Sobre a exclusão da dança na premiação 2015 da APCA

Há tempos estava afastada da Associação Paulista de Críticos de Arte, a APCA, como integrante da comissão de dança. Participei ano passado, a convite de Helena Katz, mas não pretendia voltar neste ano.

Por insistência de Helena, acabei concordando em votar neste ano, junto com a própria Helena, Ana Teixeira e Renata Xavier (que estavam na comissão em 2014 e, me parece, em anos anteriores).

Em razão de minha impossibilidade de me deslocar até o local da votação, na segunda-feira dia 30 de novembro, participei por skype da reunião para as ponderações e a realização das escolhas, antes da oficialização dos resultados na noite de 2 de dezembro de 2015, na sede da APCA. Logo no início da conversa, me surpreendi quando Helena propôs uma “radicalização”, já compartilhada por Ana Teixeira e Renata: premiar um só artista, solista, não radicado em São Paulo, já escolhido por elas, cujo nome me foi informado. Justificativa: pelo entendimento de corpo e de linguagem que este artista teria, o que poderia apontar para uma certa situação de “piloto automático” nas produções atuais da dança.

Manifestei meu total desacordo com esta proposta. Inclusive porque não faz sentido premiar um artista só, como se ele fosse uma referência a ser seguida e reflexo de uma situação. Eu poderia cogitar a premiação deste artista, mas jamais singuralizá-lo desta forma.

Sob o efeito atordoante desta proposta, comentei que se quisessem radicalizar, que não premiassem ninguém (apenas um comentário no meio de uma conversa que ainda não havia chegado a lugar algum). De qualquer forma, eu disse que diante do que estava sendo apresentado eu me retiraria da comissão.

No dia seguinte, recebi o seguinte e-mail enviado por Helena Katz: “Conversamos as três a partir do que você disse ontem e ponderamos que talvez seja mesmo melhor não premiar ninguém, como você sugeriu. Achamos mais adequado e decidimos acatar a sua proposta. Escreveremos um texto explicando que o objetivo, neste ano, é convocar para uma reflexão sobre a relação das premiações com a produção artística e o seu papel na consolidação do campo da dança”.

Novamente levei um susto porque meu comentário, que apenas pontuou uma assertiva inquietante, não representava nenhuma opção ou decisão final de minha parte, muito menos algo a ser “acatado” por todas. Manifestei isto em resposta por e-mail, complementando: “Peço por favor que não me considerem como integrante da comissão deste ano. Acho muito sério não haver premiação para a dança, quando todas as outras áreas vão apresentar seus premiados. De alguma forma, isto enfraquece a dança. Não acredito que vá representar uma motivação maior para uma certa reflexão, que pode ser estimulada de outras formas. Como disse ontem, há muita gente trabalhando, há sim uma evolução na produção, principalmente de São Paulo, sabemos o quanto é difícil a sustentabilidade na área de dança e uma não premiação pode ter inúmeras interpretações, que podem ser prejudiciais à área como um todo.”

Diante desta argumentação, acabei ganhando a adesão de Renata Xavier, que também decidiu se posicionar contra a não premiação.

Dia seguinte, em mais um e-mail, Helena informou que havia consultado o representante da APCA sobre o empate manifestado pela comissão: duas queriam premiar (eu e Renata) e duas preferiam a não premiação (Helena e Ana Teixeira). E enviou a resposta do representante da APCA: “Acho legal a posição de não premiar, é bem interessante para chamar a atenção da classe da dança. A comissão com apenas dois membros não pode votar, a exigência é ter no mínimo três, mas como no caso houve empate a diretoria pode desempatar para a não premiação da área”.

Em minha resposta, manifestei que não concordava com a interferência no desempate de alguém que não é da dança, que não vivencia a área.

Ao fim e ao cabo, decidiu-se que por falta de consenso na comissão, não haveria premiação para a dança em 2015.

A meu ver, tal situação não faz sentido inclusive porque há uma produção recorde de espetáculos de dança nos palcos de São Paulo, com espaços e propostas se multiplicando, companhias comemorando décadas de atividades, trajetórias meritoriamente construídas, uma nova geração despontando e demonstrando interesse – tudo isto somado à capacidade de mobilização e organização que não se observava na classe em outras épocas, a existência de um programa de fomento à dança precursor, mapeamentos nunca feitos em curso etc. Como pensar em excluir a dança da premiação da APCA, que tem certa tradição na cidade e que na atual edição celebra 60 anos? Sem contar que, à parte a dança sediada em São Paulo, o prêmio da APCA pode contemplar a produção de todo o Brasil que passa pela cidade no decorrer do ano.

Claro que questões, discussões, reflexões têm que ser cultivadas sempre, sobre toda a conjuntura da área. Mas sem que o prêmio da APCA de 2015 seja tomado como pretexto para tanto, por iniciativa de apenas duas pessoas, que têm meu respeito mas com as quais posso discordar.

Vale lembrar que o prêmio da APCA é apenas um símbolo de reconhecimento e não oferece premiação em dinheiro ou qualquer recompensa material.

Após este relato, que considero importante ser apresentado, convido Helena Katz, Ana Teixeira, Renata Xavier, todos os que quiserem se manifestar, para que aprofundem opiniões e questões, nesta publicação virtual da dança.

À APCA comunico que não mais participarei da comissão de dança, até que possamos contar com mais pluralidade na composição de integrantes.

Neste final de ano tão conturbado de nosso país, desejo a todos da dança que sejam construídas, cada vez mais, condições favoráveis de trabalho, criação, produção, fruição artística – com lugar para todas as vertentes, propostas e manifestações. Que seja possível estabelecer um espaço comum, sem guetos, tribos, feudos. Ninguém é dono da verdade, não há regras fixas na arte.