Grupo Corpo inaugura turnê nacional no Teatro Alfa com estreia de “Primavera”

A pandemia do novo coronavírus também colocou em compasso de espera as aguardadas temporadas anuais do Grupo Corpo.

Agora, com a vacinação em curso e o relativo controle da pandemia, os teatros começam a abrir suas portas e o Grupo Corpo está de volta aos palcos, com os cuidados sanitários que a situação ainda exige.

Neste segundo semestre de 2021, o Teatro Alfa, de São Paulo, retoma sua Temporada de Dança* e novamente abre as portas para as habituais temporadas do Grupo Corpo, que traz uma nova criação – Primavera, de Rodrigo Pederneiras – para celebrar seu reencontro com o público.

Primavera marca mais uma parceria do Grupo Corpo com uma expressão importante da música brasileira – agora a dupla paulistana Palavra Cantada, formada por Sandra Peres e Paulo Tatit.

O reencontro do Grupo Corpo com as plateias presenciais se inicia no Teatro Alfa de São Paulo, de 27 a 31 de outubro, continua no Palácio das Artes de Belo Horizonte, entre 10 e 14 de novembro e no Rio de Janeiro (em datas a serem confirmadas).

O programa, além de Primavera, apresenta Gira, coreografia de Rodrigo Pederneiras de 2017, com música da banda Metá Metá.

Foto: José Luiz Pederneiras

Primavera

Cor e leveza marcam Primavera, que evoca a percepção de recomeço.

“Estávamos presos nas nossas casas”, conta Rodrigo Pederneiras, “sem poder ensaiar, reunir o grupo, programar um espetáculo, projetar uma temporada, com os bailarinos fazendo aulas remotas”. Havia, claro, o horizonte das lives pelas plataformas digitais; e, nos últimos 18 meses, o grupo veio liberando gravações de balés e fazendo diversos eventos nas plataformas digitais, para o público. Nesse viés, em dezembro de 2020, começou a nascer a ideia de criar peças curtas, montar novas coreografias para a internet. E foi bem nesse ponto que uma conversa casual pelo whatsapp alinhou, num tedioso domingo à noite, o coreógrafo mineiro e o compositor Paulo Tatit, conhecidos de longa data.

“Foram quatro horas de mensagens pra cá e pra lá”, lembra Tatit. “E surgiu a ideia de selecionarmos e adaptarmos os playbacks da Palavra Cantada. Enviamos, Sandra e eu, dezenas de playbacks dos nossos 27 anos de carreira. Rodrigo selecionou 14 deles e começamos a trabalhar”, diz o compositor.

O conjunto foi se ajustando, se complementando, ganhando uma feição, traduzida em módulos que fluíam. Florescendo, por assim dizer; e deixando de remeter ao universo infantil. Saíram as vozes, as melodias praticamente desapareceram, entraram novos instrumentos. O projeto que nascera em forma de peças curtas e independentes para a internet ganhou unidade – foi virando um conjunto. Emergiu uma continuidade. “Prelúdios, de 1985, parte de uma ideia assim: são peças soltas unidas pela coreografia”, complementa Rodrigo. Dessa vez, o romântico Chopin deu lugar ao sofisticado som do trabalho de Tatit e Peres para as crianças.  “Eu diria que são divertissements”, acrescenta o diretor artístico Paulo Pederneiras, referindo-se ao gênero que define pequenas peças de música ou dança abordado por grandes criadores. De novo, a necessária leveza em tempos tão difíceis.

Com as adaptações, a remixagem e alguns acréscimos, a trilha emergiu – e seu conjunto encadeia uma gama de estilos musicais às vezes bem contrastantes, indo de um jazz light à percussão afro, em seus 36 minutos de duração. “Construímos um balé completamente diferente, singular, com a música de alta qualidade da Palavra Cantada”, define Rodrigo. “Diferente também porque é, como uma primavera, uma antecipação de dias melhores. Conjuramos assim um futuro mais ameno e, por que não, mais feliz”.

Foto: José Luiz Pederneiras

Três pas-de-deux e distanciamento

Assim, nascido na pandemia, o balé incorpora – e, de certo modo, abraça – as interdições do momento. “Há somente três pas-de-deux”, comenta Rodrigo Pederneiras. “Só se tocam os bailarinos que são casais, vivem juntos” – Agatha e Lucas, Mariana e Elias, Karen e Rafael. “O restante do espetáculo se desenvolve em duos, trios, quartetos e todos mantêm distância entre si; há somente uma cena com oito bailarinos”.

Apesar do distanciamento físico entre os bailarinos, curiosamente a sensação de proximidade é forte – e os destaques individuais, mais constantes. “Em Primavera temos a chance de ver cada elemento da companhia de maneira mais focada, mais íntima”, ressalta Rodrigo.

Foto: José Luiz Pederneiras

Materialização da música

“É simplesmente um grande privilégio, é comovente ver o nosso trabalho vibrando, fisicamente, no balé do Grupo Corpo, onde passamos a enxergar a música; ela se materializa”, diz Sandra Peres. “Levar a nossa música para o universo adulto, com outro recorte, tem sido uma experiência fabulosa”. Há 27 anos, a Palavra Cantada – Sandra Peres e Paulo Tatit – vem trazendo ao público infantil música de qualidade indiscutível (“pensamos nessa qualidade como a melhor nutrição artística possível, da mesma forma que um alimento para as crianças precisa ser muito nutritivo”, ela completa) e propostas artísticas instigantes.

Aqui, o caráter infantil das canções originais como que se dissolve na adaptação que chega perto de uma recriação. “Com a supressão da letra, da voz cantada e de boa parte das linhas melódicas, fomos inserindo linhas de piano, violão, contrabaixo e alguns vocalises”, explica Paulo Tatit. “A base instrumental é bem aberta e o resultado ficou muito sofisticado”, completa.

Na trilha de Primavera, portanto, surgem 14 das canções de Paulo Tatit e Sandra Peres, compostas e gravadas entre 1999 e 2017, remixadas e retrabalhadas. Papel fundamental foi o do produtor, músico e engenheiro de som Ricardo Mosca, que tratou de equilibrar e uniformizar o som de cozinhas instrumentais gravadas em estúdios diferentes, com recursos variados. “Muita coisa foi repensada para deixar a música mais pulsante”, conta Mosca, “com excelência na sonoridade”.

Foto: José Luiz Pederneiras

Ambientação e figurinos

Na construção da linguagem cenográfica de Primavera, a ideia inicial – de criar peças menores para a internet – ficou no fundo da cabeça de Paulo Pederneiras, diretor artístico e cenógrafo do Corpo. “Quando vimos que havia ali um arco, um conceito, um espetáculo inteiro, eu já estava testando o uso de câmeras e decidi tirar partido dessa ideia”, explica. “No espetáculo, posicionamos duas câmeras minúsculas à frente do palco, operadas da coxia, trabalhamos as projeções dos bailarinos em tempo real, projetadas numa tela de tule preto, atrás da cena”.  É a primeira vez que a companhia usa o recurso em seus espetáculos.

No contraste com a caixa cênica negra, os figurinos criados por Freusa Zechmeister para as bailarinas são monocromáticos, em cores fortes – tons de amarelo, laranja, vermelho e verde -, com saias de musseline amassada que voejam, bordando o ar, sobre collants. Já os homens envergam figurino mais clássico, calças pretas de neoprene, com corte social mais despojado, com camisetas justas, off-white, em malha de algodão.

Foto: José Luiz Pederneiras
Cena de "Gira"

Gira em tempos de pandemia

A coreografia que completa o programa da atual temporada – Gira, de Rodrigo Pederneiras com trilha sonora do Metá Metá – tem algumas adaptações na logística de cena. Como os bailarinos não deixam nunca o palco – quando não estão no ‘terreiro’, o retângulo iluminado, se colocam nas cadeiras em torno, sob véus negros – as movimentações foram recalculadas para evitar ao máximo o contato e a proximidade.

Os ritos da umbanda – a mais cultuada das religiões nascidas no Brasil, resultado da fusão do candomblé com o catolicismo e o kardecismo – são a grande fonte de inspiração da estética cênica de Gira. Exu, o mais humano dos orixás – sem o qual, nas religiões de matriz africana, o culto simplesmente não funciona – é o motivo poético que guia os 11 temas musicais criados pelo Metá Metá para Gira.

 

(as entrevistas com Rodrigo Pederneiras e Paulo Tatit foram feitas por Luciana Medeiros)

 

*A Temporada de Dança de 2021 no Teatro Alfa, que retoma apresentações presenciais, apresentam, além do Grupo Corpo, a São Paulo Companhia de Dança (16 e 17 de outubro) e Companhia de Dança Deborah Colker, com estreia do espetáculo Cura (4 a 14 de novembro).

 

Onde:
Teatro Alfa
Palácio das Artes
Quando:
27 de outubro a 14 de novembro/2021
Quanto:
R$ 200 e R$ 50 (em São Paulo)
Info:

Grupo Corpo

Em São Paulo:

27 a 31 de outubro/2021 – quarta, quinta e sexta às 20h30; sábado às 20h; domingo às 18h.

Teatro Alfa: Rua Vento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, São Paulo (SP).

Ingressos: R$ 200 (plateia) e R$ 50 (plateia superior).

Venda de ingressos on-line: www.sympla.com.br; também na bilheteria do Teatro Alfa (sem taxa de serviço), pessoalmente ou pelo telefone (11) 5693-4000.

Protocolo de combate à covid-19: www.teatroalfa.com.br/protocolos-para-o-combate-da-covid-19

Em Belo Horizonte:

10 a 14 de novembro/2021 – quarta a domingo

Palácio das Artes: Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, Belo Horizonte (MG), telefone (31) 3236-7400.

 

No Rio de Janeiro: datas e locais a serem confirmados.