Coletivo Ruínas realiza mostra sobre o ambiente urbano, devorado pela especulação imobiliária

A Mostra Antropo OBScênica, do Coletivo Ruínas, ocupa o Centro Cultural São Paulo (CCSP) para enfocar a brutal e veloz mudança do ambiente urbano sob a intensa especulação imobiliária e o quanto tal fenômeno afeta a vida de moradores da cidade.

A mostra se espalha pelo “corpo arquitetônico” do Centro Cultural, com exposição de fotos, exibição de documentário, conversas, compartilhamento de procedimentos, exercícios performativos e apresentações de duas peças de dança contemporânea.

Os trabalhos artísticos da mostra, produzidos pelo Coletivo Ruínas, concentram-se na investigação de dança em sítios de demolição de casas para construção de altos edifícios. O objetivo é gerar paisagens sensoriais, para mostrar a desnaturalização e a voracidade com que as ações humanas alteram radicalmente a natureza dos lugares e os elos entre corpos e ambientes.

Foto: Divulgação
Exposição "corpo-cardume", de Inês Bonduki

Na abertura do evento, a exposição “corpo-cardume” apresenta uma seleção expressiva de imagens clicadas pela arquiteta e fotógrafa Inês Bonduki, que acompanhou as ações nos lugares por onde o projeto Residência OBScênica passou, revelando a efemeridade e a natureza das transformações topográficas nos territórios da cidade. Em seguida, a professora e urbanista Raquel Rolnik compartilha com o público as vivências e investigações que a motivaram na escrita do livro Guerra dos Lugares – A Colonização da Terra e da moradia na era das finanças, fruto de sua atuação como relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada.

Fixadas no teto e impressas em formato de bandeiras, as fotos da exposição sintetizam a experiência de um corpo-cardume em deslocamento pelo território e ressaltam a tímida escala dos corpos humanos nos ambientes por onde atravessam. Nela, a individualidade de cada corpo, na sutileza de seus gestos e expressões, se dilui na consonância do movimento coletivo.

A mostra inclui um exercício performativo, em que o público é conduzido por uma caminhada pelo CCSP, de modo a ativar memórias, histórias e emoções pessoais e coletivas. Esta ação performática é realizada pelas dançarinas participantes da residência artística do projeto, Plasticidade Destrutiva e Ecologia, que compartilham os procedimentos de criação das intervenções em lugares de ruínas de residências urbanas, os quais serviram como disparadores de toda a pesquisa e encontro do Coletivo Ruínas.

A instalação performativa de dança contemporânea, Corpo Crustáceo, na Sala Ademar Guerra, também integra a mostra. Num espaço-tempo dilatado, esculpido pela escuta sensível de um corpo vivente sob 400 quilos de pedras, brotam micromovimentos que, misturados a texturas e ruídos hiper-realistas, conduzem a uma sucessão de paisagens sensoriais, que provocam múltiplas nuances de reflexão sobre aspectos de intersecção do humano e da Terra. O trabalho foi indicado ao prêmio APCA (2021), nas categorias “interpretação” e “iluminação”.

Foto: Divulgação

A língua dos restos, vídeo-documentário construído a partir de imagens dos processos de criação do Coletivo Ruínas durante o projeto, acontece na Sala Lima Barreto. Com direção de Rafael Frazão e captação de imagens de Gideoni Júnior e Inspiração 6, a câmera acompanha as ações do coletivo sondando a potência do resto, do escombro e das coisas que seguem existindo, apesar do fim dos seus mundos.

O Coletivo Ruínas encerra a Mostra com a peça multimídia de dança contemporânea Terra, que alerta para a impotência do corpo frente às forças de dominação do solo e do planeta pelo ser humano e o poder do capital. A partir de uma dança de embate, de tremores, repouso, desmoronamentos, perfurações, rasgos e irrupções – relações simbolicamente atreladas a forças geofísicas orgânicas e inorgânicas –, numa teia compositiva de criação simultânea com a música e o audiovisual, brotam paisagens sensoriais, que sugerem narrativas de transformação da terra.

A Mostra Antropo OBScênica finaliza projeto contemplado pela 29ª edição do Programa de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo.

Foto de Inês Bonduki

Coletivo Ruínas

Foi formado em 2013, em São Paulo, como uma plataforma artística independente de investigação, pesquisa e criação transdisciplinar entre as linguagens da dança, do teatro, do audiovisual expandido, da fotografia, da música e da iluminação.

Os integrantes do Coletivo Ruínas explicam: “Nos reunimos pelo assombro e pela atração que nos geram os sítios de demolição de casas para construção de altos edifícios e condomínios, fundamentalmente em bairros residenciais da cidade de São Paulo, não só pelo fenômeno da voracidade com que máquinas põem casas abaixo, mas por mudar radicalmente a natureza dos lugares.

Este motivo fez com que começássemos a criar modos e meios de nos relacionarmos poeticamente com determinadas topologias urbanas e a refletir, ética e politicamente, por meio de criações artísticas (intervenções urbanas, instalações, performances, videodanças, experimentos cênicos e peças), sobre o modo como percebemos os processos de transformação em tempo real e como a ação direta do corpo nos lugares contribuem com as discussões em torno deste atual fenômeno.”

www.coletivoruinas.com.br

Onde:
Centro Cultural São Paulo
Quando:
18 de maio a 5 de junho/2022
Info:

Agenda:

Mostra Antropo Obs-Cênica – Coletivo Ruínas

Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso – São Paulo, SP.

 

Dia 18/5 (quarta), às 19h – Hall Principal

Exposição “corpo-cardume” – Fotos: Inês Bonduki

Abertura – Raquel Rolnik + bate-papo

 

Dia 21/5 (sábado, das 14h às 17h) – Sala Jardel Filho

Plasticidade Destrutiva e Ecologia – Compartilhamento da residência artística + exercício performativo

 

De 25 a 27/5 (quarta, quinta, sexta, às 21h) – Sala Ademar Guerra

Corpo Crustáceo – instalação coreográfica – Michele Carolina

 

Dia 02/6 (quinta, às 18h) – Sala Lima Barreto

A língua dos restos (documentário) – Direção: Rafael Frazão

 

De 03 a 05/6 (sexta e sábado, 21h; domingo, 20h) – Sala Ademar Guerra

Terra – peça multimídia de dança contemporânea – Michele Carolina