O ciclo humano de queda e recuperação no espetáculo ‘Normal’, da companhia suíça Alias, dirigida pelo brasileiro Guilherme Botelho

Por Ana Francisca Ponzio

Corpos que caem e se levantam, incessantemente, durante cerca de uma hora. Caem e levantam. Sempre caindo e levantando, movem-se fugazmente no espaço, que se reconfigura. Movimentos sutis com mãos, cabeça, a leve mudança de expressões faciais, compõem um fluxo repetitivo, hipnotizante, que vai ganhando a capacidade de sugerir estórias, de adentrar na mente e imaginação do espectador para trazer à tona o senso da condição humana, em sua permanente instabilidade.

É normal o cair e levantar sem fim da vida cotidiana? O provável sim como resposta dá nome, com certa ironia, ao espetáculo. Normal, da companhia suíça Alias, dirigida pelo brasileiro Guilherme Botelho, encerrou a Bienal Sesc de Dança de 2019, seguindo para uma apresentação no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo.

“A vida é assim: é normal a gente passar por coisas tão difíceis? Eu acho que sim, é justamente através das quedas que aprendemos a levantar. Sempre procuramos a ausência de problemas, mas a vida é feita de problemas. Eu tinha um médico que dizia: ‘um corpo são fica doente, a doença faz parte da vida sã’. É a condição humana”, afirma Guilherme Botelho, paulistano que fundou a companhia Alias em 1994 em Genebra, transformando-a em uma das principais expressões da dança contemporânea da Suíça.

“O espetáculo traz esta capacidade que temos de nos construir sobre os destroços. Isso acontece de maneira sugerida e não narrativa ou dramática, criando uma certa ‘normalidade’ para essas quedas.”

Guilherme diz que Normal é como uma “peça-tela”, pelo fato de permitir que o público nela projete suas memórias e sentimentos pessoais. “Em Genebra havia espectadores que saíam chorando do teatro por causa dessa capacidade de projeção na obra. Sabe aquele verso ‘tristeza não tem fim, felicidade sim’? As coisas que machucam a gente não vão embora, elas ficam, aprendemos a conviver com elas”, comenta o coreógrafo sobre esse espetáculo que evoca uma eterna reconstrução, dançado por seis bailarinos – três homens e três mulheres, vestidos com as roupas comuns do cotidiano.

Foto: Gregory Batardon

A coreografia, embora apoiada em movimentos simples, de cair e levantar, vai ganhando complexidade cada vez maior. Algo que já estava presente em Sideways Rain, espetáculo de 2010, que a companhia Alias apresentou em 2011 em São Paulo, na mostra Panorama Sesi de Dança.

Em Sideways Rain, 14 bailarinos atravessam o palco, um após outro. Correm, caem, erguem-se, param, recomeçam, animados por um inexplicável desejo de prosseguir, em direção a um destino que parece desaparecer a todo instante. Assim como em Normal, que estreou no final de 2018, produz um efeito arrebatador.

“Não é uma abordagem comum a todos os meus espetáculos”, ressalta Guilherme, citando como exemplo Antes, de 2014, e mesmo Le Poids des Eponges, de 2002, remontado em 2012, que lança um olhar sobre a vida cotidiana através de situações cômicas e estranhas (Le Poids des Eponges também foi apresentado em São Paulo no Panorama Sesi de Dança de 2011).

“Até 2010 eu fazia o que chamavam de teatro físico, com uma preocupação psicológica, social. A partir de então, minhas criações tornaram-se mais metafísicas, mais centradas em questões filosóficas”, salienta Guilherme, acrescentando que não segue tendências. “Faço o que estou a fim de fazer, não sigo modismos. Quando todo mundo fazia a non-danse (*), eu estava fazendo obras mais teatrais, com muita dança. Há cerca de dez anos, quando a teatralidade voltou a ser explorada, eu já estava interessado em outras coisas. Nunca procuro uma linguagem ou um estilo, minha busca é voltada para o que é necessário no momento, para o espetáculo que tenho em mente. Me preocupo com uma certa dramaturgia, é mais uma questão sobre o que funciona, o que desperta emoções, o que leva à tona o mundo interior de quem está na plateia, o que provoca um diálogo profundo entre o espetáculo e o espectador. Me sinto mais próximo de um cientista, de um pesquisador em busca do que pode despertar coisas no público e se para isso é preciso falar ou rolar em cena ou só criar uma luz, eu exploro com persistência. Não acho que a coreografia seja mais importante que a iluminação, a roupa, o texto”, afirma o coreógrafo sobre a construção de suas criações.

Musicalmente, os espetáculos de Guilherme Botelho contam com a colaboração de Murcof. Nascido no México e radicado em Barcelona, Espanha, Murcof (nome artístico de Fernando Corona) é um respeitado compositor de música eletrônica. “Às vezes, em pleno processo de criação do espetáculo, ele desaparece. Daí fico sabendo que está meditando nas montanhas”, conta Guilherme, rindo, sobre seu parceiro musical. “Ele é ótimo, um talento impressionante”.

Se necessário, recursos cênicos como a projeção audiovisual que encerra o espetáculo Normal também podem pontuar as produções de Guilherme. Nesta criação que marcou a Bienal Sesc de Dança de 2019, um rápido filme surge ao fundo do palco, firmando o que a coreografia já havia sugerido. Wislawa Szymborska (1923-2012), a escritora polonesa que ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1996, surge no vídeo, para dar um recado preciso. “Você conhece aquela piada?”, ela pergunta, contando que quando Albert Einstein morreu ele foi para os portões do céu, onde Deus lhe deu as boas-vindas. Diante do Criador, o cientista que desenvolveu a teoria da relatividade não se conteve e perguntou quais tinham sido os princípios que lhe permitiram criar o universo. Como resposta, Deus começou a escrever uma equação sem fim em uma lousa. Intrigado, Einstein observou: “Me perdoe, mas aqui tem um erro que fica se repetindo o tempo todo”. E Deus respondeu: “Exatamente!”.

Para Guilherme Botelho, o erro misturado aos acertos, a impossibilidade das pessoas se manterem nos eixos, os paradoxos da vida, o eterno cair e levantar, se expressam em seu mais recente espetáculo. Normal! E bem de acordo com um provérbio japonês: “Caia sete vezes, levante oito”.

Foto: Divulgação

Um brasileiro com raízes no Nordeste, que vive de arte na Suíça

O pai veio de Recife, a mãe de Maceió. Na família com quatro irmãos, dois nasceram em São Paulo, entre eles Guilherme. “Tive sorte porque nas férias entrava em contato com o folclore muito rico do Nordeste brasileiro e em São Paulo nós convivíamos com o meio teatral, com a arte, a ciência e a pesquisa, como valores sempre presentes em nossas vidas”, conta o coreógrafo, que começou a dançar aos 15 anos de idade.

Foi Cenas de Família, uma coreografia do argentino Oscar Araiz, apresentada em 1978 pelo então Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo, atual Balé da Cidade de São Paulo, que inspirou Guilherme. “Comecei a dançar por causa desta peça do Oscar”, lembra.

Depois de integrar o elenco do Corpo de Baile do Municipal paulistano dos 17 aos 19 anos, Guilherme deu mais um salto em sua carreira ao ser convidado para dançar no Ballet du Grand Théâtre de Genève, na Suíça, então dirigido por Oscar Araiz. Como sempre, tudo foi acontecendo rapidamente. Em 1994 Guilherme fundou sua própria companhia, a Alias, que já está completando 25 anos de atividade. “O primeiro espetáculo já rendeu dinheiro”, ele conta, o que criou condições para a companhia se estabelecer e seguir adiante. Hoje, a Alias de Guilherme Botelho é referência na dança suíça e recebe subvenções de fontes que englobam os governos do município, da cidade e do país.

Na Suíça, a Alias representa a chamada dança independente. Os elencos de bailarinos podem mudar a cada nova produção. Assim que retornar para Genebra, após as apresentações em Campinas, na Bienal Sesc de Dança, e em São Paulo, Guilherme já inicia a criação de seu próximo espetáculo, que deve estrear em outubro de 2020. Tal condição, que permite ao coreógrafo se dedicar com seu grupo a um novo trabalho com um ano de antecedência, seria quase impensável no Brasil.

Pouco divulgado em seu país de origem, o trabalho de Guilherme Botelho encontra, na Suíça, as condições de continuidade que lhe permitem depurar suas buscas artísticas. “Sou muito detalhista, acho que é esse o meu trabalho, perseverar na direção que acredito”, diz.

 

(*) Non-Danse: movimento da dança contemporânea nascido em meados da década de 1990, que se manifestou principalmente na França e que reinvindica uma criação cênica interdisciplinar, desviada do movimento tradicional de dança e integrada às outras artes da cena, como vídeo, textos, artes plásticas.

 

Serviço:

Apresentação de Normal, da Companhia Alias – Guilherme Botelho, no Teatro Anchieta

Dia 26 de setembro, quinta-feira, 21h

Rua Dr. Vila Nova, 245, Consolação, São Paulo (SP).

Ingressos: R$ 12, R$ 20 e R$ 40.

www.sescsp.org.br