Espaço cultural Centro da Terra inaugura programação de dança com curadoria de Diogo Granato

Em 2020 a dança ganha destaque efetivo na programação do Centro da Terra, espaço cultural independente de São Paulo.

Com curadoria do bailarino e coreógrafo Diogo Granato, as apresentações de dança serão contínuas, com programas novos a cada mês. A partir de 2020, Granato compõe o grupo de curadores do Centro da Terra, que também terá programação de música e cinema.

A programação de dança começa em fevereiro, com Performances-Observatório, de Beth Bastos e Núcleo Pausa, e Gume, trabalho de performance integrada, realizado pela Spio Orquestra e a Antônima Cia. de Dança como convidada, junto com a poeta Beth Brait Alvim.

Em março, estão programadas apresentações de À Mesa, de Henrique Lima, e A Cabra, de Marina Abib.

A presença da dança no Centro da Terra em 2020 amplia uma experiência surgida em 2019, quando foi incluída na programação de artes cênicas, sob curadoria do crítico de teatro Ruy Filho. Os bons resultados de público estimularam a direção do espaço a criar um programa específico para a dança.

Foto: Divulgação
Diogo Granato

A dança no Centro da Terra, segundo Diogo Granato:

Conectedance – Explique as propostas de sua curadoria. O que pretende proporcionar com a programação, para artistas e público.

Diogo Granato – Minha proposta é suprir uma necessidade dos artistas da dança de apresentar seus espetáculos já montados e que tiveram poucas apresentações. Então são espetáculos prontos, que já estrearam, mas que o artista sente que ainda precisam de contato com o público. Com isso, trazendo espetáculos já prontos, digamos já firmes, tentaremos consolidar um público interessado em dança, em vez de trazer algo experimental, que talvez sirva mais para um público especializado.

Conectedance – O que os trabalhos já programados significam para você?

Diogo Granato – Os primeiros convidados, Beth Bastos, Antonima, Henrique Lima e Marina Abib, são artistas com os quais tenho muita proximidade. Essa curadoria ainda não estava anunciada, quando começou a ser elaborada. São artistas que admiro muito, que desenvolvem trabalhos que gosto muito, mas teve um pensamento prático, de chamar pessoas próximas e que manteriam, na época da elaboração, a confidencialidade do projeto.

Estes artistas também são meus parceiros, tenho convivência com eles e estavam disponíveis. Tive um mês e meio para organizar a programação e eles já se disponibilizaram, o que nem sempre é tão fácil com pessoas que não são próximas.

Conectedance – Qual a importância de um espaço para a dança em um lugar como o Centro da Terra?

Diogo Granato – A dança costuma ser um pouco menosprezada, pelo menos parece que o espaço dedicado à dança nos teatros não é proporcional ao que é concedido aos espetáculos teatrais, por exemplo. A dança tem uma comunidade grande em São Paulo e eu sinto que às vezes nós temos poucos lugares onde podemos contar com prioridade. Por isso, foi um pensamento – meu e da Keren Ora Karman, que dirige o Centro da Terra com Ricardo Karman – de abrir esse espaço de programação exclusiva para a dança. Antes a curadoria era de artes cênicas em geral, do Ruy Filho, e quando a gente pensou em mudar a própria Keren já tinha este interesse em estabelecer algo só para dança. Achei a ideia ótima, concordei e assim surgiu nossa parceria, com a proposta de dar atenção especial à dança e não às artes cênicas em geral.

Dança em fevereiro no Centro da Terra:

Foto: Sandro Miano
Performances-Observatório, de Beth Bastos e Núcleo Pausa

Performances-Observatório, de Beth Bastos e Núcleo Pausa: 13 e 14 de fevereiro, quinta e sexta-feira, 20h.

As performances-observatório propõem ao público a experiência da composição e do movimento com foco no corpo e no espaço, ativando a percepção dos sentidos e da imaginação. Trabalhar com a desaceleração, com o silêncio, com o uso da pausa, da repetição, do recomeço do reverso (reconstruir a frase de movimento de trás para frente), foram estratégias para criar partituras de movimento inspiradas pelo ambiente e a arquitetura local.

Concepção e direção: Beth Bastos. Dramaturgia: Débora Tabacof. Núcleo Pausa: Isis Marks, Fernanda Windholz, Maíra Mesquita, Emilio Salvetti Cordeiro, Izabel Costa, Maíra Rocha e Daniela Pinheiro.

Duração: 60 minutos. Recomendação etária: 12 anos.

Foto: Divulgação
Gume, de Spio Orquestra e Antônima Cia. de Dança.

Gume, com Spio Orquestra e Antônima Cia. de Dança: 20 e 21 de fevereiro, quinta e sexta-feira, 20h.

Este trabalho de performance integrada, realizada pela Spio Orquestra e convidados, tem abordagem experimental e envolve uma mescla de “métodos de condução expandida”, integrando diversas modalidades artísticas. A proposta é desenvolver um trabalho de coesão, que vai além de predeterminações, jogando diretamente com o desconhecido na performance. A peça é composta em tempo real e conta com a Antônima Cia. de Dança e a poeta Beth Brait Alvim.

Duração: 60 minutos. Recomendação etária: 14 anos.

Foto: Luciano Fonseca
À Mesa, de Henrique Lima

Dança em março no Centro da Terra:

À Mesa, de Henrique Lima: 12 e 13, 19 e 20 de março, quinta e sexta-feira, 20h.

Partindo de seu trabalho solo anterior, O Último Dia, o coreógrafo pernambucano radicado em São Paulo, Henrique Lima, construiu esta coreografia. Nela, o atrito se desenvolve no encontro entre os cinco bailarinos que, repetidamente, questionam qual deles é o corpo-referência, enquanto usam a improvisação como ferramenta de diálogo com o elenco e com o público.

Concepção e direção: Henrique Lima. Criação e interpretação: Cristiano Barcelar Gontijo, Daniela Moraes, Henrique Lima, Manuela Aranguibel e Ricardo Januario.

Duração: 50 minutos. Recomendação etária: livre.

A Cabra, de Marina Abib: 26 e 27 de março, quinta e sexta-feira, 20h.

Este solo concebido e interpretado por Marina Abib, com direção de Andre Casaca, se desenvolve em um cenário limpo e árido. A busca principal – a desconstrução da dança – despertou no corpo da dançarina uma condição de constante risco.

Duração: 50 minutos. Recomendação etária: 12 anos.

Todas as apresentações no Centro da Terra contam com ingresso consciente, uma parceria entre os espectadores e os artistas para viabilizar as atrações, sem abrir mão da democratização da cultura. A proposta é que o público, consciente do trabalho envolvido para a realização do espetáculo e do valor que ele dá para vivenciar esta experiência, escolha quanto acha adequado pagar pelo seu ingresso, de acordo com sua condição financeira.

Foto: Divulgação
Marina Abib em A Cabra

Sobre Diogo Granato:

Criador e interprete de solos de dança-teatro como Aretha, que lhe rendeu o prêmio de melhor intérprete de 2006, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), e Seis Sentidos?, que encerrou o Intransit Festival em Berlim, além de duetos com importantes figuras da música como Natalia Mallo (Brasil/Argentina) e Mathias Landaeus (Suécia),  Diogo Granato é, também, intérprete-criador da premiada Cia Nova Dança 4 há 15 anos e diretor do Silenciosas e do GT’Aime, ambos grupos de dança-teatro de São Paulo. Estudou com muitos dos melhores professores e diretores de dança, teatro e circo do Brasil e alguns de fora do país. É membro do Le Parkour Brasil, grupo pioneiro de Parkour e do Freerunning no país. Diogo começou a estudar dança aos 12 anos em um curso de consciência corporal ministrado por Beth Bastos (técnica Klauss Vianna). A partir dos 18 anos aprendeu contato improvisação com Tica Lemos, dança contemporânea com Lu Favoreto, new dance com Adriana Grechi, improvisação em dança-teatro com Cristiane Paoli Quito e Tica Lemos e clown com Cristiane Paoli Quito no Estúdio Nova Dança. Atualmente dirige sua escola de dança, improvisação e astanga yoga – a Espaço – no bairro paulistano de Pinheiros.

Foto: Divulgação
Teatro do Centro da Terra

Sobre o Centro da Terra:

Em 2017 o Centro da Terra, espaço cultural independente sem fins lucrativos, mantido por Keren Ora Karman e Ricardo Karman, abriu seu teatro subterrâneo, instalado no bairro paulistano de Perdizes, para dezenas de artistas, por meio de uma programação realizada por uma equipe de curadores que, a partir de suas pesquisas autorais, trazem trabalhos experimentais de artistas emergentes e/ou consagrados, lançamentos, remontagens, temporadas pós-estreia e projetos especiais.

Em 2020, além da continuidade dos shows musicais às segundas e terças-feiras, com assinatura do curador Alexandre Matias, o Centro da Terra apresenta uma programação de cinema às quartas-feiras (curadoria de Ananda Guimarães) e dança às quintas e sextas-feiras (curadoria de Diogo Granato).

Segundo a diretora do Centro da Terra,  Keren Ora Karman, o espaço cultural abre as portas para receber apresentações nas diversas linguagens artísticas, que tenham sinergia com a pesquisa da Kompanhia do Centro da Terra, dirigida por Ricardo Karman e que completou 30 anos de atividade em 2019. “As experimentações e a pesquisa sempre pautaram o trabalho da Kompanhia, e a programação do Centro da Terra reflete este pensamento artístico”, ela explica.

O Teatro do Centro da Terra foi inaugurado em 2001 e compõe a trajetória artística de Ricardo Karman, diretor teatral, autor e arquiteto que marcou os anos 1990 com dois espetáculos teatrais insólitos: Viagem ao Centro da Terra (ou Expedição Experimental Multimídia), em que o público era tratado como expedicionário de uma jornada por cenários e paisagens desconhecidas e inesperadas. Realizado em 1992 no grande fosso aberto pela obra estagnada do túnel Jânio Quadros, no Ibirapuera, o espetáculo multimídia mesclava ação verbal e não verbal em dramatizações, instalações sensoriais, experiências reais e caminhadas no escuro. Uma nova realização nos mesmos moldes, mas ainda mais ampla e radical, ocorreu em 1996 com A Grande Viagem de Merlim (ou II Expedição Experimental Multimídia). O roteiro, baseado na lenda do mago Merlim, tratava, sobretudo, da relação entre masculino e feminino implícita ao mito. Uma instalação sobre rodas, denominada carreta-multimídia, conduzia o público a um aterro sanitário, às ruínas do Teatro Polytheama, em Jundiaí, encerrando seu percurso junto à lagoa da Cerâmica Nivolini, junto à Serra do Japi.

Centro da Terra: rua Piracuama, 19, Perdizes, São Paulo (SP), tel. (11) 3675-1595. Capacidade: 100 lugares. centrodaterra.org.br.

Café do Centro da Terra: funcionamento de segunda a sexta-feira das 12h às 21h. Almoço até 15h.