Cia. Dual realiza Ciclo de Encontros A Invenção do Sertão

Delinear compreensões dos imaginários sobre o “sertão” e as culturas sertanejas, a partir de um arco geográfico amplo, desde os pampas gaúchos até o Nordeste, incluindo os sertões mineiros, goianos e mato-grossenses: essa é a ideia central do Ciclo de Encontros A Invenção do Sertão, da Cia. Dual, dirigida por Ivan Bernardelli e Mônica Augusto.

Projeto contemplado pelo 26° edital do Programa de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo, a proposta inicial previa essa série de conversas ao vivo, durante a temporada de Tríptico Sertanejo, obra que foi remontada pelo grupo. Para se adaptar às demandas recentes provocadas pela pandemia da Covid-19,  a Cia. Dual alterou sua forma de diálogo com o público e as conversas serão online.

As inscrições acontecem entre os dias 8 e 18 de agosto (ou até esgotarem os ingressos) pelo site da companhia (www.ciadual.wordpress.com) são gratuitas. Para os interessados, a sugestão é de que assistam ao espetáculo Tríptico Sertanejo, também disponível no site, trabalho que dialoga com o tema do Ciclo. Cada encontro terá cerca de duas horas de duração e conta com profissionais de diversas áreas: o dramaturgo e roteirista  Luís Alberto de Abreu; o educador e escritor Salloma Salomão; a gestora e produtora cultural Mariana Barbosa Pimentel; a gastrônoma e professora Aline Macedo Silva Araújo; e as artistas Flávia Teixeira, Mônica Augusto, Rosa Reis e Luana Bayô.

“Nosso desejo em realizar esses encontros é expandir as ideias e propor outros modos de compreender esse termo ‘sertão’, que é uma mitologia em si próprio. Por isso, estamos trazendo pessoas de outras áreas, não exclusivamente das artes cênicas, para permitir uma discussão plural e transcultural dessas questões”, observa o intérprete e diretor do grupo Ivan Bernardelli.

“Serão cinco encontros para pensar a mesma coisa, ‘A Invenção do Sertão’, sob pontos de vistas, áreas do conhecimento e formatos diferentes!”, acrescenta Mônica Augusto, gestora da companhia.

Os tópicos são: A Invenção do Sertão; A Desafricanização do Sertão;

Como viver em bando? Gestão, Produção e Coletividade nas Artes da Cena; Matando a Fome no Sertão (ou como preparar uma jacuba?); e [En]Cantos de Festa, de Guerra e de Fé.

Foto: Alícia Peres

Sertão, modos de olhar

Desde 2017, a Cia. Dual está mergulhada na pesquisa sobre asideias de sertão. “O sertão foi inventado. Desenvolveu-se uma ideia mítica de sertão”, diz o diretor.

Nesse sentido, o sertão ganhou diferentes ideias pelo Brasil. Para o norte, criou-se um sertão de paisagens duras, secas, povoadas (ou melhor, despovoadas) de gente bárbara, bravia; lugar (ou não-lugar) dominado por desbravadores nômades, coronéis, beatos, fanáticos, bandos armados. Para o sul, criou-se o sertão dos cavaleiros nômades que, embora tivessem ascendência indígena, foram europeizados e romantizados em um cavalgar sem destino, heróico, amansando cavalos xucros ou conduzindo numerosas tropas de cavalos e mulas por longos  territórios brasileiros.

“De qualquer modo, ao norte ou ao sul, o sertão foi inventado, pela cultura “nacional” do sudeste, como inculto, bárbaro, ´naif´, não-civilizado”, afirma Bernardelli. Os encontros traçam novas perspectivas para esses olhares e entendimentos, garantindo uma visão plural, rica e diversa.

A importância desse ciclo, dentro do projeto amplo da companhia, é “compartilhar, ampliar e refletir caminhos e temáticas da pesquisa da companhia e principalmente as questões que perpassaram a criação do espetáculo Tríptico Sertanejo”, coloca Mônica Augusto.

O projeto

Inicialmente, o projeto A Invenção do Sertão previa a remontagem e temporada da peça Tríptico Sertanejo, a realização de um ciclo de palestras e uma edição com programação inédita do curso História Prática da Dança no Brasil.

O curso foi realizado em janeiro deste ano, com um recorde de inscrições, 342 no total. Foram cinco dias de atividades para abordar nove danças brasileiras e participação de mestres convidados de várias partes do país, como interior de São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco.

Outra ação prevista e realizada foi o lançamento do minidocumentário Curso História Prática da Dança (Cia. Dual e Fuzuê Filmes), em maio, pela plataforma Zoom, e posteriormente publicado no YouTube, para divulgação e fortalecimento dessa tradição da dança brasileira.

Contudo, o projeto precisou ser alterado em meio ao seu andamento por conta da pandemia da Covid-19: as apresentações de Tríptico Sertanejo deram lugar a uma  vídeodança inédita com lançamento previsto para setembro; e o Ciclo de Encontros, inicialmente previsto para acontecer durante a temporada de Tríptico, foi reestruturado para ser realizado on-line no mês de agosto.

Outra ação em desenvolvimento – embora não seja financiada pelo Fomento à Dança – é o inventário de conversas ao vivo Histórias das Danças nos Brasis. Pelo Instagram da Dual, todas as quintas-feiras, às 22h, Mônica Augusto e Ivan Bernardelli recebem artistas brasileiros que, com seus fazeres e experiências, contribuem para inscrever novos traços e perspectivas nas histórias das danças nos Brasis.

Foto: Alícia Peres

Cia. Dual

A Cia. Dual nasceu com o propósito de criar trabalhos artísticos a partir de mitologias e fenômenos históricos relacionados à cultura brasileira. Com direção artística de Ivan Bernardelli e gestão de Mônica Augusto, desde 2011, os espetáculos transitam por esses temas. Entre os trabalhos realizados, destacam-se Terra Trêmula (2014, contemplado pelo PROAC – Produção de Espetáculos Inéditos e Temporadas de Dança, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo); Profetas da Selva (2016, contemplado pelo PROAC – Produção de Espetáculos Inéditos e Temporadas de Dança, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo); Chulos (2017, contemplado pela 20ª edição do Edital de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo; indicado como melhor estreia pelo Prêmio APCA e indicado como Melhor Espetáculo pelo Prêmio Bravo!); Duo Para Dois Perdidos (2012, Prêmio Brasil Criativo 2016 e Prêmio Arte e Inclusão 2018).

Foto: Alícia Peres

PROGRAMAÇÃO

A INVENÇÃO DO SERTÃO

19/ago/2020 (quarta) | 21h – Luís Alberto de Abreu
Neste encontro, o dramaturgo e roteirista Luís Alberto de Abreu propõe refletir sobre os sertões  que são inventados pelas lógicas do Sudeste do Brasil, carregados principalmente de racismos e preconceitos; mas também sobre os sertões que se inventam, a partir de sistemas próprios: sistemas estéticos, simbólicos, gramáticos, imagéticos.

A DESAFRICANIZAÇÃO DO SERTÃO

21/ago/2020 (sexta) | 21h – Salloma Salomão

Neste encontro, o músico, ator, escritor e educador Salloma Salomão instiga a reflexão e o aprofundamento da questão do apagamento das contribuições das diásporas africanas na construção cultural do ideário dos sertões.

O encontro propõe trazer à tona temas pouco discutidos, e até mesmo invisibilizados na história do Brasil, ampliando as referências, o olhar crítico e a reflexão dos participantes; e assim promover discussões para além dos discursos hegemônicos.


COMO VIVER EM BANDO? Gestão, Produção e Coletividade nas Artes da Cena

24/ago/2020 (segunda) | 21h – Mariana Barbosa Pimentel
O encontro com a artista da dança, gestora e produtora cultural Mariana Barbosa Pimentel propõe refletir sobre a economia alternativa e a gestão coletiva nas artes da cena, a partir de movimentos insurgentes como o cangaço e o quilombo dos Palmares. A ideia é discutir modos de produção, gestão e coletividade que apresentam perspectivas originais e inspiradoras em contraposição à lógica institucional (por um lado) e bárbara (por outro lado, relacionada aos modos de produção mainstream, que em geral lidam com discursos e formas superficiais, mas que alcançam investimentos e se mantêm no poder).

MATANDO A FOME NO SERTÃO – ou Como Preparar uma Jacuba?

26/ago/2020 (quarta) | 21h – Aline Macedo Silva Araújo 

O encontro com a gastrônoma e professora Aline Araújo, PhD em Patrimônios Alimentares,  percorre a obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, para refletir sobre comida, comensalidade, modos de preparar os alimentos e modos de comer na perspectiva sertaneja, e o quanto estes aspectos culturais revelam sobre as identidades da população.

[EN]CANTOS DE FESTA, DE GUERRA E DE FÉ

28/ago/2020 (sexta) | 21h – Flávia Teixeira, Mônica Augusto, Rosa Reis e Luana Bayô 

Nesse último encontro da série, a ideia é visitar paisagens, imagens, memórias, identidades e modos de ser sertanejos por meio dos cantos. O encontro também propõe pensar os sertões nas suas experiências de festa, de fé e de guerra. As artistas Flávia Teixeira, Mônica Augusto, Luana Bayô e Rosa Reis farão uma curadoria de cantos para (en)cantar essas histórias, essas invenções.

Onde:
Plataforma online
Quando:
19 a 28 de agosto/2020, 21h
Quanto:
Grátis
Info:

Ciclo de Encontros A Invenção do Sertão

Inscrições: 8 a 18 de agosto pelo www.ciadual.wordpress.com

Vagas limitadas: 100 participantes por encontro (esgotadas).

Vagas limitadas para Sala Extra (Retransmissão): 300 participantes por encontro.

Duração (por encontro): 120 minutos.

Recomendado para maiores de 16 anos.

Público de interesse: artistas, historiadores, antropólogos, pesquisadores e estudantes de artes e de culturas tradicionais e populares brasileiras.

Para os inscritos, a recomendação é de que assistam ao espetáculo Tríptico Sertanejo, disponível em https://ciadual.wordpress.com/. O ingresso do Sympla dá acesso aos cinco encontros.