Ismael Ivo dará nome a escola de dança que funcionará no prédio da Sala São Paulo a partir de 2022

Ismael Ivo – bailarino, coreógrafo, diretor cênico, personalidade da dança brasileira que construiu carreira de sucesso na Europa – faleceu dia 8 de abril de 2021, quinta-feira, aos 66 anos, em decorrência de complicações da covid-19.

Imediatamente, o governo do Estado de São Paulo anunciou a criação da SP Escola de Dança Ismael Ivo, com inauguração prevista em 2022.

A nova escola oferecerá cursos regulares e de extensão para formação técnica e artística de jovens profissionais e funcionará no terceiro andar do Complexo Cultural Júlio Prestes, região central da capital paulista, onde está sediada a Sala São Paulo. As obras, iniciadas em março deste ano, têm custo estimado de R$ 3,5 milhões.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, esta é uma iniciativa do governador João Doria, que vinha planejando a escola junto com o próprio Ismael deste 2020. Inspirada na Juilliard School, de Nova York, a SP Escola de Dança Ismael Ivo proporcionará cursos regulares para 400 alunos e de extensão para cerca de 1,5 mil.

Foto: Divulgação

Repercussão mundial

A morte inesperada de Ismael Ivo causou comoção, no Brasil e no exterior. A Bienal de Dança de Veneza, cujo Festival Internacional de Dança foi dirigido por Ismael de 2005 a 2012, divulgou a seguinte manifestação: “Estamos em luto e profundamente abalados com a morte de Ismael Ivo. É uma perda para o mundo inteiro da dança, assim como para a cidade de Veneza, que o amava por seu carisma e sua alegria de viver, e também para a instituição que ele ajudou a expandir e nela consolidar o Departamento de Dança a nível internacional”.

No Brasil, Ismael Ivo começou sua carreira no final da década de 1970. Nascido na cidade de São Paulo, filho mais jovem de uma família pobre, moradora do subúrbio de Vila Ema, ele chegou a cursar faculdade de turismo, logo trocada pelo teatro. Na época, por meio de um convênio do sindicato dos atores, conseguiu uma bolsa de estudos para frequentar a escola de Ismael Guiser, o professor e coreógrafo que dirigia no bairro paulistano de Pinheiros um arrojado projeto de ensino e intercâmbio – o Balletteatro. Nesta escola referencial na época, bailarinos como J.C.Violla, João Maurício, Susana Yamauchi e Thales Pan Chacon fermentavam um ambiente que contribuiu para fazer da dança uma área em expansão.

Aluno de Yara von Lindenau, mestra emérita dos anos 1970, Ismael iniciou-se na dança, sem abandonar a atividade teatral. Como integrante do Pessoal do Victor, grupo dirigido por Paulo Betti e Eliane Giardini, participou da peça Cerimônia para um Negro Assassinado. Em plena ditadura, as artes cênicas viviam um momento efervescente em São Paulo. “Em vez de inibir, a censura estimulava os artistas, que atuavam com grande ímpeto e energia”, lembrou Ismael em entrevista à revista Bravo!, em 2001.

Em março de 1975, com a inauguração do Teatro da Dança na sala Galpão do Teatro Ruth Escobar, Ivo e sua geração ganharam um importante ponto de referência em São Paulo. Nomes como Célia Gouvea e Juliana Carneiro da Cunha (recém-chegadas da Europa, onde haviam cursado a escola de Maurice Béjart – o Mudra), Maurice Vaneau, Iracity Cardoso, Marilena Ansaldi, José Possi Neto, Renée Gumiel, Ruth Rachou e Antonio Carlos Cardoso compunham uma nata transformadora, com a qual Ivo estudou e trabalhou.

“Foi um período fundamental, de trocas intensas”, disse Ivo na mesma entrevista à revista Bravo!. Com Mara Borba, que ele depois levou para trabalhar com ele, na Europa, Ivo promovia maratonas noturnas no Galpão, chamadas de Arte Aberta, que misturavam músicos, coreógrafos, artistas plásticos. “Era uma feira de invenções e essa agitação só ficou melhor quando Klauss Vianna assumiu a direção do Balé da Cidade de São Paulo, lá criando um grupo experimental”. Além de integrar esse elenco paralelo da companhia paulista, Ivo começou a destacar-se como solista. No início da década de 1980, no bairro da Bela Vista, o famoso Bixiga, que na época pulsava como gueto cultural, Ivo brilhava em Rito do Corpo em Lua, com direção de Takao Kusuno, que ganhou encenação memorável em meio aos espelhos do Espaço Infinito, misto de teatro e instalação de artes visuais, projetado pela artista plástica Sulamita.

Em 1982, durante a transformadora gestão de Klauss Vianna (1928-1992) como diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo, Ismael Ivo participou de uma das mais importantes produções da companhia: Bolero, com coreografia de Lia Robatto e direção de Emilie Chamie, premiado como melhor espetáculo do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Para desenvolver o tema proposto por Lia – “o despertar do indivíduo e do grupo através do som e do movimento” – o elenco contribuiu com improvisações, algo que o próprio Klauss estimulava, para que os bailarinos pudessem desenvolver repertórios particulares de movimentos e ter uma atuação criativa no Balé da Cidade.

A presença de Ismael Ivo em Bolero ocorreu através do grupo experimental formado por Klauss Vianna no Balé da Cidade – uma iniciativa ousada, que pretendia proporcionar ao elenco da companhia uma convivência com os criadores independentes de São Paulo. Além de Ivo, fez parte deste grupo uma nata de artistas que fazia a dança paulistana fervilhar – como Sônia Mota, Mara Borba, Mariana Muniz, Zeca Nunes, Denilto Gomes, Duda Costilhes, Susana Yamauchi, Fernando Lee, Ciça Meirelles, João Maurício, Vivien Buckup, Mazé Crescenti, J.C.Violla.

Foi interpretando o solo Rito do Corpo em Lua no festival de dança criado em Salvador por Dulce Aquino, que Ivo chamou a atenção do coreógrafo norte-americano Alvin Ailey, que o levou para Nova York, em 1983. Daí em diante, a carreira internacional de Ivo começou a ganhar impulso. Além de integrar a companhia jovem da prestigiada Alvin Ailey American Dance Theater, manteve a atividade individual em teatros como o La Mama, então um templo da vanguarda novaiorquina. Suas apresentações solo renderam uma resenha no jornal The New York Times, que exaltou seu vigor cênico. Suas performances solo realmente impressionavam: com 1,79 de altura (embora parecesse mais), no palco ele expandia seus enormes braços, mãos, pés, tronco e pernas, dominando a cena com visceralidade.

Em 1984 Ismael Ivo já estava na Áustria, onde teve a chance de fundar as Semanas de Dança Internacional de Viena, junto com o produtor Karl Regensburger. O evento, que cresceu e ganhou o nome de ImPulsTanz Festival, tornou-se um dos maiores da Europa.

Em Berlim, onde fixou residência em 1985, transformou-se em um intérprete-fetiche – era chamado de “Nijinsky negro da dança moderna”. Depois, também conquistou plateias no Japão onde, no final dos anos 1980, participou de uma produção dirigida por Ushio Amagatsu, coreógrafo do celebrado grupo Sankai Juku.

No início da década de 1990, o encontro com um dos criadores de maior reputação da dança-teatro alemã – o coreógrafo Johan Kresnik, que o dirigiu em Bacon e Othello – assinalou outro momento expressivo na carreira de Ivo. O sucesso de bilheterias de tais espetáculos, rendeu-lhe o convite para dirigir o Teatro Nacional de Weimar, onde produziu espetáculos como O Beijo no Asfalto (Kuss im Rinnstein), de Nelson Rodrigues, em parceria com o diretor teatral brasileiro Marcio Aurelio. Em Weimar também amargou experiências malsucedidas, como Uma Breve História do Inferno, produção marcada pelos desentendimentos com o diretor teatral Gerald Thomas, que abandonou a direção do espetáculo antes da estreia. Tido como narcisista, Ivo despertou paixões e desafetos. Contudo, conseguiu inscrever seu nome na arte contemporânea alemã. O que não é pouco para um artista estrangeiro que, apesar do cosmopolitismo, sempre procurou preservar as raízes da cultura afro-brasileira em sua linguagem artística.

“O destino tem sido generoso comigo”, reconheceu Ismael Ivo em 2001.

Na Bienal de Veneza, a trajetória de Ismael Ivo começou em 2002, quando lá apresentou o solo Mapplethorpe, cujo sucesso rendeu apresentação extra, não programada. Três anos depois, ele tornou-se diretor do departamento de dança da Bienal, cargo que ocupou durante oito anos, até 2012. Neste período, criou trabalhos como Erendira, Illuminata e concebeu projetos como o Arsenale dela Danza, voltado para jovens artistas.

Em 2011, desenvolveu um projeto derivado do Arsenale dela Danza – o Biblioteca do Corpo, que contou com parceria do Sesc São Paulo para envolver o Brasil nesta proposta de formação de jovens bailarinos de vários países.

Foto: Divulgação

Miscigenação de referências

Entre as múltiplas parcerias que estabeleceu ao longo da carreira, é especialmente marcante o seu encontro com Marcia Haydée. Já uma artista legendária da dança clássica, Marcia tinha 62 anos, quando se uniu a Ismael, então com 42 anos, para produzir Tristão e Isolda, espetáculo concebido e interpretado pelos dois, com direção teatral de Marcio Aurelio, que estreou em 1999. A afinidade artística entre Marcia e Ivo rendeu outras criações, como Aura (em 2000, junto com o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro), Édipo Rei (2001), M como Callas (2002), A Tempestade (2004) e Corpos Pintados (2006).

Sobre o hibridismo que conduziu sua linguagem artística, Ismael Ivo comentou, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em 1997:

“Quando comecei a trabalhar com dança no Brasil, tive a sorte de conviver com pessoas que me ensinaram muito, como Juliana Carneiro da Cunha, Sônia Mota, Marilene Silva e Marilena Ansaldi. Takao Kusuno também foi fundamental, assim como Felícia Ogawa e Renée Gumiel. Depois, veio o auge com Klauss Vianna, que abraçou ambiente preparado por mestras como Ruth Rachou. Às experiências com essas pessoas eu misturei a vivência com Alvin Ailey nos Estados Unidos, e depois minha carreira solo na Europa e Japão. O produto de tudo é uma linguagem teatral coreográfica, afinada com a exploração de simbologias”.

Em uma declaração para a Universidade Livre de Berlim, ele ressaltou:

“Ao longo de minha carreira tenho sido estimulado por outras culturas, conceitos artísticos e personalidades radicais… O corpo é um passaporte de nosso tempo, um espelho de nossa existência. Absorvendo influências tão heterogêneas, como o teatro europeu, os conceitos de Antonin Artaud e Jerzy Grotowski, o diálogo com o butô e o teatro Noh do Japão, a arte dramática de Heiner Müller, a fotografia de Robert Mapplethorpe, a experiência limite das pinturas de Francis Bacon, os temas clássicos europeus de Tristão e Isolda ou Otelo – eu não encontro contradições. É o conceito de canibalismo cultural, como era desenvolvido no Manifesto Antropofágico de 1928, o mito fundador do Modernismo Brasileiro. Este conceito se opõe ao modelo clássico europeu da identidade cultural como distinção. O estranho, o outro, não está à margem; está em meu próprio corpo, absorvido, digerido, transformado”.

Márcia Haydée, Alvin Ailey, Pina Bausch, William Forsythe, Yoshi Oida, Johann Kresnik, George Tabori, Heiner Müller, Ushiu Amagatsu, Kazuo Ono, Marina Abramović, foram os artistas citados por Ismael como parceiros referenciais.

Volta ao Brasil

Em janeiro de 2017, três décadas depois da saída do Brasil, Ismael Ivo voltou à cidade natal para assumir a direção artística do Balé da Cidade de São Paulo (leia mais em https://conectedance.com.br/reportagem/ismael-ivo-novo-diretor-artistico-do-bale-da-cidade-de-sao-paulo-revela-seus-planos/).

À frente da companhia onde já havia dançado como bailarino no início da década de 1980, preparou um programa de estreia intitulado Corpo Cidade, que reuniu duas obras: Risco, uma nova criação, com direção cênica de Sérgio Ferrara, e Adastra, do catalão Cayetano Soto, que já estava no repertório do grupo.

Paralelamente, exerceu sua eterna vocação de solista em um trabalho independente com o pianista e compositor Fabio Caramuru, que com ele gravou um videoclipe nas Cataratas do Iguaçu, em 2018, intitulado EcoMúsica Harpia, com direção de Otavio Dias (https://bit.ly/3t9UxZH).

Em fevereiro de 2020, pouco antes da eliminação dos espetáculos ao vivo dos palcos do mundo pela pandemia do novo coronavírus, Ismael Ivo estreou sua última criação para o Balé da Cidade: A Biblioteca de Babel, inspirado no conto homônimo do escritor argentino Jorge Luis Borges.

2020 foi um ano particularmente atribulado para Ismael. Em junho, sofreu dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs), dos quais se recuperou. Em agosto, vazaram informações sobre denúncias de assédio moral que vinham sendo feitas contra ele e a revista Veja publicou matéria a respeito. Tal situação provocou, em novembro, sua demissão do cargo de diretor do Balé da Cidade.

No entanto, continuou a ocupar a vice-presidência do Conselho Estadual de Cultura do Governo de São Paulo, instituída em 2019. No final de 2020, tornou-se Conselheiro da Fundação Padre Anchieta e passou a integrar a equipe criativa da TV Cultura, como assessor artístico. Neste período, junto à emissora, coordenou a realização de um Auto de Páscoa Negro, inspirado nas composições de João Bosco e Aldir Blanc, com participação do Balé de Paraisópolis e da Brasil Jazz Sinfônica, que seria exibido na Semana Santa mas, por causa da pandemia, teve de ser interrompido.

Em 8 de abril de 2021, aos 66 anos, Ismael Ivo faleceu por complicações da covid-19. Um dia após sua morte, veio finalmente a público a informação de que ele havia sido inocentado no processo movido contra ele, baseado inclusive em testemunhos que negaram qualquer conduta inadequada.

Ismael Ivo saiu de cena subitamente, entristecendo e chocando legiões de admiradores, no Brasil e no mundo. Seu nome, sua história e seu vigoroso trabalho artístico, já estavam, contudo, cravados na história da dança.