livre de Dança de Santo André e cursa o mestrado em Artes da Cena pela UNICAMP.

Mirê Pi – artista não binárie, atuante na dança contemporânea, performance, palhaçaria e arte educação. Produz seus trabalhos partindo de perspectivas relacionadas ao pós-pornô, a comicidade e a educação somática como base para a pesquisa de movimento.É graduanda em Dança na Universidade Federal de Alagoas.

Jéssica Barbosa – atriz e realizadora baiana, com uma produção artística voltada para os temas da negritude, saúde mental, feminismo e corpos não hegemônicos. Por três anos foi artista residente do Programa Casa B, do Museu Bispo do Rosário, do Rio de Janeiro, onde idealizou e realizou a série de encontros online Interfaces: arte e saúde mental, e a peça-filme “Em busca de Judith”, com direção de Pedro Sá Moraes.

Mona Rikumbi (filha do Sol) – primeira mulher negra e cadeirante a atuar no Teatro Municipal de São Paulo, possui dois documentários – “Mona a trajetória da mulher negra e cadeirante no Brasil” e “Eu tô aqui” -, ambos de Lucca Messer. Atriz, dançarina, palestrante, escritora, é co-produtora do documentário “Transo”, afirmação da sexualidade da pessoa com deficiência. Possui selo de criativista pelo ONU (2020 e 2021); participou do Festival Assim Vivemos (2019 e 2021), e do Festival Sem Barreiras (2020).

Tatiana Guimarães – graduada em cinema e mestranda pela USP, trabalhou com reconhecidos(as) artistas da dança de SP e com diretores(as) de teatro e cinema. Agente cultural desde 2006, criou, em 2013, o núcleo ‘Micromovimentos Dança&Cinema’, projeto artístico nas intersecções entre as linguagens da dança e do cinema. Publicou artigos em revistas, como a ‘Urbânia’, da Bienal de Artes, e escreve para livros didáticos de arte, nas áreas de dança e cinema, pela editora IBEP.

Estela Lapponi – performer e videoartista paulistana, tem como objetivo de investigação artística o discurso do corpo com deficiência, a prática performativa e relacional (público) e o trânsito entre as linguagens visuais e cênicas. Desde 2009, realiza práticas investigativas em diversas linguagens sobre o conceito que criou – Corpo Intruso e sua performatividade em Zuleika Brit.

Melina Marchetti – é atriz, dramaturga e diretora, bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Campinas. Com 12 anos de trajetória artística, há quatro desenvolve o projeto Almarrotada, onde, sob a ótica feminista, pesquisa sexismo, protagonismo de vida das mulheres, construções sociais do amor romântico e da heteronormatividade compulsória.  Recebeu os prêmios de Melhor Atriz, Espetáculo, Cenário e Iluminação pelo monólogo “Almarrotada”, no 8º Festival de Teatro de Sarapuí (SP).

Andréia Nhur – artista e professora no Departamento de Artes Cênicas da USP, já se apresentou em festivais internacionais em Portugal, Bélgica, Argentina, Bolívia e Brasil, em produções que transitam entre dança, teatro e música. Junto aos coletivos Katharsis e Pró-Posição, foi premiada com o APCA 2013 (pesquisa em dança) e Prêmio Denilto Gomes 2017 (melhor intérprete). Em 2020, foi professora visitante da Ghent University (Bélgica) e desenvolveu residências artísticas em parceria com Paola Bertolini.

Inés Terra – musicista e performer, explora a voz como um modo de habitar diferentes corpos e estuda relações entre gênero, voz e tecnologia. Idealizou a série de performances vocal “Língua Fora”, em parceria com a Editora Leviatã. Lançou o álbum audiovisual Ruminar (Editora Leviatã), o disco Teia (RKZ Records), com Julia Teles, e participou de eventos focados na música exploratória e na performance, como o Ciclo Dissonantes (BR, 2016 & 2017), Cartografia do Possível (CRDSP, 2018), CHIII Festival (BR, 2021), Movement Research at the Judson Church (2019, EUA), Ciclo Ruído, (AR/EUA, 2021), Festival de Eco Performance (BR, 2021), da companhia Taanteatro e Dystopie Festival (Berlim, 2020).

Onde:
Kasulo Espaço de Arte
Teatro Cacilda Becker
Oficina Cultural Oswald de Andrade
Quando:
22 a 31 de outubro/2021
Quanto:
Grátis
Info:

5º Mulheres em Cena – Mostra de apresentações cênicas

22/10 (sexta-feira)

Kasulo Espaço de Arte

Rua Souza Lima, 300 – Barra Funda

21h – “Eu Outra” – Cia Fragmento de Dança

Duração: 40 minutos l classificação etária: 14 anos

23 e 24/10 (sábado e domingo)

Teatro Cacilda Becker

Rua Tito, 295 – Lapa

23/10 21h

“Estudo de Ficção” – Beatriz Sano

Duração: 30 minutos l classificação etária: livre

“Sargaço”, de Mirê Pi

Duração: 30 minutos l classificação etária: 14 anos

24/10 19h

“Em busca de Judith” – Jéssica Barbosa

Duração: 45 minutos l classificação etária: 12 anos

De 28 a 30/10 (quinta, sexta e sábado)

Oficina Cultural Oswald de Andrade

Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro

28/10

19h “Kiua Matamba – a força dos ventos” – Mona Rikumbi

Duração: 35 minutos l classificação etária: Livre

20h – “Breve” –Tatiana Guimarães

Duração: 15 minutos l classificação etária: 18 anos

29/10 

19h – “B.U.N.I.T.A.S.[CE]” – Estela Lapponi

Duração: 25 minutos l classificação etária: 18 anos

20h – “Almarrotada” – Melina Marchetti

Duração: 40 minutos l classificação etária: 14 anos

30/10 18h (sem intervalo)

Mulher sem fim – Andréia Nhur

Duração: 50 minutos l classificação etária: livre

Una mirada desde la alcantarilla – Inés Terra

Duração: 25 minutos l classificação etária: livre

31/10 (domingo), 19h

Bate papo com as artistas participantes

Plataforma ZOOM

Sala ZOOM

ID da reunião: 897 2528 3409

Senha de acesso: mulheres

Ingressos Gratuitos – distribuição 1h antes na bilheteria dos locais

*no Kasulo, reserva de ingressos pelo e-mail producaociafragmento@gmail.com

Capacidade de público reduzida

Obrigatório apresentação de carteira de vacinação com pelo menos a 1a. dose

Distanciamento de 1m entre as cadeiras na platéia

Uso de máscara obrigatório