Morre Maria Duschenes, pioneira da dança moderna no Brasil

Nascida na Hungria, Maria Duschenes mudou-se para o Brasil em 1940. A partir de então, destacou-se como educadora e pioneira na difusão dos ensinamentos do revolucionário pesquisador Rudolf Laban (1879-1958). Personalidade que marcou a evolução da dança moderna no Brasil, Duschenes influenciou gerações de artistas brasileiros da dança e também do teatro. Ela faleceu dia 5 de julho (sábado), aos 92 anos, no apartamento onde estava vivendo, no Guarujá (SP).

Quando jovem, ainda vivendo na Europa, Maria Duschenes conviveu com personalidades-chaves da arte moderna. Dos 11 aos 15 anos, ela teve contato com a metodologia do músico e pedagogo suíço Emile Jacques Dalcroze (1865-1950), na escola onde estudou, sob direção de Olga Szent Pál. O método de ensino da rítmica concebido por Dalcroze influenciou não só Maria Duschenes, mas também vários outros artistas pioneiros da dança moderna, como Mary Wigman e Martha Graham. Mesmo Nijinsky utilizou a rítmica de Dalcroze para decodificar A Sagração da Primavera, a música de Stravinsky que ele coreografou e transformou em um dos espetáculos mais impactantes do início do século 20.  

Na época em que se formou na metodologia de Dalcroze, Maria Duschenes teve aulas de dança clássica com Aurélio Milloss (1906-1988), o coreógrafo italiano que em 1953 veio para o Brasil, para dirigir o Ballet do IV Centenário. Depois, aos 15 anos, Duschenes ingressou na Dartington Hall School, a renomada escola de arte situada no sul da Inglaterra, onde foi aluna de Rudolf Laban, de Kurt Jooss (que também se notabilizou como criador do célebre balé A Mesa Verde) e de Sigurd Leeder.

Quando estabeleceu-se no Brasil, Maria Duschenes passou a difundir conhecimentos novos, que contribuíram decisivamente para a evolução da dança no País. De Klauss Vianna a Juliana Carneiro da Cunha, de Denilto Gomes a Maria Mommensohn, dona Maria (como era carinhosamente chamada por seus alunos) influenciou inúmeros artistas brasileiros, transformando mentalidades e abrindo novas possibilidades para a dança.

Além de trabalhar com artistas brasileiros importantes, Duschenes também desenvolveu um expressivo trabalho educativo com crianças. Nas décadas de 1970 e 1980, em um projeto ligado às Bibliotecas Infanto-Juvenis de São Paulo, ela desenvolveu danças corais baseadas em Laban, com a proposta de democratizar a dança, tornando-a acessível a todos.

Como Laban, Maria Duschenes ensinava uma dança capaz de restituir a relação do ser humano com o cosmos. “Com a dança a gente fala com o mundo”, ela dizia. Por causa de algumas limitações de movimentos causadas pela poliomielite que teve aos 22 anos, Duschenes dedicou-se mais ao ensino e à coreografia. A partir de 1999, acometida do mal de Alzheimer, ela foi deixando progressivamente de trabalhar.

Domingo, 8 de julho de 2014, um dia após sua morte, o neto de Maria Duschenes, Daniel, escreveu: “Minha avó tinha um dom especial: ela era uma transformadora de pessoas. Quem teve o privilégio de conhecê-la sabe dessa força que emanava dela. Ontem, em sua cama no apartamento em que vivia no Guarujá, Maria faleceu. Sem alarde, ela se libertou enfim do corpo inerte a que o mal de Alzheimer a havia confinado por muitos anos. Agora, enquanto a matéria se dissipa e volta a dançar a dança dos átomos do universo, seu espírito se projeta em nós, para sempre, transformador. Viva Maria Duschenes!”.

Viva!