E² Cia de Teatro e Dança, de Eliana de Santana, apresenta ‘Dos Prazeres’ no CRDSP

A condição dos povos excluídos, a investigação do sujeito anônimo e a possibilidade de levá-lo a um nível visível são propostas do E² Cia de Teatro e Dança que estão presentes no espetáculo de dança Dos Prazeres,  criado a partir de referências do artista plástico e sambista Heitor dos Prazeres (1898 —1966).

A direção de arte é de Hernandes de Oliveira e a coreografia e direção geral são de Eliana de Santana.

Em cena, o público se depara com um chão repleto do brilho e da fragilidade de confetes de papel, indicando um período pós-carnaval. Há um contraste com a parede escura e com uma luz branda. Os figurinos são brilhantes, compondo junto com o confete uma espécie de memória do carnaval clássico. A referência, que situa também o período de atividade artística de Heitor dos Prazeres, é o carnaval de salão. A trilha sonora se alterna entre sambas de Heitor, marchinhas, trilhas incidentais de pessoas conversando e até mesmo um espaço para o diálogo com Heitor Villa-Lobos,  cânone da música erudita brasileira, que tem lugar à cena por partilhar do mesmo nome que Heitor dos Prazeres.

No processo de criação das obras da E² Cia de Teatro e Dança, os elementos cênicos nascem junto da coreografia, em uma composição que caminha lado a lado e se desdobra em todas as etapas. Sobre essa escolha, Eliana de Santana comenta: “Tudo que está em cena tem sua própria corporeidade, é um espaço, uma camada para ser observada”. Para a artista, Dos Prazeres não é uma dança biográfica ou restrita ao conteúdo da obra de Heitor dos Prazeres – trata-se de uma obra a partir de suas temáticas e de diversas referências que se desdobraram a partir delas, sejam objetivas ou abstratas.

“Eu sou o povo, eu sou um homem do povo. Vejo esse povo que transporto para os meus quadros como sinto. Não há nada mais sublime que viver na massa do povo” – Heitor dos Prazeres. 

 

Em suas obras, Heitor pintou homens e mulheres com o rosto de lado, os olhos levemente voltados ao céu, como se esperassem ver algo novo e radiante. Esse contraste entre festa e dor, divino e corpóreo, propõe ao núcleo uma reflexão sobre a condição de seres excluídos e anônimos.

 

O trabalho é um desdobramento de uma obra que a companhia dançou em 2010. A remontagem chega modificada por atualizações nos elementos cênicos e no elenco. Da formação original, estão Eliana de Santana, Hernandes de Oliveira, Daniel Kairoz (trilha sonora) e Lilian Wiziack (intérprete). Os intérpretes novos são Suiá Burger Ferlauto, Ana Musidora, Odete Machado, Thais Elvira e Thiago Soares.  “Mais do que uma remontagem, é uma sequência da nossa obra, um desenvolvimento de linguagem”, conta Hernandes de Oliveira, diretor de arte.

Foto: Hernandes Oliveira

“O trabalho, pensado para os dias que vivemos hoje, afirma positivamente o Brasil e a nossa cultura, mesmo que de uma maneira abstrata e contemporânea”, diz Eliana. A coreografia de Dos Prazeres, segundo a artista, é vigorosa, mas também mínima. Eliana trabalha no corpo dos intérpretes uma dança de suspensão, sem se preocupar com a virtuose. “Trabalhei muito tempo com o expressionismo e agora estou em um lugar de trabalhar com menos, o que não torna essa dança fácil”, comenta.

Eliana ressalta que interessa ao núcleo trazer a memória de outros tempos para os dias de hoje, compreendendo quais são as leituras possíveis que podem ser feitas a partir dela, como essa memória nos afeta e o que fazemos quando afetados por ela. “Trabalhamos com o conceito de um tempo esgarçado, diluído, que exige muita maturidade na interpretação para poder acontecer na cena, o que tem gerado uma interação muito peculiar entre nós, do núcleo, e os novos intérpretes”, complementa a artista.

O E² Cia de Teatro e Dança atua desde 1996 na cidade de São Paulo e, sob direção de Eliana de Santana, tem como base da pesquisa a investigação no corpo e na cena das poéticas ligadas à temática do sujeito anônimo. O ponto de partida para diversas ações são as referências/inspirações na literatura brasileira e obra de diversos artistas visuais. Em 2011, com o espetáculo …e das outras doçuras de deus, Eliana de Santana recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria Intérprete Criador em Dança.

FICHA TÉCNICA – Direção geral: Eliana de Santana. Intérpretes: Eliana de Santana, Lilian Wiziack, Suiá Burger Ferlauto, Ana Musidora, Odete Machado, Thais Elvira e Thiago Soares. Direção de arte, iluminação e cenografia: Hernandes de Oliveira. Trilha sonora: Daniel Kairoz. Produção: Corpo Rastreado / E² Cia de Teatro e Dança.

 

 

Onde:
Centro de Referência da Dança da Cidade de São Pulo (CRDSP)
Quando:
11 a 14, 18 e 19 de setembro/2019
Quarta a sexta, sábado, quarta e quinta às 19h
Quanto:
Grátis
Info:

Baixos do Viaduto do Chá, s/nº (Galeria Formosa), São Paulo (SP), tel. (11) 3214-3249. Ao lado do Theatro Municipal de São Paulo. Estação de metrô: Anhangabaú.

Capacidade: 50 lugares (Sala Cênica)

Duração: 45 minutos.

Classificação etária: 14 anos.