Mostra Internacional de Teatro de São Paulo de 2016 traz espetáculos de dança do Congo e da Grécia

Foto: Nikos Dragonas
Cena de Natureza Morta, de Dimitris Papaioannou

 A MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo divulgou a programação de sua terceira edição, que se realizará de 4 a 14 de março de 2016 no Theatro Municipal, no Auditório Ibirapuera, no SESC (unidades Bom Retiro, Consolação, Pinheiros e Vila Mariana) e na Vila Itororó.

Espetáculos de dança têm estado presentes na programação e neste ano a MITsp traz A Carga (Le Cargo), do bailarino e coreógrafo africano Faustin Linyekula, e Natureza Morta, do grego Dimitris Papaioannou.

Linyekula vem da República do Congo. Seu trabalho trata do terror e da pobreza gerados pelas guerras.

A Carga, solo de 55 minutos de duração concebido e interpretado por Linyekula, perpassa histórias do Congo e fala de corpos e destinos violentados e abusados – irremediavelmente marcados pelo curso da história. Neste trabalho, ele mistura dança, canções, música e contação de histórias, colocando em cena a sua história pessoal, seu retorno para casa depois de muitos anos na Europa, e sua relação com a dança.

Faustin Linyekula estudou literatura e teatro em Kisangani, no antigo Zaire. Quando a universidade que frequentava foi fechada, partiu para o Quênia, onde cofundou a primeira companhia de dança contemporânea daquele país, a Gàara, em 1997.

Na França, fez residências com as coreógrafas Régine Chopinot e Mathilde Monnier. Em 2001, optando pelo caminho de resistência em território africano, retornou ao Congo e criou os Studios Kabako, voltados para criações multidisciplinares. Em 2005 obteve carta branca do Centro Nacional da Dança francês para criar um festival, do qual participaram dez companhias africanas até então desconhecidas na Europa.

Desde 2006, os Studios Kabako estão sediados em Kisangani, onde são apresentadas performances de dança, teatro, música e vídeo, ocupando diversas áreas da cidade, especialmente a periferia.

A Carga, primeiro solo de Linyekula , foi concebido em 2011 e circulou por cidades da Europa, África e América do Norte.

Outra criação de Linyekula, Drums and Digging, de 2013, estreou no Festival de Avignon (França).

 

Grego Dimitris Papaioannou apresenta coreografia Natureza Morta

Dimitris Papaioannou é performer, diretor, figurinista, cenógrafo e iluminador. Ele tornou-se conhecido mundialmente em 2004, quando criou a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas. Em 1986, Papaioannou fundou a Edafos Dance Theatre, companhia que ficou em atividade até 2002 e para a qual ele criou todas as 17 produções que inseriram o grupo na cena contemporânea grega.

A coreografia Natureza Morta, que será apresentada na MITsp 2016, nasceu de uma meditação sobre o mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi condenado a um tipo estranho de imortalidade: rolar uma enorme pedra até o topo de uma montanha e, ao chegar lá, vê-la rolar ladeira abaixo. Ad infinitum, ele desce a ladeira a fim de rolar a pedra para cima. Ao associar este mito à classe trabalhadora, Papaioannou faz um “trabalho sobre o trabalho” e relaciona-o, na atualidade, aos países em desenvolvimento e aos da Europa Ocidental.

 

Programação internacional

A MITsp 2016 traz também os seguintes espetáculos:

. Cinderela (Cendrillon), do diretor francês Joël Pommerat. A peça produzida pelo Teatro Nacional da Bélgica, abre a Mostra no dia 4 de março, no Auditório Ibirapuera. Trata-se de um texto reescrito por Pommerat, a partir de um dos contos dos irmãos Grimm, que desenha o fundo trágico da infância: o medo, a solidão, os pesadelos e as esperanças a partir do moto maior do enredo, que é a morte da mãe.

. Ça ira, também do diretor Joël Pommerat, é uma ficção política contemporânea, inspirada no processo revolucionário de 1789.

. (A)polônia, do autor e diretor polonês Krzysztof Warlikowski, da Cia. Nowy Teatr. Neste espetáculo, Warlikowski baseia-se em textos clássicos e contemporâneos para lançar luz sobre a ambígua e sombria história do sacrifício, especialmente do auto-sacrifício – o desistir da vida em função do outro.

. 100% City – ou 100% São Paulo, como se chamará na MITsp, é um projeto de teatro transnacional da Alemanha, encabeçado por Helgard Haug, Daniel Wetzel e Stefan Kaegi, da companhia de teatro de Berlim, Rimini Protokoll. Como já aconteceu nas 23 cidades onde foi apresentado, em São Paulo o grupo convidará alguns cidadãos comuns – os especialistas do cotidiano” (que podem não ter experiência prévia ou interesse em teatro), para iniciar a chamada “reação em cadeia”. Em seguida, o habitante da cidade convoca um conhecido para se juntar à cadeia, que chama um outro participante e assim por diante, até alcançar o número de 100 participantes. A ideia é fazer uma amostragem do que pensa uma parte da população da cidade onde se realiza a performance, sobre opiniões diversas –  casamento entre homossexuais, a crise financeira, a guerra, as preferências alimentares e/ou aborto. Desde 100% Berlim, que estreou em 2008, o projeto já foi realizado em cidades como Amsterdã, Gwangju, Tóquio, Cork, San Diego, Melbourne e Londres. Em São Paulo, o espetáculo será apresentado no Theatro Municipal.

. An Old Monk, concepção de Josse De Pauw e Kris Deffort, da Bélgica, é um espetáculo que tanto pode ser um concerto dramático, com três músicos trabalhando com um ator-dançarino ou ainda uma peça que faz referência a outro Monk, Thelonious, o genial músico de jazz, que interrompia seus shows e dançava de forma inspirada.  An Old Monk enfoca a questão da velhice de forma delicada e autoral.

Produções brasileiras

. Cidade Vodu, de José Fernando de Azevedo, do grupo Teatro de Narradores. O mote da peça é o contexto político e cultural em torno da imigração e adaptação dos haitianos no Brasil a partir do terremoto de 2010 – que dizimou o Haiti e matou entre 100 mil e 200 mil habitantes.

. A Tragédia Latino-Americana é uma das partes do novo projeto do diretor teatral Felipe Hirsch e do grupo Ultralíricos, que estreia na 3ª MITsp.

Foto: Tim Mitchell
Cena de 100% City, espetáculo da Alemanha com elenco de cidadãos comuns
Foto: Cici Isson
Cena de Cinderela, do diretor teatral Joël Pommerat
Foto: Elisabeth Carecchio
Cena de Ça ira, do diretor teatral francês Joël Pommerat
Foto: Agathe Poupenay
Faustin Linyekula em Le Cargo