‘William Forsythe: Objetos coreográficos’ marca a primeira exposição brasileira de um dos mais instigantes coreógrafos da dança contemporânea

Reconhecido mundialmente como um dos mais instigantes coreógrafos da dança contemporânea, William Forsythe, estadunidense de 69 anos, foi diretor do Ballet de Frankfurt e depois teve sua própria companhia. Sua concepção de dança é ampla. Desde o início dos anos 1990, ele vem se dedicando a uma série de trabalhos que extrapolam os palcos e estimulam questões sobre o movimento: os objetos coreográficos.

A primeira exposição no Brasil do multiartista, representado pela galeria Gagosian, é uma realização do Sesc Pompeia, em São Paulo.

Foto: Ricardo Ferreira

Com curadoria de Forsythe Produções, em colaboração com Veronica Stigger, a mostra William Forsythe: Objetos coreográficos acontece de 17 de março a 28 de julho de 2019, ocupando diferentes espaços do Sesc Pompeia e em diálogo com a arquitetura do edifício projetado por Lina Bo Bardi. A entrada é gratuita e o evento é livre para todas as faixas etárias.

“Em suas exposições pelo mundo, Forsythe costuma pensar seus objetos coreográficos em relação ao espaço da galeria ou museu em que serão instalados. Não foi diferente com o Sesc Pompeia. Tudo foi desenvolvido a partir do projeto singular de Lina Bo Bardi, tendo a preocupação de não interferir em demasia no que a própria arquitetura proporciona”, diz a curadora Veronica Stigger.

Foto: Ricardo Ferreira

A mostra reúne onze grandes obras do artista, que unem conceitos das linguagens da dança e artes visuais e propõem a colocação do corpo em movimento a partir de estímulos prévios. “Suas obras não foram criadas para serem contempladas ou apreciadas por suas características estéticas. São objetos concebidos para estimular a ação e a percepção do corpo não coreografado, só adquirindo plena função a partir da interação com o público”, explica Veronica Stigger.

Com instruções escritas ou faladas, suas instalações e vídeos convocam o público a se mover. Uma das obras – Insustentáveis, São Paulo (2019) – foi desenvolvida especialmente para a exposição brasileira. Ao redor do “lago”, na área de convivência do Sesc Pompeia, um conjunto de painéis suspensos forma um círculo, sem nenhum objeto no centro, apenas uma iluminação mais intensa. Pelos painéis e fones de ouvido, o público recebe orientações para se deslocar neste espaço – como “colocar um pé na frente do outro, enquanto balança os braços em variadas direções”.

Também inédita –  Instrução, São Paulo (2019) – faz os visitantes erguerem suas cabeças para lerem as quatro frases instaladas nas passarelas do conjunto esportivo. As letras foram confeccionadas em paetê, seguindo a tipologia da unidade Pompeia proposta por Lina Bo Bardi. A frase mais alta, “À mercê do quê?”, está a mais de 30 metros do chão.

Foto: Ricardo Ferreira

“Obras que já foram exibidas em outros lugares foram reelaboradas para esta mostra, levando em consideração o espaço em que agora estão”, afirma Stigger. É o caso de Em nenhum lugar e em todos os lugares ao mesmo tempo, São Paulo (2015/2019), que ganha nova versão no Galpão do Sesc Pompeia. Mais de 400 pêndulos em movimento contínuo ficam pendurados na área de 300 m2, fazendo o público se deslocar de um lado para outro, numa espécie de dança para desviar dos objetos.

Foto: Dominik Mentzos

Cidade de abstratos (2000) está montada no Hall do Teatro. Um painel gigante de vídeo com câmera acoplada projeta as imagens dos espectadores que estão no local. Seus corpos surgem distorcidos na tela, em formas alongadas que se movimentam em espiral. Já Os defensores parte 3 (2009) traz um teleprompter no qual se pode ler uma espécie de manifesto poético contra a inatividade. As frases, que nunca se completam, têm sempre um “nós” como sujeito. “Nós, que não achamos que ficaria assim tão ruim” e “Nós, que não queríamos interferir” são algumas delas.

“Um objeto coreográfico não é um substituto para o corpo, mas sim um local alternativo para se compreender onde reside o potencial de estímulo e de organização da ação. Idealmente, estes tipos de ideias coreográficas extraem uma atenção, uma leitura diversa que eventualmente promoveria entendimento de inúmeras manifestações, antigas ou novas, do pensamento coreográfico.”William Forsythe

Foto: Dominik Mentzos
William Forsythe

Sobre William Forsythe
Nasceu em Nova York, em 1949, e hoje reside em Vermont (EUA).

Atuou em diversas companhias de dança. No Stuttgart Ballet, foi nomeado coreógrafo residente em 1976, permancendo na posição por sete anos. Em 1984, iniciou uma trajetória de 20 anos como diretor do aclamado Ballet de Frankfurt, criando em seguida a Forsythe Company, que dirigiu de 2005 a 2015.

Recebeu o prêmio de dança e performance de Nova York, o Bessie (1988, 1998, 2004, 2007), o Prêmio Laurence Olivier, de Londres (1992, 1999, 2009), o título de Commandeur des Arts et Lettres (1999) pelo governo da França, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza (2010) e o Grand Prix de la SACD (2016), entre outros.

Seus trabalhos com instalações e vídeos foram apresentados em inúmeros museus e exposições, incluindo a Whitney Biennial (Nova York, 1997), Festival d’Avignon (2005, 2011), Museu do Louvre (Paris, 2006), Pinakothek der Moderne (Munique, 2006), Tate Modern (Londres, 2009), MoMA (Nova York, 2010), MMK – Museu de Arte Moderna (Frankfurt, 2015) e 20ª Bienal de Sydney (2016). Entre outubro de 2018 e fevereiro de 2019, apresentou a exposição William Forsythe: Choreographic Objects no Institute of Contemporary Art (ICA) de Boston.

Atualmente é professor de dança e conselheiro artístico do Instituto Coreográfico da University of Southern California Glorya Kaufman School of Dance.

Sobre Veronica Stigger

Escritora, curadora independente, crítica de arte e professora universitária, nasceu em Porto Alegre (RS), em 1973, e vive em São Paulo.

Doutora em Teoria e Crítica de Arte pela Universidade de São Paulo (USP), é atualmente professora de pós-graduação na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Foi curadora de diversas exposições, incluindo Maria Martins: metamorfoses, no MAM-SP (2013), que ganhou o Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio Maria Eugênia Franco da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), além de Variações do corpo selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, fotógrafo, no Sesc Ipiranga (2015) e atualmente no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) em Portugal, e As durações do rastro: a fotografia de Jordi Burch frente à arquitetura de Álvaro Siza Vieira, na Fundação Iberê Camargo (2018), em Porto Alegre.

É autora dos livros Opisanie świata  (São Paulo: Cosac Naify: 2013), que recebeu os prêmios Machado de Assis, São Paulo (autor estreante acima de 40 anos) e Açorianos (narrativa longa) e Sul (34: 2016), que conquistou o Prêmio Jabuti (contos e crônicas).

 

(Veja galeria de fotos abaixo)

 

Relação de obras da exposição William Forsythe: Objetos coreográficos

  • DEBUT, SÃO PAULO 

(Abertura, São Paulo)

William Forsythe, 2019

 

ENTRE COM VONTADE

Trata-se de um tapete na entrada da unidade que convida o público a entrar e apreciar as obras com vontade

 

  • STELLENTSTELLEN 

William Forsythe, 2013
Dois canais, instalação de vídeo com som
Duração: 7’26”
Performance: Amancio Gonzalez, Ander Zabala
Câmera: Dietmar Heck

Produção: Mark Gläser / Group.ie, Julian Gabriel Richter

Em cooperação com o Museum für Moderne Kunst MMK, Frankfurt.

As filmagens para essa projeção dupla foram feitas na MMK 3, em 2013. O trabalho apresenta uma coreografia em que os dançarinos Ander Zabala e Amancio Gonzalez combinam seus corpos em uma constelação atada. Com este trabalho é oferecido um evento que subtrai elementos comuns tipicamente associados à coreografia: o desenvolvimento estrutural do tempo e espaço e o isolamento visual das partes. Esse quebra-cabeça, físico e ótico, slow motion em tempo real, o qual Forsyhte chama de “entrelaçamento”, é um híbrido de coreografia, filme e escultura.

 

  • BOOKMAKING

(Fazendo livros)

William Forsythe, 2008

Vídeo

Looping

Performance: William Forsythe
Câmera e edição: Dietrich Krüger
Programador: Philip Bussmann
Produção: Julian Gabriel Richter
17 de maio de 2008, Ursula Blickle Foundation

Bookmaking foi reeditado para a exposição Lipsiusbau, em 2014. Uma parede de monitores apresenta sequências de filmes, editadas em sucessões rápidas, mostrando Forsythe enquanto ele tenta imprimir um livro com seu próprio corpo.

 

  • SOLO 

William Forsythe, 1997
Vídeo

Duração: 6’40”

Coreografia e performance: William Forsythe
Música: Thom Willems, em colaboração com Maxime Franke
Direção: Thomas Lovell Balogh
Câmera: Jess Hall
Produção: RD-Studio Productions, France 2, BBC TV, 1997

Solo é uma performance para a câmera do coreógrafo William Forsythe. Utilizando como trilha sonora som ambiente e uma composição de Thom Willems, close-ups e cortes rápidos do corpo contorcido de Forsythe contrastam com planos que capturam seus movimentos em um palco iluminado.

 

  • LECTURES FROM IMPROVISATION TECHNOLOGIES 

(Palestras a partir de tecnologias de improvisação)

William Forsythe, 2011
Vídeo

Duração: 9’40”

Performance: William Forsythe
Reedição: Nik Haffner, Volker Kuchelmeister, Chris Ziegler
Produção: Julian Gabriel Richter

Esses segmentos de vídeo, originalmente produzidos por William Forsythe com o objetivo de treinar os dançarinos de sua companhia, oferecem uma perspectiva sobre a abordagem do coreógrafo com relação à improvisação. As linhas de animação e outros efeitos gráficos que ilustram as sequências demonstram a visão de Forsythe de que certas classes de movimento podem ser analisadas como geometricamente inscritíveis – um desenho formal com o corpo, no espaço.

 

  • UNSUSTAINABLES, SÃO PAULO

William Forsythe
2019
(Insustentáveis, São Paulo)

Os visitantes recebem fones de ouvido e através destes fones recebem instruções e começam a movimentar seu corpo.

 

  • SUSPENSE

(Suspenso)

William Forsythe, 2008

Vídeo

Duração: 13’10”

Performance: William Forsythe
Câmera: Dietrich Krüger
Produção: Julian Gabriel Richter
17 de maio de 2008, Ursula Blickle Foundation, Kraichtal

No vídeo é possível ver William Forshyte se amarrando em cordas.

 

  • CITY OF ABSTRACTS (Cidade de abstratos)
    William Forsythe, 2001

Videowall, câmera, software
Desenvolvimento do software de vídeo: Philip Bußmann
Produção: Julian Gabriel Richter
24 de novembro de 2000, Opernplatz / Hauptwache, Frankfurt

Conforme os visitantes se aproximam da obra de vídeo interativo City of Abstracts, suas imagens são projetadas no telão, convidando-os a interagir conforme seus corpos se fundem em uma dança de formas distorcidas, alongadas e espiraladas.

 

  • NOWHERE AND EVERYWHERE AT THE SAME TIME, SÃO PAULO 

(Em nenhum lugar e em todos lugares ao mesmo tempo, São Paulo)
William Forsythe, 2019

Pesos, cordas, cilindros de compressão de ar, molduras de alumínio
Concepção técnica e execução: Max Schubert
Construção e controle: Christian Schubert
Programador: Sven Thöne

Produção: Julian Gabriel Richter
Uma coprodução The Forsythe Company e do festival Ruhrtriennale
24 de agosto de 2013, Folkwang Museum, Essen / Ruhrtriennale 2013

A realização de Nowhere and Everywhere at the Same Time Nº 2, na Ruhrtriennale marca um capítulo totalmente novo no desenvolvimento desse trabalho coreográfico. Originalmente criado para um dançarino solo e 40 pêndulos em um prédio abandonado no histórico High Line, em Nova York, a instalação tem sido continuamente desenvolvida em contextos tão diversos quanto a monumental arquitetura industrial do Turbine Hall da Tate Modern, e o espaço histórico do Arsenale, na Bienal de Veneza. Essa versão nova preserva e privilegia dois interesses centrais do trabalho do Fosrythe: contraponto e a competência coreográfica inconsciente induzida por situações coreográficas. Suspenso em grades automatizadas, mais de 400 pêndulos são ativados iniciando uma varredura de 15 partes contraponto de tempi, justaposição espacial e gradientes de força centrífuga que oferecem ao espectador um labirinto de constantes transformações significantemente complexas. Os espectadores estão livres para tentar uma navegação neste ambiente estatisticamente imprevisível – onde são solicitados a evitar entrar em contato com qualquer um dos pêndulos em movimento. Esta tarefa automaticamente alerta e incita as faculdades preditivas inatas dos espectadores, produzindo uma coreografia viva de estratégias múltiplas e intricadas.

INSTRUCTIONS, SÃO PAULO

(InstruçõesSão Paulo)

William Forsythe, 2019

À MERCÊ DO QUÊ ?
GRITE BEM ALTO
LEVANTE A CABEÇA

PERGUNTE  POR QUÊ
Instruções que se localizam nas passarelas do conjunto esportivo, preenchidas com paetês.

 

Serviço

Quando: Período da Exposição: 27 de março a 28 de julho/2019<br>Terça a sábado, 10h às 21h30<br>Domingo e feriado, 10h às 19h30

Onde: Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93, São Paulo (SP).

Quanto: grátis.

Para agendamentos de grupos: escrever para o e-mail agendamento@pompeia.sescsp.org.br

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