MASP: Trisha Brown ganha primeira exposição individual no Brasil

Uma das coreógrafas e dançarinas mais influentes do século 20, Trisha Brown (1936-2017) ganha sua primeira exposição individual no Brasil. Trisha Brown: coreografar a vida integra o ciclo temático do Museu de Arte de São Paulo (MASP) de 2020, que gira em torno das Histórias da dança.

Também estão em cartaz as mostras temporárias Hélio Oiticica: a dança na minha experiência, Senga Nengudi: topologias e Sala de vídeo: Babette Mangolte. Com curadoria de André Mesquita, a mostra inclui 156 trabalhos, entre desenhos, diagramas, fotos, vídeos e filmes.

A abertura da exposição, prevista para março, foi adiada em razão da pandemia de covid-19.

“Dançar é sequenciar e expressar movimentos. Coreografar é projetar a dança, ou seja, organizar essa sequência. Trisha fazia anotações e inúmeros desenhos para sistematizar os gestos do corpo. Com o tempo, ela passou a aproximar a dança do cotidiano incorporando movimentos corriqueiros, como andar e vestir, em seus trabalhos”, explica Mesquita ­­–daí o título da exposição.

A mostra está dividida em oito núcleos pensados a partir do vocabulário e dos ciclos de trabalho de Trisha: Corpo democrático, Contra a gravidade, Transmitir os gestos, Acumulações, Diagrama em movimento, Impulso contraditório, Máquinas de dança, Desenhar, performar. Trisha Brown: coreografar a vida busca apontar as complexas relações entre dança e artes visuais, exibindo em simultâneo os desenhos com as imagens de suas coreografias. Estarão reunidos trabalhos fundamentais no percurso da artista e que enfatizam o aspecto inovador de sua produção.

Foto: Jack Mitchell
Trisha Brown

Trisha é o nome artístico de Patricia Ann Brown, nascida em Aberdeen, nos Estados Unidos. O contato com a natureza permitiu que ela, na infância, explorasse florestas, praticasse esportes e pescasse com o pai (anos mais tarde, algumas de suas coreografias, como Falling Duet I, de 1968, e Spiral, de 1974, se assemelharão a jogos e brincadeiras).

Ainda em Aberdeen, nos anos 1940, começou a fazer aulas de balé, sapateado, jazz e danças acrobáticas e, em 1954, iniciou sua graduação em dança no Mills College em Oakland, Califórnia. Trisha teve aulas de dança africana com Ruth Beckford (1925-2019) na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e com Louis Horst (1884-1964) no Connecticut College, em New London, um dos principais nomes da composição coreográfica na dança moderna.

Recém-graduada, em 1958, mudou-se para Portland (Oregon) para dar aulas. Lá, fundou o departamento de dança no Reed College, no qual permaneceu até 1960. Já nos primeiros meses, o método convencional de ensino tinha se esgotado, e ela passou então a se dedicar ao ensino da improvisação. Um divisor de águas em sua carreira, a “improvisação memorizada” tornou-se uma de suas técnicas fundamentais e marca distintiva na década de 1970.

Foto: Lois Gre3enfield
Trisha Brown em Watermotor, 1978

Brown fez parte de uma geração de artistas que, liderados por Anna Halprin (1920), contribuiu, por exemplo, para introdução de corpos não habituais na dança, criação de peças como manifestos políticos realizados nas ruas, utilização da improvisação como prática e ferramenta compositiva, utilização da fala e da voz como parte da dança e criação de peças para lugares não tradicionais.

Em 1961, ela mudou-se para Nova York e lá formou o Judson Dance Theater (1962-1964). Com os integrantes, compartilhava uma visão de dança expandida, na qual cabiam gestos cotidianos como andar, correr, cozinhar etc. Essa visão mais ampla possibilitou, ainda, a dança para além do teatro: ele foi substituído por ruas, telhados, fachadas de prédios, estacionamentos, parques e árvores.

Foi no cenário urbano de Nova York que Trisha apresentou uma de suas coreografias mais icônicas, Woman Walking Down a Ladder, em 1973, na qual desce verticalmente por uma escada no topo de um edifício. Já em Floor of the Forest, da mesma década, a dança consiste em vestir e desvestir roupas amarradas em uma grade a mais de um metro do chão.

Outros trabalhos importantes como Acumulation (1971), em que, por meio da repetição, movimentos vão sendo adicionados até formarem uma coreografia completa, e Water Motor (1978), dança sem coreografia, baseada em memória e improviso, também estarão presentes na mostra.

Contrariando o esforço físico inerente a elas, as coreografias de Brown têm em comum transmitir sensações de naturalidade. Mesmo dentro do teatro, Trisha colocava os padrões em cheque. Em If you couldn’t see me (1994), por exemplo, a coreografia é dançada de costas para a plateia, fazendo com que a parede no fundo do palco desapareça ou se abra.

Foto: Babette Mangolte

Seu processo de pesquisa criou também um método arquivístico em termos de organização, classificação e agrupamento –os detalhes das coreografias foram registrados em anotações, cadernos e diários durante anos, ou desenvolvidos como desenhos e diagramas.

“Com mais de uma centena de coreografias, diretora de óperas, como L’Orfeo, de Claudio Monteverdi [1567-1643], realizada em 1998, e uma obra visual que relaciona dança com desenhos de tamanhos variados, partituras, anotações e diagramas, o trabalho de Trisha Brown construiu uma narrativa única na maneira de organizar e representar os movimentos do corpo”, diz Mesquita.

Trisha aposentou-se em 2008, mas continuou a coreografar para a Trisha Brown Dance Company (TBDC) até 2011. A companhia continua atuante e foi essencial para a produção desta exposição.

Foto: Eduardo Ortega

 

MASP: dança como eixo temático em 2020 e regras durante pandemia

 

Fechado desde 17 de março de 2020 em razão da pandemia de covid-19, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) iniciou um retorno gradual a suas atividades em 13 de outubro. A decisão respeita a passagem da capital para a Fase Verde do Plano São Paulo. As novas regras de funcionamento e visitação seguem as orientações de um rigoroso protocolo sanitário aprovado pela Prefeitura da cidade, cujo desenvolvimento e implementação também foram intensamente discutidos entre as instituições que integram a Paulista Cultural.

O MASP passou a funcionar com horário reduzido: de terça a sexta, das 13h às 19h, sábado e domingo, das 10h às 16h, com agendamento online obrigatório, inclusive para as terças gratuitas. Regras como redução da capacidade máxima, uso de máscaras e distanciamento social mínimo de 1,5m também são obrigatórias. Mais em masp.org.br/visitasegura e masp.org.br/ingressos.

Neste ano, o eixo temático que pauta todas as atividades do museu são as Histórias da dança. No que diz respeito a programação, o público poderá conferir, até novembro, as exposições: Hélio Oiticica: a dança na minha experiênciaTrisha Brown: coreografar a vida e Senga Nengudi: topologias, além do Acervo em Transformação. A grade de mostras para o segundo semestre de 2020 continua com as individuais de Edgar Degas e Beatriz Milhazes previstas para dezembro.

Na sala de vídeo, as artistas deste ano serão Babette Mangolte, entre outubro e novembro, e Mathilde Rosier, entre novembro e dezembro. A seleção de filmes da cineasta e fotógrafa Mangolte (França, 1941) tem como foco seu interesse pela dança e pelo movimento do corpo, sobretudo dois projetos realizados a partir do trabalho de Yvonne Rainer. A curadoria é de Maria Inês Rodríguez, curadora adjunta de arte moderna e contemporânea no MASP.

 

Catálogo

            Organizado por André Mesquita, a publicação (com versões em português e inglês) reúne dois textos inéditos, de David M. Sperling e Susan Rosenberg, que discutem as contribuições fundamentais de Brown para a dança e as artes visuais. Textos de Babette Mangolte, uma conversa entre Trisha Brown e Yvonne Rainer e nota biográfica de Adriana Banana também integram o catálogo (R$ 129). As versões em português e inglês do catálogo Trisha Brown: coreografar a vida estão disponíveis para compra no museu ou pelo email loja@masp.org.br.

 

TRISHA BROWN: COREOGRAFAR A VIDA

Até 15 de novembro/2020 

Endereço: avenida Paulista, 1578, São Paulo, SP

Telefone: (11) 3149-5959

Horários: terça a sexta, das 13h às 19h; sábado e domingo, das 10h às 16h; fechado às segundas.

O MASP tem entrada gratuita às terças-feiras, durante o dia todo, um oferecimento Qualicorp.

Agendamento online obrigatório, inclusive para as terças gratuitas, pelo link: masp.org.br/ingressos

Veja todos os cuidados que o museu adotou para receber o público de forma segura e as novas regras de visitação em masp.org.br/visitasegura

Ingressos: R$ 45 (entrada); R$ 22 (meia-entrada)

AMIGO MASP tem acesso ilimitado todos os dias em que o museu está aberto mediante agendamento de data e horário no site do museu.

Estudantes, professores e maiores de 60 anos pagam R$ 22 (meia-entrada).

Menores de 11 anos de idade não pagam ingresso, assim como pessoas com deficiência física com um acompanhante.

O MASP aceita os cartões de crédito Visa, Mastercard, American Express, Elo, Hipercard, Aura, JCB, Diners e Discovery.

Acessível a pessoas com deficiência física, ar condicionado, classificação livre.