Penha de Souza: um legado de ensinamentos na dança brasileira

Penha de Souza pertence à linhagem dos mestres e artistas da dança brasileira que expandiram horizontes.

Ao se aprofundar em diferentes técnicas, recursos e linguagens corporais, ela criou um método próprio, fruto de vivências que proporcionaram formação e informação para gerações de alunos e artistas.

Nascida no Rio de Janeiro em 12 de julho de 1935, Penha morou e trabalhou a maior parte de sua vida em São Paulo. Foi na cidade que adotou e também no seu mês de nascimento, que ela faleceu ontem, quarta-feira, 1º de julho de 2020, poucos dias antes de completar 85 anos. Segundo sua filha, a bailarina e coreógrafa Claudia de Souza, Penha partiu dormindo, depois de ouvir música clássica, um hábito cotidiano.

“Me ensinou a expressão do amor a partir da dança”, afirmou Claudia sobre a mãe. Suas três filhas – Cassia, Kika e Claudia – tornaram-se artistas da dança com a naturalidade dos que respiram arte diariamente. “Elas foram criadas dentro da dança, mas nunca as obriguei a nada”, declarou Penha em entrevista.

Sua morte súbita causou comoção nos meios de dança de todo o Brasil. Bailarina e coreógrafa, Penha sempre deu primazia ao ensino. Suas escolas, em São Paulo, tornaram-se pontos de referência. Ao mesmo tempo, foi incansável na difusão de ensinamentos, ministrando aulas em diversas regiões brasileiras. Com isso, tornou-se mentora de inúmeros estudantes e profissionais de dança.

Penha de Souza tinha 12 anos quando sua família mudou-se do Rio de Janeiro para a cidade de Bauru, no interior de São Paulo. Foi lá que deu continuidade aos estudos de dança, iniciados na infância. Aos 20 anos, quando transferiu-se para a capital paulista, ingressou na Escola de Danças Clássicas de Maria Olenewa, onde tornou-se bailarina solista, professora e assistente da mestra russa que fortaleceu a implantação do balé clássico no Brasil.

Se ficasse circunscrita às tendências da época, Penha de Souza faria do balé clássico a sua principal – e talvez única – linguagem. Porém, a partir de 1964, seu interesse pela dança moderna se manifestou efetivamente – e alguns nomes passaram a marcar sua trajetória.

O primeiro deles foi Renée Gumiel (1913-2006), a bailarina, coreógrafa e atriz francesa que desembarcou no Brasil em 1957 para trazer as pulsações da modernidade europeia e influenciar mentalidades com o arrojamento de suas ideias. Com Renée, além de aluna e assistente, Penha trabalhou como bailarina das companhias dirigidas pela mestra francesa, o Ballet Contemporâneo Brasileiro e o Ballet Moderno de Renée Gumiel, no qual também foi coreógrafa.

Em 1965, iniciou-se na técnica de Martha Graham em aulas com Clarisse Abujamra. Sete anos depois, foi estudar em Nova York, nas escolas de Graham e de mais um expoente da época, Alvin Ailey. Nesta altura, Penha já tinha avançado fronteiras para ampliar conhecimentos e envolver-se com as intensas transformações promovidas pela dança moderna.

De volta ao Brasil, fundou em 1973 o Grupo Experimental de Dança, que durante dez anos atuou intensamente, em confluência com instigantes jovens artistas, como Sônia Mota, Umberto da Silva, Ana Mondini, Carlos Demitre, entre outros.

Em 1977, uma nova companhia surgia em São Paulo, por iniciativa de Hulda Bittencourt – a Cisne Negro, que estreou com uma coreografia de Penha de Souza, Pulsación.

Super atuante, Penha participou da fundação da APPD – Associação Paulista dos Profissionais de Dança, que em 1991 tornou-se o Sindicato dos Profissionais da Dança do Estado de São Paulo. Com isso, contribuiu para o reconhecimento da dança como profissão no Brasil.

Ao longo de sua vigorosa carreira, Penha ainda fundou mais duas companhias – o Grupo de Dança Penha de Souza, em 1985, e o Ballet Teatro do Bixiga, em 1988. Val Folly, artista de expressão na época, atuante na dança e no teatro, foi um parceiro importante de Penha e suas filhas, principalmente Claudia. Junto com Folly, que morreu precocemente em 1991, aos 40 anos, Claudia criou sua primeira coreografia, Será que Alguém Morreu?, para o Ballet Teatro do Bixiga.

Foi Val Folly que apresentou Penha a dois mestres norte-americanos, Zvi Gotheiner e Elisa King, com os quais ela estabeleceu intercâmbios. De Gotheiner, Penha absorveu o movimento eficiente, com o esforço certo, que já permeava, de alguma forma, seus entendimentos sobre o corpo.

Mestra por excelência, Penha absorveu e transformou diferentes técnicas e, com especial sabedoria, desenvolveu seu próprio método – o Alongamento Corretivo Postural, disseminado entre alunos de todas as idades, leigos e profissionais.

Com seus saberes e generosidade, formou uma prole numerosa – entre artistas e pessoas apenas interessadas em se movimentar com mais habilidade e consciência.

O legado de Penha de Souza permanecerá como história e patrimônio da dança brasileira.

Fotos: acervo de família

 

Penha de Souza e sua filha, Claudia de Souza