Eliana de Santana estreia o solo “Tudo que é imaginário existe e é e tem”

Inspirada anteriormente por obras literárias, como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, contos de Clarice Lispector ou o poema Tragédia Brasileira, de Manuel Bandeira, Eliana Santana, da E² Cia de Teatro e Dança, de São Paulo, agora estreia Tudo que é imaginário existe e é e tem um trabalho cênico a partir da fala assertiva e desconcertante de Estamira Gomes de Sousa (1941 – 2011), mulher que trabalhava no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, e que teve a vida apresentada no filme-documentário Estamira, de Marcos Prado.  A obra cinematográfica é carregada de falas e ensinamentos filosóficos profundos sobre o descaso público, a constante violência social e outros assuntos caros à Estamira, tida como uma mulher com distúrbios mentais, mas também como uma grande profetisa dos nossos tempos.

Foto: Hernandes de Oliveira

Tudo que é imaginário existe e é e tem, uma das frases ditas por Estamira no documentário, também nomeia este espetáculo solo de dança, dirigido e interpretado por Eliana Santana.

“Cada palavra de Estamira é um estupor. Fico até muito comovida em fazer esse trabalho, porque os ensinamentos dela são muito potentes, sobretudo neste momento que estamos vivendo no Brasil”, comenta Eliana Santana.

Segundo Hernandes de Oliveira, diretor de arte, cenógrafo e iluminador, o espetáculo dá prosseguimento à pesquisa do grupo, que traz a palavra e a visualidade como referências para diversas possibilidades de construção no corpo e na cena. “Existe uma trilha sonora, mas também muito silêncio, pois eles são importantes para a confecção deste trabalho, assim como uma luz discreta e poucos elementos cênicos, como um carrinho de mão carregado de flores”, adianta Hernandes.

Foto: Isabelle India

Pode-se dizer que a obra busca trazer para a cena a força das palavras de Estamira em consonância com seu corpo e gestos. Como reforça a equipe de criação da E² Cia de Teatro e Dança, esses elementos foram captados com maestria no filme de Marcos Prado e funcionaram como uma espécie de guia para a criação da obra.

No seu depoimento, Estamira toca em várias feridas sociais, como a sedução pelo capital, o prestígio sem obra, a indiferença com o outro e o silêncio autorizante diante do horror nesses tempos de apagamento de toda singularidade. Seu testemunho não é apenas opinião, o documentário acompanha sua trajetória trágica e traz um nível maior de compreensão para a força de sua fala.

A pesquisa artística realizada pelo grupo está alicerçada em dois modos de operação: o anônimo como tema, ou seja, aquele que tende a ser invisibilizado e a ocupar papéis restritos e pré-determinados na sociedade contemporânea, e acasos na criação, pois o acaso propicia arranjos, composições e formas distintas do habitual, o que permite, entre outras coisas, camadas maiores de consciência do movimento e da corporeidade. A estratégia de criação se dá também em outros trabalhos da companhia, como Dos prazeresA Emparedada da Rua Nova e … e das outras doçuras de deus, obra com a qual Eliana recebeu, em 2011, o Prêmio APCA na categoria Intérprete Criador em Dança.

Foto: Hernandes de Oliveira

O sujeito anônimo, inclusive, é uma das bases estruturais da pesquisa da E² Cia de Teatro e Dança e se personifica com Estamira, profetisa dos nossos tempos que foi barbaramente abandonada pelo sistema vigente, deixando um legado por meio de palavras filmadas ou transcritas que revelam um testemunho maior de sua visão de mundo.

O projeto Tudo que é imaginário existe e é e tem se realiza com o apoio do Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

Foto: Isabelle India

Ficha Técnica – Direção e interpretação: Eliana de Santana. Direção de arte, cenografia e iluminação: Hernandes de Oliveira. Pesquisa sonora: E2 Cia de Teatro e Dança. Produção e pós-produção audiovisual: Pri Magalhães (NOME Filmes). Produção: E2 Cia de Teatro e Dança / Corpo Rastreado. Divulgação em mídias sociais: Rubia Galera e Talita Bretas (Portal MUD). Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques
Assistentes: Daniele Valério e Diogo Locci.

Foto: Isabelle India

Sobre a E² Cia de Teatro e Dança

A E2 Cia de Teatro e Dança, dirigida por Eliana de Santana, é um núcleo atuante na cidade de São Paulo desde 1996. Realiza uma pesquisa em dança contemporânea que tem como ponto de partida a referência/inspiração na literatura brasileira e na obra de diversos artistas visuais, investigando poéticas ligadas à temática do sujeito anônimo.

Artista da cena, intérprete e coreógrafa, Eliana da Santana iniciou-se no teatro em 1984, estudando e trabalhando com diretores como Antunes Filho (CPT), Antônio Abujamra (no espetáculo “A Serpente”) e Gerald Thomaz (no espetáculo “Un Glauber”). Em 1996 estreia “Tragédia Brasileira”, seu primeiro trabalho autoral de dança, inspirado em texto homônimo de Manuel Bandeira, pesquisa que teve apoio da Bolsa Rede Stagium. Criou o solo “Das Faces do Corpo”, inspirado na obra fotográfica de Arthur Omar, pesquisa contemplada com a Bolsa Vitae de Artes.

Em novembro de 2006 estreia o trabalho “Francisca da Silva de Oliveira – Chica da Silva – Um Esboço”, pesquisa contemplada com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna. Em 2008/2009, Eliana de Santana cria “… e das outras doçuras de deus”, inspirado em crônicas de Clarice Lispector. Com este espetáculo Eliana recebeu em 2011 o Prêmio APCA na categoria Intérprete Criador em Dança.

 

Onde:
Oficina Cultural Oswald de Andrade
YouTube do Portal MUD
Quando:
10 e 11 de dezembro/2021
Sexta-feira às 20h
Sábado às 18h (presencial)
12 e 26 de dezembro/2021: apresentação virtual no YouTube do Portal MUD
Quanto:
Grátis
Info:

Tudo que é imaginário existe e é e tem (presencial)

10 e 11 de dezembro de 2021, sexta-feira, 20h; e sábado, 18h
Oficina Cultural Oswald de Andrade
(Rua Três Rios, 353 – Bom Retiro, São Paulo, SP). Estação de metrô: Tiradentes.

Tudo que é imaginário existe e é e tem (virtual)
Entre os dias 12 e 26 de dezembro, o público terá acesso, no Youtube do Portal MUD, a uma outra versão da obra criada especialmente para o formato audiovisual. Apesar de partir da mesma matriz, o trabalho cênico em vídeo aposta em alguns cortes mais fechados e a reprodução de frases ditas por Estamira no filme que a tornou conhecida.