“Balada da Virgem – Em Nome de Deus” ganha interpretações de Renata Aspesi, Rafael Carrion e Yorrana Soares

Criado em 2018 por Sandro Borelli para que ele próprio interpretasse, além de se dirigir, o espetáculo Balada da Virgem – Em Nome de Deus ganhou uma nova montagem em 2021, em versão on-line, com transmissões pelo canal YouTube da Cia Carne Agonizante.

Nesta versão, três intérpretes da Cia Carne Agonizante, dirigida por Borelli, são vida a Joana D’Arc: Renata Aspesi, Yorrana Soares e Rafael Carrion.

Foto: Alex Merino
Rafael Carrion

Balada da Virgem – Em Nome de Deus enfoca uma solitária Joana D’arc em seus momentos finais. Quando o solo foi criado, em 2018, o cenário político recente ecoava na temática de seu injusto julgamento. O impeachment da presidente Dilma Roussef e a prisão do ex-presidente Lula traziam a tona o mesmo clima de caça às bruxas e farsa política, que trazem consequências nefastas para o país até hoje.

A Joana que a obra evoca está mais na reflexão sobre as contradições de sua fé do que na tentativa de uma personificação biográfica. A obra duvida do discurso devoto e subserviente a Deus da Joana histórica e impõe a ela a necessidade de revolta contra essa figura masculina e patriarcal de Deus, uma figura que violenta seu corpo em um martírio físico e psíquico.

A ação coreográfica se dá nessa batalha de cosmovisões, um duelo simbólico entre os anjos e demônios que movem a mente e o corpo de Joana em seus momentos finais e a arrastam inconclusivamente para a morte na fogueira.

“Trazemos uma Joana crítica, que duvida do seu Deus mentor e coloca em dúvida tudo o que fez por e para ele. Quisemos sair da Joana D’arc católica e trazê-la de uma maneira mais revolucionária e questionadora”, explica o diretor Sandro Borelli.

As apresentações integram porjeto contemplado na 1ª Edição do Prêmio Aldir Blanc de Apoio à Cultura da cidade de São Paulo, módulo Maria Alice Vergueiro.

Foto: Alex Merino
Renata Aspesi

Dança e gênero

Em Balada da Virgem – Em Nome de Deus e em outros trabalhos do grupo, o tema gênero é sempre abordado a partir de uma perspectiva de deslocamento e habitação. Os intérpretes se deslocam rumo às contradições, dúvidas, fragilidades e potências da personagem e, nesse território, ele/ela habita o conteúdo dessas vivências a partir de uma poética coreográfica e de uma disponibilidade física para a construção de corporalidades que tornem presente uma figura que se cria nessa relação entre o que já está ali e o imaginário que provoca a criação.

“Quando montei esse espetáculo, estava há um tempo sem ir para a cena. E resolvi encarnar uma figura lendária. Depois de um tempo em cena, fiquei incomodado de estar ali emprestando meu corpo para uma figura feminina por algum motivo. Depois de um ano, resolvemos montar o trabalho e resolvi recriá-lo com outra pessoa. Chamei a Renata, que também está nessa temporada. Esse olhar de fora me fez ver que o trabalho cresceu muito. Agora, trouxemos a Joana para quatro corpos bem diferentes, que irão trazer novas perspectivas para o espetáculo, mesmo com o meu roteiro de direção em comum. A ideia é enriquecer a cena e trazer não só uma Joana diferente do que é comumente retratada, assim como possibilidades de ser retratada por diferentes corpos, experimentando diferentes maneiras dessa pesquisa se reverberar”, comenta Sandro.

Cada intérprete contamina e desloca a obra, suscitando questões sobre a representatividade do corpo que está na cena em paralelo ao corpo histórico/literário/mitológico que a obra investiga. “Também é importante ressaltar que esses mesmos corpos históricos/literários/mitológicos aparecem em cena enquanto conteúdo simbólico muito mais do que em seu conteúdo biográfico, talvez se possa dizer que o corpo aparece enquanto ideia. Uma ideia que em sua potência desloca a poética de uma infinidade de outros corpos, não se cabendo ou não se contendo num conceito de identidade individual”, afirma o diretor.

Sandro não fez adaptações para a montagem on-line. Ele diz que em vez de o público trabalhar o seu olhar, assistirá a um espetáculo muito baseado no que o grupo vê do espetáculo, uma vez que os artistas irão selecionar como a câmera irá se movimentar e no que irá focar.

Ficha técnicaConcepção, coreografia e direção: Sandro Borelli. Intérpretes: Renata Aspesi, Yorrana Soares e Rafael Carrion. Assistência coreográfica: Rafael Carrion. Trilha sonora: Gustavo Domingues com trechos das obras de Olafur Arnalds e Levon Minassian & Armand Amar. Luz: Sandro Borelli. Figurino: Grupo. Arte gráfica: Gustavo Domingues. Fotografia: Alex Merino e Rafael Carrion. Direção de produção: Júnior Cecon.

Foto: Alex Merino
Renata Aspesi

Sobre a Cia Carne Agonizante

Criada em 1997, a companhia desenvolve pesquisas e criações em dança, tendo em seu repertório 27 peças coreográficas. O percurso do grupo é pautado por uma dança teatralizada, seus trabalhos criativos têm a intenção de gerar uma potência que possa provocar reflexão na plateia e não a deixar apenas na superfície do entretenimento.

Os espetáculos do seu acervo discutem a urgente resistência à massificação dos indivíduos, se contrapondo à transformação da vida em mercado e do homem em mercadoria. Por conta disso, trafega na contramão do “shopping center cultural”, muito preocupado com cifras, público e pouco inquieto com as relações sociopolíticas.

Para a Cia Carne Agonizante, a cena deve ser preponderantemente o lugar de uma poderosa manifestação poética de guerra com corpos bélicos, sob seu comando. Sendo assim, de nada adiantará buscar novos sentidos e olhares para uma construção cênica coreográfica, sem que com eles não sejam produzidas metamorfoses capazes de ao menos impactar o público presente, convidando-o à emoção e à reflexão.  Sob as energias apolíneas e dionisíacas, uma constante pulsão de vida e morte.

 

Onde:
Youtube: https://www.youtube.com/CiaCarneAgonizante
Quando:
9 a 31 de julho/2021
Sexta-feira e sábado às 20h
Quanto:
Grátis
Info:

As transmissões acontecem ao vivo, do Kasulo Espaço de Cultura e Arte, sede da Cia Carne Agonizante, via Youtube: https://www.youtube.com/CiaCarneAgonizante

Intérpretes de cada fim de semana:

9 e 10 de julho: Renata Aspesi

16 e 17 de julho: Yorrana Soares

23 e 24 de julho: Rafael Carrion

30 de julho: Rafael Carrion

31 de julho: Renata Aspesi

Duração: 45 minutos.

Recomendação etária: maiores de 16 anos.