Edson Claro, artista que tornou-se referência na dança brasileira, morre em Natal, aos 63 anos

“Dançar, estudar, dançar”, é a frase que Edson Claro escreveu para definí-lo em sua página no Facebook. A expressão singela o identifica bem: além de praticar a dança, Edson foi um estudioso incansável. O importante legado de informações que deixou, refletem inclusive o percurso histórico da dança brasileira, a partir da década de 1970, quando ele começou a atuar em São Paulo. Até pouco antes de sua morte, ocorrida quarta-feira, 30 de outubro, em Natal (RN), manteve-se como um incentivador de artistas e da arte da dança.

Edson estava às vésperas de completar 64 anos (nasceu em 15 de novembro de 1949, na capital paulista). Fazia dez anos que sofria de Mal de Parkinson. A doença, no entanto, não o afastou da dança. Continuou concebendo espetáculos para grupos do Rio Grande do Norte, dava aulas e fazia da própria doença um meio de descobrir novas maneiras de lidar com o próprio corpo. Há cerca de três anos começou a escrever o livro Dançando com Parkinson, que provavelmente ainda será lançado.

Em entrevista concedida ao repórter Yuno Silva, publicada em junho de 2011, no jornal Tribuna do Norte, Edson comentou: “Mesmo em momentos de crise, o corpo reage de forma surpreendente quando começo a dançar. As pessoas ficam assustadas quando percebem a minimização dos sintomas”. Sobre o livro, afirmou: “Será muito interessante para médicos, pacientes e suas famílias, neurologistas, terapeutas e bailarinos. Sempre procuro trabalhar com essa mescla de conhecimentos”.

Em 1988, Edson já havia lançado um livro pioneiro, Método Dança Educação Física – Uma reflexão sobre consciência corporal e profissional (editora CETEC). Neste volume, ele procurou condensar o conhecimento resultante de suas pesquisas sobre dança, a partir da educação física, na qual se formou na Universidade de São Paulo (USP), em 1973. Um curso de especialização em tal método foi depois implantado por ele na Faculdade Integrada de Guarulhos (SP). No meio acadêmico, onde sempre esteve presente, Edson introduziu e desenvolveu a dança em várias instituições. Entre outras, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde fundou e coordenou, a partir de 1995, a Pós-Graduação Lato Sensu Dança e Consciência Corporal e o Curso de Licenciatura em Dança.

Artista precursor e impulsionador

Na década de 1970, Edson conviveu e colaborou intensamente com grupos de São Paulo. Era uma época efervescente, com muitas novidades florescendo nos meios da dança. Entre outras companhias, ele colaborou com o Ballet Stagium, recém-fundado e já um foco de atenções, e também com o Grupo Cisne Negro, formado e dirigido por Hulda Bittencourt. Para suprir a falta de bailarinos homens no elenco, Hulda foi buscar no curso de educação física da USP os rapazes que, devidamente treinados, revelaram-se ótimos bailarinos – entre outros Armando Duarte, hoje professor, coreógrafo e pesquisador na Universidade de Iowa (EUA) e Marcos Verzani, que radicou-se na França, onde atualmente leciona dança na Academie de Danse Montparnasse.

“Os bailarinos que eu trouxe da USP eram da turma do Edson, que criou uma conexão muito forte entre o esporte e a dança e colocou todo mundo para dançar”, diz Hulda Bittencourt hoje. “Ele vai deixar muitas saudades, foi um artista muito querido, de grande profissionalismo, que contribuiu muito para a formação e profissionalização de jovens dispostos a fazer dança”.

O bailarino e coreógrafo Luis Arrieta, que também conviveu e trabalhou com Edson Claro, observa que Hulda Bittencourt foi a primeira a ter a percepção de que o trabalho dele com a educação física renderia bons frutos na dança. “Ele formou muita gente”, diz Arrieta, citando bailarinos como Claudia Palma e Paulo Goulart Filho entre os que se iniciaram com Edson. “Foi um artista iluminado, que inclusive contribuiu para eliminar um pouco o preconceito com relação aos homens que faziam dança. Sua morte nos traz um sentimento de perda muito grande”.

Espetáculos inéditos vão estrear em abril de 2014

Formar grupos de dança também foi uma iniciativa constante na carreira de Edson. Em 1979, em São Paulo, ele dava aulas na escola de sua mestra Ruth Rachou, que expandiu seu entendimento do corpo, quando decidiu fundar o Grupo Casa Forte, cujo elenco era formado por ex-alunos do curso que havia implantado na Faculdade Integrada de Guarulhos.

Depois, quando chegou em Natal em 1985, Edson fundou, junto com a professora Carmem Borges, a Escola de Danças Integradas do Teatro Alberto Maranhão, que deu origem à Companhia de Dança do Teatro Alberto Maranhão, hoje uma das principais do Estado. Wanie Rose Medeiros, atual diretora artística do grupo, conta que Edson, pouco antes de morrer,  criou duas coreografias para o elenco, que deverão estrear em abril de 2014, na semana do Dia Internacional da Dança. “Ele adorava este período”.

“Aqui em Natal, além de criar vários grupos de dança, o professor Edson Claro nos trouxe conhecimento, informações”, afirma Wanie. “Por intermédio dele, muitos coreógrafos importantes foram convidados para trabalhar com as companhias que fundou, entre outros Luis Arrieta, Ivonice Satie, Ana Mondini, Mário Nascimento, Tíndaro Silvano, Henrique Rodovalho, Armando Duarte. Ele foi um grande estudioso e pesquisador. Participava ativamente das atividades acadêmicas. Tive o grande privilégio de ser sua bolsista no curso de artes cênicas da UFRN, onde ele investigava a expressividade humana”.

Na Companhia de Dança do Teatro Alberto Maranhão, segundo Wanie, uma novíssima geração de bailarinos teve a oportunidade de aprender com o mestre recentemente, durante o processo de criação dos espetáculos que ele concebeu. “Enquanto criava, se sentia pleno, realizado. Ao fazer os movimentos de dança, seus tremores sumiam. Foi muito importante colocar esses jovens em contato com ele”.

No Rio Grande do Norte, a partir de 1988, Edson Claro fundou a Acauã Cia. de Dança, o Grupo de Dança da UFRN, que depois passou a chamar-se Gaia Cia. de Dança e, junto com Henrique Amoedo, o Roda Viva, que abriu espaço, no Brasil, para os bailarinos com deficiência física. A Cia. de Dança dos Meninos foi o último elenco formado por ele, em 2000.

Para muitos artistas da dança, Edson Claro foi um incentivador fundamental. Um deles é a coreógrafa Vanessa Macedo, nascida em Natal e hoje uma das criadoras mais expressivas da dança contemporânea de São Paulo, onde dirige a Fragmento Cia. de Dança. “Conheci o Edson em 1994, quando entrei na UFRN para estudar direito. Ele dirigia o grupo de dança da universidade, que depois passou a se chamar Gaia. Eu era atleta de ginástica rítmica e fiquei quatro anos e meio trabalhando com ele, o período integral da graduação”, lembra Vanessa.

Segundo Vanessa, Edson tinha uma habilidade especial para trabalhar com pessoas que estavam se iniciando na dança e explorar seus talentos. “Aplicava fundamentos do esporte nas práticas corporais com bailarinos, sempre amparado na consciência corporal. Ele gostava da potência que o esporte trazia às aulas de dança. Trabalhou com muitos ex-atletas como eu. Muitas gerações de ginastas entraram no grupo, depois de mim. Era ligado ao esporte, mas com toda a sensibilidade de um artista”.

Assim como Wanie, Vanessa também se refere à iniciativa de Edson de promover intercâmbios, ao convidar diferentes coreógrafos para trabalhar em Natal. “Além de dar aulas no grupo, ele levou muitas pessoas para coreografar lá. Estávamos começando, mas graças a ele, trabalhamos com artistas importantes, como Luis Arrieta e Ivonice Satie”.

Assim que decidiu não seguir a área jurídica (contrariando um desejo dos pais), Vanessa veio para São Paulo. Ela diz que, mais uma vez, Edson lhe abriu portas. “Ingressei no Grupo Cisne Negro como estagiária e depois na Companhia de Danças de Diadema. Ele foi fundamental para meu início de carreira na cidade. Na verdade, teve um papel fundamental na minha vida, como teve na de tantos outros artistas. Para mim, mais do que um professor, foi um encorajador. Quando todos diziam, ‘tem certeza?’, ‘cuidado’, ou coisas assim, ele dizia ‘vai!’”.

Vanessa ressalta que Edson sempre fez tudo com muita paixão. “Sempre acreditou que isto deveria nos mover. A última vez que nos vimos foi em janeiro deste ano. Na ocasião, ele me disse mais uma vez o que eu já sabia: o que alimentava a arte em sua vida, o lugar em que ela pulsava, era o das emoções… Ele era assim – passional e intenso.”