Dança na 34ª Bienal de São Paulo: a obra da israelense Noa Eshkol em exposição na Casa do Povo e no Pavilhão do Ibirapuera

Noa Eshkol (1924, Kibbutz Degania Bet, Palestina – 2007, Holon, Israel) foi artista, coreógrafa, dançarina e professora. Na década de 1950, juntamente com o arquiteto Avraham Wachman, ela desenvolveu um sistema de notação do movimento (Eshkol Wachman Movement Notation – EWMN) que, através de uma combinação de símbolos e números, permite anotar os movimentos do corpo e organizá-los em categorias, passíveis de análise e repetição. A partir desses estudos, Eshkol desenvolveu diversas coreografias nas quais, sem depender de acompanhamento musical e de figurino, a dança se torna um processo de interação entre corpos no espaço e uma atividade comunitária. Dessa forma, o EWMN ultrapassa o campo da dança e passa a ser uma ferramenta para observar a relação de qualquer corpo com seu entorno, podendo ser aplicado em diversas áreas, incluindo estudos de linguagem e de comportamento.

Foto: Divulgação
Noa Eshkol

Em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, Eshkol parou de dançar e iniciou a produção de seus Wall Carpets [tapetes de parede]. O trabalho era realizado apenas com materiais utilizados, nunca comprados: a artista coletava trapos e roupas descartadas, e os tapetes eram costurados junto com seus dançarinos. Essas composições variam entre abstrações e naturezas-mortas. Em The House of Bernarda Alba (Virgin) (1978), por exemplo, um arranjo de cores claras circunda um quadrado de tecido verde. O título alude à peça homônima de Federico García Lorca, na qual há crescentes tensões entre uma mãe controladora e suas cinco filhas. O quadrado representa, na composição, uma espécie de janela, sugerindo uma possibilidade de fuga das restrições vividas em casa.

Foto: Divulgação
Chamber Dance Quartet - 1975. Foto T. Bauner (Cortesia The Noa Eshkol Foundation for Movement Notation)

Noa Eshkol na Bienal de São Paulo de 2021

Na 34ª Bienal Internacional de São Paulo, o trabalho de Noa Eshkol pode ser conhecido através de obras que estarão no próprio pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, de 4 de setembro a 5 de dezembro de 2021, e também em uma mostra paralela, na Casa do Povo, a partir de 21 de agosto.

Sunset by the Lake, 1995 (wool, cotton, corduroy, silk, polyamide, polyester
254 x 221 cm with fringe). Courtesy The Noa Eshkol Foundation for Movement Notation, Holon, Israel, and neugerriemschneider, Berlin.
© The Noa Eshkol Foundation for Movement Notation, Holon, Israel
Photo: Jens Ziehe, Berlin

Noa Eshkol: Corpo Coletivo, é uma exposição em correalização com a Fundação Bienal de São Paulo, que apresenta uma seleção de tapeçarias e parte do arquivo da artista.

Se no Pavilhão da Bienal de São Paulo será possível ter acesso ao resultado de diversas experimentações do Eshkol-Wachman Movement Notation [EWMN], na Casa do Povo serão mostrados os bastidores e o processo de pesquisa de Eshkol. Dividida em dois andares da instituição do Bom Retiro, a exposição, que conta com apoio internacional da Artis e Consulado Geral de Israel em São Paulo, procura mostrar não apenas os trabalhos realizados pela artista, mas o ambiente em que foram criados.

A curadora Marilia Loureiro, destaca o caráter coletivo e comunitário do trabalho de Noa Eshkol, que por meio de documentos, obras têxteis (wall carpets) e vídeos, se cruza e se confunde em tantos momentos com a própria história da Casa do Povo. “Um espírito comunal, ligado ao desenvolvimento de pedagogias experimentais e modos de vida mais igualitários conecta os universos da artista e da instituição, que agora se encontram por meio da exposição”, explica ela.

Foto: Divulgação
Musical Carpet - Fugue, 1978 (cotton, synthetic fibers 225 x 149 cm) Courtesy The Noa Eshkol Foundation for Movement Notation, Holon, Israel, and neugerriemschneider, Berlin. © The Noa Eshkol Foundation for Movement Notation, Holon, Israel Photo: Jens Ziehe, Berlin

 

Tapeçarias com mais de dois metros

A primeira parte da exposição é composta por uma série de documentos do arquivo da Noa Eshkol Foundation, colocados em diálogo com o acervo documental da Casa do Povo. O diálogo entre acervos procura criar uma perspectiva intimista tanto da pesquisa da artista, como da história do Centro Cultural do Bom Retiro, aproximando o visitante desses dois universos cruzados. “Tomamos emprestada a metodologia do arquivo de Noa com a divisão dos documentos em cápsulas temáticas (Educação, Vida em Comum, Anotações de Movimento e Levante do Gueto de Varsóvia) e a replicamos em nosso acervo institucional como forma de tentar criar novas relações visuais e narrativas entre o material exposto”, explica a curadora.

Já o segundo andar da Casa do Povo recebe oito wall carpets, peças coloridas de tapeçaria em grandes dimensões, e dois vídeos. Se à distância os wall carpets podem parecer obra de uma artista visual individual, o visitante que esteve no primeiro andar da exposição sabe que eles fazem parte do processo coletivo de um grupo coreográfico. Tecidos em muitas mãos, os wall carpets são fruto do trabalho colaborativo do The Chamber Dance Quartet, coletivo de dançarinos fundado em 1954, que acompanharia Noa até o fim da vida. O grupo viveu, trabalhou e viajou junto ao longo de décadas, desenvolvendo uma série de colaborações e processos coletivos, motivados pela convivência do dia a dia e pelas experiências compartilhadas.

É da vivência comunitária que surgem as peças têxteis apresentadas tanto na Bienal, como na Casa do Povo. Por fim, os dois vídeos presentes entre os wall carpets mostram alguns ensaios do The Chamber Dance Quartet e os processos de pesquisa de Noa com crianças em kibutzim, em quase quatro décadas de trabalho. Juntos, os vídeos trazem o movimento dos corpos para o espaço do segundo andar, lembrando ao visitante que o trabalho de Noa Eshkol só se faz com o corpo e a partir dele. Mas não qualquer corpo, e sim em corpo coletivo.

 

Sobre a Casa do Povo

É um centro cultural situado no bairro paulistano do Bom Retiro, que revisita e reinventa as noções de cultura, comunidade e memória. Fundada a partir de uma associação cultural sem fins lucrativos logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, a Casa do Povo foi erguida pelo esforço coletivo de uma parcela da comunidade judaica então chamada de “progressista”, originária da Europa Oriental, politicamente engajada e instalada majoritariamente no Bom Retiro. O espaço nasceu de um desejo duplo: homenagear os que morreram nos campos de concentração nazistas e criar um espaço que reunisse as mais variadas associações que tinham nascido aqui, na luta internacional contra o fascismo – visando assim dar continuidade à cultura judaica laica e humanista que o nazifascismo tentou silenciar na Europa.

Habitada por uma dezena de grupos, movimentos e coletivos, alguns há décadas e outros mais recentes, a Casa do Povo atua no campo expandido da cultura. Sua programação transdisciplinar, processual e engajada entende a arte como ferramenta crítica dentro de um processo de transformação social.

Onde:
Casa do Povo
Quando:
21 de agosto a 15 de outubro/2021
Quanto:
Grátis
Info:

Noa Eshkol: Corpo Coletivo na Casa do Povo

Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, São Paulo (SP)

(11) 3227-4015

Abertura: 21 de agosto, sábado, às 10 (não é necessário convite, mas haverá limitação de acesso ao espaço seguindo os protocolos de segurança da pandemia de covid-19).

Visitação até 15 de outubro de 2021, terça-feira a sábado, das 12h às 18h (quintas-feiras com horário estendido até 20h).

Entrada gratuita. Não é necessário agendamento prévio. Devido à pandemia, a sala expositiva possui capacidade máxima de 20 pessoas.