Marcos Abranches estreia ‘O Idiota’, inspirado em Dostoiévski e com direção de Sandro Borelli

O bailarino e coreógrafo Marcos Abranches, de São Paulo, estreia seu novo solo – O Idiota, inspirado em obra homônima do escritor russo Fiódor Dostoiévsky (1821-1881). Sandro Borelli assina a direção cênica e coreográfica.

Inicialmente planejado para estrear em abril de 2020, o espetáuculo teve que ser adiado por conta da pandemia do novo coronavírus. Enquanto não chega aos palcos físicos, a criação será apresentada em versão online.

A apresentação online contará também com uma videoarte baseada no trabalho, produzida por Gal Oppido.

Após as apresentações haverá um bate-papo com a plateia, conduzido por Sandro Borelli, Gal Oppido, Ricardo Neves e outros convidados.

As ações que compõem esse projeto têm o apoio do Programa de Fomento à Dança na Cidade de São Paulo, da Secretaria Municipal de Cultura. As apresentações são realizadas pelo Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo (CRDSP).

Marcos Abranches costuma buscar referências nas artes visuais em muitas de suas criações. Em O Idiota, ele preferiu mudar para o cinema, inspirando-se em filmes como It e Coringa, que são protagonizados por um palhaço extremamente perturbado e violento, reflexos das sociedades onde vivem. “Sempre me interessou essa ligação do palhaço com o lado grotesco da existência”, diz Marcos.

Com a entrada de Sandro Borelli na criação, o espetáculo ganhou forte apelo político, o que se intensificou com a quarentena e o cenário atual do Brasil. Para realizar a direção, Borelli buscou inspiração no livro O Idiota, de Dostoiévski.

“O Estado vem criando cidadãos cada mais cerceados, emparedados e com senso crítico limitado”, comenta Borelli. “Um governo extremista como o que temos no poder tem interesse que essa prática continue a ser perpetuada. A polarização, a falta de informação, a proliferação de pessoas violentas e o domínio cada vez maior sobre o cidadão é sempre benéfico para um governante autoritário. Com a parada que tivemos nos ensaios por conta da pandemia do Covid-19, o espetáculo acabou ganhando muito porque todo o cenário nos tornou mais sensíveis às questões que buscávamos”.

Para Marcos Abranches, o espetáculo é “um espelho subjetivo de uma sociedade manipulada por políticos inescrupulosos que, por seus desejos e interesses maiores, querem nos fazer acreditar em seus governos”.

A transposição de tais percepções para a cena provocaram transformações na postura cênica até então cultivada por Marcos Abranches. Segundo Borelli, agora ele está mais focado na movimentação gestual. “Ele personifica um cidadão perturbado por todo o barulho político do País, aparentando incoerência e repetindo citações absurdas, ditas por algumas figuras que fazem parte da atual gestão política”.

As três videoartes produzidas por Gal Oppido também compartilham as mesmas premissas. “Os vídeos são minha leitura do projeto, feita a partir de uma troca com Marcos e Sandro”, diz Oppido. “O conceito reflete o que estamos passando, mostrando esse momento sociopolítico, de instabilidade de convívio, trazendo também minhas críticas e visões pessoais”.

Foto: Gal Oppido

Retomada de parceria

Sandro Borelli foi um dos principais incentivadores do início da carreira de Marcos Abranches, que depois de um tempo decidiu alçar voos solos. Agora, uma década e meia depois, os dois artistas retomam a parceria. Marcos comemora esse momento.

“Sempre vi no Sandro uma águia que todo pequeno pardal quer se inspirar para voar alto. Seus ensinamentos sempre foram voltados para encontrarmos significado naquilo que estamos fazendo. Sandro insistiu e me orientou para a pesquisa e persistência nos treinamentos. Voltar a trabalhar com ele é reconhecer que, no menor dos movimentos, é necessário entender o significado da dança. Sandro nos faz refletir sobre a importância da pesquisa e da arte cênica e me mostra que é preciso internalizar o movimento antes de o colocar para fora”, conta o bailarino.

Sandro Borelli, por sua vez, disse que viu um Marcos diferente e disposto a testar coisas novas em O Idiota. “A parada do projeto, provocada pela pandemia, nos fez aprimorar muitos detalhes no espetáculo e isso tem nos dado mais força. Assim que houver segurança para tanto, levaremos esse espetáculo para o palco. O Marcos está trazendo uma riqueza e potência de movimento muito grande para este trabalho. Em um momento como esse, ter um artista como ele expressando algo tão político, é dar uma enorme voz para minorias e para a arte periférica”, afirma.

O Idiota foi feito pensando na proximidade com o público e só irá atingir sua potência máxima quando retomarmos os palcos novamente”, diz Sandro, antevendo o futuro retorno para os teatros.

Sobre Marcos Abranches

Marcos Abranches iniciou sua trajetória como artista independente em 2007, trabalhando com coletivo artístico que agrega artistas de diversas linguagens. Traz em seu cerne as experiências de ter atuado na Cia. FAR 15, nos espetáculos Senhor dos Anjos, Jardim de Tântalo e Metamorfose, de Franz Kafka, sob direção e com coreografias de Sandro Borelli. O coletivo de artistas criados por Marcos, inicialmente, se chamava Vidança Cia, que a partir de 2017, passou a se chamar Marcos Abranches & Cia. Suas principais obras de seu repertório são Formas de Ver, Via de Regra, Corpo sobre Tela, Canto dos Malditos e O Grito.

Ficha técnica de O Idiota – Concepção e direção geral: Marcos Abranches. Direção artistica e coreográfica: Sandro Borelli. Intérprete criador: Marcos Abranches. Videoarte e fotos: Gal Oppido. Desenho de luz: Sandro Borelli. Trilha sonora: Pedro Simples.  Colaboradores: Caio Franzolin e Ricardo Neves. Preparação corporal: Jorge Garcia, Mariana Muniz, Pedro Penuela, Ricardo Neves e Sandro Borelli. Registro em vídeo do espetáculo na íntegra: Alex Merino. Assistente de produção: Maria Julia Tóffuli. Direção de produção: Solange Borelli/Radar Cultural Gestão e Projetos.  Divulgação social mídia: Renato Fernandes. Apoio: Cooperativa Paulista de Dança, Oficina Cultural Oswald de Andrade, Kasulo – Espaço de Arte e Cultura. Realização: Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo.

Ficha técnica da videoarte O Idiota (feito a partir de performance de Marcos Abranches, com direção de Sandro Borelli). Direção, cinematografia e câmera:

Gal Oppido. Texto: Adriano Nunes. Edição e trilha: Nikolas Chacon. Voz: Rubens Caribé. Áudio em cena: Pedro Borelli.

Foto: Gal Oppido

 

Onde:
Internet - aplicativo Zoom
Quando:
17 de julho a 2 de agosto
Sexta a domingo, 21h
Quanto:
Grátis
Info:

As apresentações online de O Idiota, da videoarte e o bate-papo acontecerão por meio do aplicativo Zoom.

Reserva de ingressos pelo link do Sympla: https://www.sympla.com.br/urlAlias/render?alias=marcosabranchesecia

Capacidade da sala virtual: 60 pessoas.

Duração: 90 minutos.

Classificação etária: 18 anos.