O bailarino e coreógrafo Mário Nascimento é o novo diretor artístico do Corpo de Dança do Amazonas

O Corpo de Dança do Amazonas (CDA), companhia fundada em 1998 e com sede no Teatro Amazonas de Manaus, começa 2020 com um novo diretor artístico: o bailarino e coreógrafo Mário Nascimento.

Nascido em Cuiabá (MT), Mário Nascimento iniciou sua carreira em São Paulo, onde trabalhou intensamente. Desde 2002 vive em Belo Horizonte (MG), onde está sediada sua companhia de dança – a Cia. Mário Nascimento – uma das mais expressivas da dança contemporânea brasileira.

“O Corpo de Dança do Amazonas é uma companhia que vai conseguir interpretar meu trabalho com garra e personalidade”, afirma Mário Nascimento, já tecendo planos para a nova fase.

Embora seja um coreógrafo super atuante, Mário não pretende ser o único criador da companhia amazonense. Outros coreógrafos serão convidados para trabalhar com o grupo e já em 2020 ele quer produzir espetáculos assinados por três coreógrafas. “Há uma certa hegemonia masculina na produção coreográfica brasileira e por isso quero que as mulheres também tenham destaque em nosso repertório”.

Uma direção transparente e aberta, marcada pelo diálogo entre todos os integrantes da companhia, é como Mário deseja pautar seu trabalho junto ao CDA.

“Também quero fortalecer a presença internacional do grupo, já reconhecido entre as grandes companhias oficiais do Brasil”, acrescenta Mário.

Foto: Marco Aurelio Prates
Mário Nascimento em Zhu, espetáculo de sua autoria.

O convite para dirigir o CDA, formalizado pelo atual Secretário de Cultura do Estado do Amazonas, Marcos Apolo Muniz, chega em um momento especial da carreira de Mário Nascimento. Atualmente ele vivencia uma internacionalização de seu trabalho, como criador e intérprete, através de três projetos em andamento.

Desde 2019 está envolvido no processo de criação de O Último Homem (The Last Man), um espetáculo de teatro físico produzido e dirigido por Marco De Ornellas, da Lobo Film Production de Los Angeles, Califórnia, que deve estrear em junho de 2020 nos Estados Unidos. Em O Último Homem, Mário estará em cena com De Ornellas, ator e produtor brasileiro que, embora pouco conhecido no próprio país, se destaca na cena norte-americana (já recebeu prêmios como o “Best Brazilian Actor in the USA” de 2015).

O segundo projeto de Mário fora do Brasil é uma colaboração artística com Wagner Moreira, coreógrafo e bailarino brasileiro que vive na Alemanha. O terceiro é o dueto Hemispherios – Duas Partes de um Todo, com Andressa Miyazato, bailarina brasileira radicada na Áustria.

“Em Hemispherios, iremos explorar a memória, os opostos e o complemento, com um discurso sobre consciência e responsabilidade como construtores da sociedade”, comenta Mário sobre a criação com Andressa Miyazato, que começou carreira em São José do Rio Preto (SP), dançou obras de Mário, integrou o grupo Cisne Negro, dirigido por Hulda Bittencourt em São Paulo, e depois mudou-se para a Europa, onde vive há nove anos.

Para completar, Mário também assinará a coreografia do novo espetáculo do Grupo Raça, companhia de dança de São Paulo, que estreará no primeiro semestre de 2020.

“Sou movido a desafios”, diz Mário, reconhecendo-se como um workaholic.

Segundo Mário, sua presença na cena internacional potencializa as possibilidades que pretende expandir junto ao Corpo de Dança do Amazonas. Esperando intensificar a atuação do grupo, Mário quer dar maior visibilidade ao elenco amazonense – tanto no Brasil quanto no exterior.

Conviver com o CDA não será uma novidade para Mário Nascimento. Como coreógrafo, ele já trabalhou com o grupo. Em 2010 a companhia amazonense estreou Cabanagem, espetáculo de sua autoria inspirado na revolta popular de mesmo nome, protagonizada no período regencial por negros, índios e mestiços da região Norte do Brasil. “Busquei a essência da Cabanagem em muitas andanças pela cidade de Manaus, em contato com as pessoas das ruas, com a arquitetura, além da literatura, que serviu de fonte de pesquisa e desenvolvimento da obra”, comentou Mário na época. De alguma forma, Cabanagem antecipa um jeito de criar e trabalhar do coreógrafo que, agora, será exercido mais plenamente.

Com um elenco que, em geral, costuma somar 26 bailarinos, o Corpo de Dança do Amazonas integra os corpos artísticos da Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas. Joffre Santos foi o primeiro diretor do grupo (de 1998 a 2002). Em seguida, a paulista Ivonice Satie assumiu a direção do CDA durante quatro anos (2002 a 2006). Getúlio Lima, que sucedeu Ivonice, permaneceu na direção até 2019 e continuará na companhia, agora sob condução de Mário Nascimento.

Foto: Ruth Juca
Corpo de Dança do Amazonas no espetáculo Cabanagem, de Mário Nascimento.

Carreira fértil

Para Mário Nascimento, a direção artística do Corpo de Dança do Amazonas soma uma conquista meritória à sua fértil carreira.

Foi em Campinas, onde se estabeleceu em 1978, quando se mudou de Mato Grosso para São Paulo, que Mário se iniciou na dança, fazendo aulas de balé clássico, jazz e dança moderna. Sempre em busca de novos rumos, estudou com grandes referências da dança brasileira na época – como Toshie Kobayashi, Lennie Dale, Fred Benjamin, Redhá Bettenfour, Joyce Kerman e Tony Abbot. Depois de uma passagem pela Europa, voltou ao Brasil e somou a seus processos criativos as artes marciais e a pesquisa musical que deu identidade singular à sua linguagem coreográfica.

Na dança contemporânea brasileira, Mário é um dos coreógrafos mais afinados com a pesquisa musical, sempre associada a suas coreografias como um elemento integrado à cena, com interpretações ao vivo. Este traço marcante tem contado com uma longeva parceria com o compositor Fabio Cardia, autor e intérprete das trilhas musicais das criações de Mário desde 1998, quando o espetáculo Escapada marcou a fundação de sua companhia, em São Paulo.

“Tenho um histórico de parcerias”, ressalta Mário sobre uma das características de sua trajetória, na qual também se destaca a contribuição artística de Rosa Antuña, bailarina e coreógrafa que a ele se associou em Belo Horizonte, na condução da Cia. Mário Nascimento.

Autor de muitos espetáculos para diversos grupos brasileiros, Mário também tem produzido significativamente para sua própria companhia, que continuará existindo na nova fase, mas com provável período sabático em meio à intensidade atual de novos trabalhos.

Reconhecido como bailarino, coreógrafo e professor de dança, Mário Nascimento já coreografou para as principais companhias brasileiras – como Cisne Negro, Balé da Cidade de São Paulo, Balé do Teatro Castro Alves, Cia. de Dança do Palácio das Artes.

Ele lembra que suas primeiras lições na direção de uma companhia começaram quando foi assistente de Hulda Bittencourt no grupo Cisne Negro, de São Paulo, entre 1996 e 1998. “Foi Hulda quem me introduziu na direção de uma grande companhia”, ele diz.

Agora, munido da significativa experiência que acumulou ao longo de sua intensa carreira na dança brasileira, Mário Nascimento está apto para mais um salto à frente do Corpo de Dança do Amazonas, companhia que merece ser mais conhecida e reconhecida no Brasil e, espera-se, no mundo.