Grupo Corpo apresenta “21” e “Gira” no Teatro Sérgio Cardoso

Duas coreografias criadas com 25 anos de distância uma da outra – 21 nasceu em 1992, Gira em 2017 – compõem o programa de uma temporada extra do Grupo Corpo em 2022 no Teatro Sérgio Cardoso.

Foto: José Luiz Pederneiras
"21"

O programa abre com 21, marco da grande virada do Grupo Corpo na consolidação não apenas de sua linguagem coreográfica, mas de seu método de criação: foi a partir daí que as trilhas sonoras passaram a ser encomendadas e a servir de base para a construção dos espetáculos.

Foto: José Luiz Pederneiras
"Gira"

Gira, saudada pela crítica como uma nítida, embora sutil, renovação desse vocabulário, representa outro ponto de inflexão ao incorporar os movimentos da umbanda. Mais: Gira, assim como 21, foi concebida “num estirão só”, conta Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Grupo Corpo.

“Não há dúvida de que 21 foi o marco no desenvolvimento da nossa linguagem”, diz Rodrigo. “Paulo [Pederneiras, diretor artístico do grupo] decidiu encomendar a trilha e, a partir daí, adotamos esse método de trabalho. E 21 traz uma estrutura singular, absolutamente numérica; foi um conjunto de ideias artísticas que se plasmou ali”.

Sobre Gira, que aborda a brasilidade da grande mistura cultural, Rodrigo comenta: “O trabalho veio num momento especial, falando do povo brasileiro: somos um grande amálgama, assim como a umbanda carrega África, catolicismo,  kardecismo”.

Foto: José Luiz Pederneiras

As múltiplas combinações de 21

Criado em 1992, 21 é um divisor de águas na história do Grupo Corpo. Depois de atuar por uma década com temas musicais pré-existentes, com este balé a companhia mineira de dança não apenas volta a trabalhar com trilhas especialmente compostas – como acontecera em seus primórdios nos bem-sucedidos Maria, Maria e Último Trem, ambos com música original de Milton Nascimento e Fernando Brant – como passa a adotar como regra este critério. A decisão proporciona a Rodrigo Pederneiras a oportunidade de dar início à construção do extenso vocabulário coreográfico, de inflexões notadamente brasilianas, que se tornaria marca registrada das criações do grupo.

Das inúmeras combinações sugeridas pelo no 21, grande o suficiente para conter em si todos os números básicos, e pequeno o suficiente para não se distanciar deles, nasceram a música de Marco Antônio Guimarães e o balé do Grupo Corpo, numa gestação que durou seis meses entre o processo de criação da música e a fase final dos ensaios. Divididas em três partes, música e coreografia de 21 surpreendem o espectador a todo o momento ao longo dos 40 minutos de duração do espetáculo.

A força contida na tensão entre as cores vermelha, da luz chapada de fundo, e amarela, das malhas utilizadas pelos bailarinos, dá o tom da primeira parte do balé, onde a repetição de múltiplas combinações rítmicas e timbrísticas em escala decrescente do 21 até o 1 ganha um quê minimalista.

Oito pequenas peças musicais extraídas das combinações entre os números 6, 5, 4, 3, 2, 1 (que, somados, dão 21), e que alternam elementos das músicas erudita, popular, oriental, cigana e jazzística dão vida ao que os criadores de 21 chamam de os hai-kais do miolo do espetáculo – numa alusão aos poemas japoneses estruturados em cima de três versos curtos.  Confinados numa espécie de caixa preta de tule, que reduz o espaço físico do palco, ao mesmo tempo em que lhe cria uma veladura, os hai-kais funcionam quase como um parênteses no espetáculo, marcado por uma linguagem simples e econômica, e uma iluminação artesanal, feita, por vezes, pelos próprios bailarinos.

Uma colcha de retalhos monumental, com estampas de colorido vibrante tipicamente interioranas, cortadas por figuras geométricas que remetem a primitivas pinturas africanas e fazem referência às partituras musicais de Marco Antônio Guimarães, deixa antever a explosão do momento final do balé. Aqui, música e coreografia brincam com citações regionais, provocam lembranças de folguedos populares, e guardam por trás da aparente simplicidade estruturas complexas, como as divisões em 7 da música (que, a cada três repetições, somam, mais uma vez, 21). Tudo desemboca numa percussão quase tribal que permite a Rodrigo Pederneiras desenhar com os corpos de seus bailarinos a melodia oculta no deslumbrante espetáculo rítmico oferecido por este trecho da composição de Marco Antônio Guimarães.

Foto: José Luiz Pederneiras
"Gira"

Gira: um mergulho no universo das religiões afro-brasileiras

Gira, fruto da parceria da companhia mineira de dança com a banda paulistana Metá Metá, se inspira livremente nos ritos da umbanda. O Metá Metá (“três ao mesmo tempo”, em iorubá), através do convite dos Pederneiras, avançou em sua ideia de dedicar um trabalho inteiro a Exu, o orixá responsável pela comunicação entre o mundo espiritual e o mundo material.

O trio formado por Juçara Marçal (voz), Thiago França (sax) e Kiko Dinucci (guitarra) – com reforço de Sérgio Machado (bateria, sampler e percussão) e Marcelo Cabral (baixo elétrico e acústico) – produziu uma coleção de temas/canções que aos poucos foram se dilatando na configuração própria para um espetáculo de dança.  A trilha de Gira conta com as participações especiais do poeta, ensaísta e artista plástico Nuno Ramos, que assina uma das letras, e da cantora Elza Soares em duas faixas.

Mergulhar no universo das religiões afro-brasileiras para se alinhar ao tema proposto pelo Metá Metá foi a primeira providência dos criadores do Grupo Corpo – através da literatura e, em seguida, numa pesquisa de campo, com visitas a terreiros de candomblé e umbanda.  Por ser mais sincrética e brasileira, a umbanda foi se impondo mais que o candomblé.  E Gira foi se moldando como uma visão poética da necessidade atávica do homem (chão) de se conectar com o divino (céu) ou simplesmente com o oculto (caos?).

A cena se traduz num espaço retangular de linóleo negro, de 13m X 9m, intensamente iluminado – representação simbólica de um terreiro, a grande nave da liturgia afro-brasileira. Não há coxia: nas laterais e no fundo do palco, 21 cadeiras estão alinhadas e nelas os bailarinos se colocam ao sair da cena central. Sobre cada cadeira, uma luz tênue sinaliza uma presença. O espaço assinado por Paulo Pederneiras é coberto de tule negro, tecido que também envolve os bailarinos sempre que estão fora da cena.

Riscadas por trios, duos ou solos brevíssimos, as formações de grupo (frequentemente em número de sete) são recorrentes. Nos figurinos, Freusa Zechmeister adota a mesma linguagem para todo o elenco, independente do gênero: torso nu, com a outra metade do corpo revestida por saias brancas de corte primitivo e tecido cru.

Onde:
Teatro Sérgio Cardoso
Quando:
27 de abril a 1º de maio/2022
Quarta a sábado às 20h30
Domingo às 17h
Quanto:
R$ 50 e R$ 25 (meia-entrada)
R$ 150 e R$ 75 (meia-entrada)
Info:

Programa:

21 (estreia: 1992) – Coreografia: Rodrigo Pederneiras. Música: Marco Antônio Guimarães / UAKTI. Cenografia: Fernando Velloso. Figurinos: Freusa Zechmeister. Iluminação: Paulo Pederneiras.

Duração: 40 minutos

Gira (estreia: 2017) – Coreografia: Rodrigo Pederneiras. Música: Metá Metá. Cenografia: Paulo Pederneiras. Figurinos: Freusa Zechmeister. Iluminação: Paulo Pederneiras e Gabriel Pederneiras.

Duração: 40 minutos.

Teatro Sérgio Cardoso: rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo (SP).

Bilheteria: de terça a sábado, das 14h às 19h. Tel. (11) 3288-0136.

Venda de ingressos on-line: https://bileto.sympla.com.br/event/72715/d/135054

Classificação etária: 14 anos.