Babi Fontana apresenta ‘Aquilo que Foge’ no CRDSP e no Sesc Copacabana

A bailarina e coreógrafa Babi Fontana, do Rio de Janeiro, se debruçou sobre as memórias de sua avó, a artista Maria do Carmo Bauer, que como consequência de uma lesão cerebral perdeu a fala nos últimos anos de vida, e sobre aspectos da obra Eu Não, de Samuel Beckett, para criação o espetáculo Aquilo que Foge.

Com colaboração artística da coreógrafa Dani Lima, colaboração dramatúrgica do roteirista Victor Costa e criação da paisagem sonora do DJ Dallanoras, Aquilo que Foge se funda em um impedimento-voz: na convergência entre corpo, tempo e linguagem. Uma coleção de biografias sonoras povoadas por gestos e paisagens faz parte do espetáculo solo, habitado por interrupções, repetições e ausências – tentando compreender no corpo da dança como se manifesta a linguagem e como podemos escapar das classificações que engessam os modos de produção de sentido.

A partir da vida e obra da avó de Babi Fontana, a atriz Maria do Carmo Bauer, artista brasileira especialista em técnica vocal que faleceu em 2010, Aquilo que Foge visa trazer à tona uma discussão sobre memória, falas e gestos que ressoam no nosso corpo, e se propõe a recuperar e elaborar uma narrativa histórica da vida e obra de uma das artistas brasileiras pioneiras na preparação de voz para atores e bailarinos.

O projeto contou com colaboradores de várias linguagens durante a criação.  Para Babi Fontana, o solo tem a intenção de investigar o “gesto da fala”. Para isso convidou a coreógrafa carioca, estudiosa do gesto, Dani Lima, para participar da criação do trabalho. A dramaturgia é assinada por Babi e Victor Costa, com quem ela colabora em diversos trabalhos e com quem dirigiu em conjunto o longa-metragem Outras Derivas. A paisagem sonora foi desenvolvida em conjunto com o DJ Dallanoras. “A ideia é experimentar o discurso e o não-discurso através de diferentes linguagens, movimentos, sons e gestos. Mais precisamente: a ideia de identidade como construção narrativa”, explica a bailarina e coreógrafa.

Foto: Victor Costa

E-book acessível

Anotações, fotografias, vídeos e depoimentos da atriz e preparadora vocal Maria do Carmo Bauer, que nasceu em 1928, traçam o percurso cênico em meio aos movimentos cíclicos da relação identidade/fala/não-fala/movimento. O texto Eu Não, de Samuel Beckett, escrito em 1972, é outra influência para o solo. “O texto é denso, permeado de repetições, fragmentações e interrupções. A impressão é que Eu Não apresenta uma personagem que por algum motivo desaprendeu a falar, mas necessita absolutamente voltar a falar para manter seu eu”, conta Babi Fontana.

Além das apresentações de Aquilo que Foge, Babi Fontana está organizando ao lado de Victor Costa um e-book acessível, que pretende reunir em uma publicação em e-book inédito um relato sobre a vida e o percurso artístico de Maria do Carmo Bauer e também contar narrativas sobre o processo da criação do espetáculo. O e-book contará com depoimentos de artistas que trabalharam diretamente com a pioneira em preparação vocal para atores no Brasil, como Emílio Fontana Filho, Alexandre Mate, Raquel Araújo Fuser, Fausto Fuser, Graça de Andrade, Anamaria Barreto, Cacá Carvalho e Antônio Araújo.

“Com essa pesquisa nosso empenho é lançar um olhar atento sobre os artistas, suas falas, seus territórios e suas memórias. Fazer esse mapeamento através da dança é uma forma de afirmar o afeto e o corpo como ponto de partida para a criação, valorizando a experiência cotidiana, a memória afetiva e a construção do comum e da história do território que vivemos como potência poética”, complementa Babi Fontana.

Sobre Maria do Carmo Bauer

Maria do Carmo Bauer (1928-2010) se formou na EAD (Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo) na década de 1950. Foi uma das fundadoras do Pequeno Teatro Popular, primeiro curso livre de teatro da cidade de São Paulo, onde passou a trabalhar de modo pioneiro com preparação vocal para artes da cena. Ganhou prêmios como atriz e trabalhou como preparadora vocal de diversos espetáculos de teatro, como Macunaíma e Eduardo III, ambos de Antunes Filho. Na década de 1970, a fim de aperfeiçoar o trabalho com a voz em cena, cursou fonoaudiologia na PUC-SP. Também lecionou interpretação vocal na ECA-USP, onde deu aula por mais de dez anos.

Sobre Babi Fontana

Coreógrafa, bailarina e pesquisadora, nos últimos anos vem desenvolvendo trabalhos que se fundem na fronteira entre a dança, o cinema e as artes visuais. É mestranda em Artes da Cena pela Unicamp, e pós-graduada em Dança, Educação e Diferenças na Faculdade Angel Vianna (Rio de Janeiro). Recentemente estreou seu longa-metragem Outras Derivas, em colaboração com o roteirista Victor Costa, no Festival de Cinema Latino-americano e foi convidada para apresentar seu trabalho Colisões na Fábrica de Arte Cubano, em Havana. Recebeu em 2018 o Prêmio Proac de Produção de Espetáculo Inédito e Temporada de Dança. Colaborou com os artistas Dani Lima, Cristian Duarte, Marcio Abreu, Denise Stutz, Alex Cassal, Fernando Belfiore, Esther Arribas e Anne Leigniel. Além de cidades do Brasil, já apresentou seus trabalhos em Havana, Londres e Berlim.

Onde:
Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo (CRDSP)
Sesc Copacabana (RJ)
Quando:
5 e 6 de setembro/2019 (CRDSP)
Quinta e sexta às 19h
20 a 29 de setembro/2019 (Sesc Copacabana RJ)
Sexta a domingo às 18h
Quanto:
Grátis (SP)
R$ 30 a R$ 7,50 (RJ)
Info:

Duração: 35 minutos.

Classificação etária: 16 anos.

Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo (CRDSP): Baixos do Viaduto do Chá, s/nº (Galeria Formosa/ao lado do Theatro Municipal), Centro, São Paulo (SP), tel. (11) 3214-3249.

Capacidade: 60 lugares.

Ingressos gratuitos: retirar na bilheteria 1h antes da apresentação.

Sesc Copacabana: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro (RJ), tel. (21) 2548-1088.