Leandro Souza expõe questões sobre negritude em seu novo solo, ‘Eles fazem dança contemporânea’

Leandro Souza buscou na performance e nas artes visuais a inspiração para sua nova criação – o solo Eles fazem dança contemporânea, que estreia no Centro Cultural São Paulo.

Em cena, num cenário que reproduz o tradicional cubo branco de galerias de arte, o bailarino procura a relação entre seu corpo, a fala e um objeto cênico. O espetáculo se dá a partir de uma lógica de repetição, sobreposição e transformação contínuas – de ações, movimentos e produção de imagens, com o propósito de instaurar uma cena síntese, capaz de dar vazão às questões em jogo no trabalho.

Foto: Tetembua Dandara

A voz de Leandro, repetindo as mesmas frases (em inglês e português) vai criando uma espécie de ritmo para a cena, além de uma sensação de quase hipnose junto ao público, enquanto ele executa movimentos que fogem dos sinais codificados da dança.

“Há algum tempo busco em outras linguagens além da dança desafios e respostas para as minhas inquietações. Somente a ideia de dança, entendida como realização exclusiva do movimento corporal organizado ritmicamente no tempo e espaço, não daria conta dessas questões. E Eles fazem dança contemporânea também trata dessa tentativa de não se prender a conceitos pré-estabelecidos . Eu quero falar sobre os riscos e a potência de ser artista negro e fazer dança diante de uma paisagem tomada de demandas por representatividade, questões sobre apropriação cultural e anseio pela descolonização da produção de arte e conhecimento, que nos desafiam a repensar o como viver juntos considerando, não apenas nossas similaridades, mas também nossas divergências”, explica Leandro.

O bailarino ressalta que a ideia também é discutir como é ser um artista negro e criar/pesquisar dança contemporânea na cidade de São Paulo. “Existem muitas expectativas e idealizações no imaginário da nossa sociedade de como corpos negros devem ou deveriam dançar. Os corpos negros só podem circular em alguns lugares estabelecidos por um lógica colonial (a lógica do recinto fechado como bem fala Achille Mbembe). Sei que esse trabalho só arranha o tema e não elucida nenhuma dúvida, só levanta questões que precisam ser faladas. Ao mesmo tempo, há uma necessidade e um desejo das amplas e diversas populações negras afrodescendentes de valorizar, afirmar e ressignificar modos de fazer e pensar cultura e arte, que por séculos tem sido marginalizadas e vilanizadas. Nos dias atuais, a perseguição a esses modos de existências tem sido acirrados cada vez mais. Entretanto, a diáspora produziu uma infinidade de negritudes que nem sempre podem ser alinhavadas harmonicamente. Como artista, eu penso que a divergência e uma certa crítica e desobediência a mecanismos totalizadores são fonte de riqueza e não enfraquecimento. Em termos de arte, eu me interesso por essa negritude que escapa e nos dribla quando tentamos agarrá-la, domá-la e submetê-la às nossas boas ou más intenções”.

Foto: Tetembua Dandara

A criação anterior de Leandro Souza, Sismos e Volts, ganhou o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de 2018 na categoria “Interpretação”.

Ficha técnicaConcepção, criação e dança: Leandro Souza. Provocação: Ana Pi, Inês Terra, Renan Marcondes e Thaís de Menezes. Luz: Gabriele Souza. Som: Thiago Salas. Figurino: Leandro Souza. Fotos e produção: Tetembua Dandara. Arte gráfica: Pedro Campanha.

Onde:
Centro Cultural São Paulo
Sala de Ensaio 1
Quando:
1º a 11 de agosto/2019
Quinta, sexta e sábado às 20h
Domingo às 19h
Quanto:
Grátis
Info:

Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, São Paulo (SP), tel. (11) 3397-4002. Estação de metrô: Vergueiro.

Capacidade: 35 lugares.

Duração: 50 minutos.

Classificação etária: 16 anos.

Ingressos: não disponíveis na internet; cada pessoa poderá retirar um par na bilheteria, que estará aberta 2h antes da apresentação.