Edições Sesc São Paulo lança livro de Emidio Luisi sobre Kazuo e Yoshito Ohno

Foto: Emidio Luisi
Kazuo Ohno

 Faz 30 anos que o fotógrafo Emidio Luisi começou a registrar as apresentações de Kazuo Ohno e seu filho, Yoshito, em São Paulo. O rico acervo de imagens reunido por Emidio até 2016 agora está disponível no livro Kazuo e Yoshito Ohno, publicado pelas Edições Sesc São Paulo. O lançamento do livro está marcado para dia 23 de março, às 20h, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação.

Com introdução e ensaio da professora e pesquisadora Christine Greiner, a publicação traz imagens de todas as apresentações realizadas em São Paulo por Kazuo Ohno e seu filho Yoshito, principais difusores e artistas da dança butô.

As imagens estão dispostas em quatro núcleos, que compõem uma cronologia dos espetáculos realizados pelos atores-dançarinos em 1986, 1997, 2008, 2013 e 2015. Os três últimos espetáculos contaram somente com Yoshito. Kazuo faleceu em 2010 e em 2008 ele já estava adoentado.

Emidio Luisi é um dos mais importantes fotógrafos das artes cênicas do Brasil. Pelas Edições Sesc São Paulo ele já lançou em 2012 o livro Antunes Filho: poeta da cena, quando foi realizada a exposição de mesmo nome no Sesc Consolação. Nascido na Itália, Emidio veio para o Brasil ainda jovem. Ele começou sua carreira na década de 1970, trabalhando como fotojornalista para a revista Veja São Paulo e para o Diário do Grande ABC. Sempre se interessou por espetáculos de teatro, dança, etnofotografia, além de ensaios pessoais. Coordenou oficinas de fotografia em diversas cidades brasileiras e foi professor convidado do Curso de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Londrina. Realizou várias exposições no Brasil e no exterior. Em 2012, integrou a exposição Ocupação Ballet Stagium, no Instituto Itaú Cultural. No Sesc Pinheiros, realizou a exposição Paesani. Atualmente fotografa, coordena projetos na área de fotografia e dirige a Fotograma Imagens.

A seguir, texto de Ana Francisca Ponzio*, incluído no livro.

Quando Kazuo Ohno se apresentou no Brasil pela primeira vez – em abril de 1986, em uma temporada promovida pelo Sesc São Paulo – um misto de estranhamento e fascínio tomou conta de quem teve o privilégio de conhecer este artista que, na época, aos 80 anos, estava no auge de sua carreira e trazia para o público algo absolutamente novo e perturbador.

“Butô é como um peixe em água turva. Para enxergá-lo é preciso muito esforço”, disse Kazuo naquela temporada de estreia, em um encontro com a classe artística, realizado no Teatro Anchieta. Junto dele permanecia o seu filho, Yoshito Ohno, uma presença constante e discreta até então.

Desencorajando quem pretendia captar ou entender o butô pelas vias imediatistas e convencionais, Kazuo convidou o público a enxergar sua arte com desprendimento e sem ideias preconcebidas. Como uma experiência de vida, sem tempo fixo para se esgotar. Com singeleza, transmitiu a síntese de vida e morte, masculino e feminino contida no butô e que, em cena, ele conseguia elevar a uma dimensão sublime e universal.

Naquele ano, Kazuo criou um vínculo com a plateia brasileira, tornando-se referência e inspiração para artistas, intelectuais, espectadores.

Emidio Luisi, que já fotografava dança e teatro desde os anos 1970, não deixou escapar aquele momento. Percebendo a grandeza de Kazuo e a importância daquele primeiro contato do artista japonês com o público brasileiro, Emidio deu início a mais uma coleção de imagens históricas de seu acervo, que prosseguiu nas temporadas seguintes de Kazuo e Yoshito Ohno em São Paulo.

Kazuo teve em Emidio um observador em sintonia com sua arte e seu jeito de ser. Conduzindo sua abordagem com singeleza, desprendimento e despretensão – como lhe é de costume – Emidio alcançou a essência artística e humana de Kazuo Ohno, em imagens que transcendem o registro formal.

Diante do espetáculo ou nos bastidores, Emidio parece se posicionar como se fizesse parte da natureza do ambiente. Movido por intuição e paixão, chega ao âmago que conjuga arte e humanismo, em imagens que compõem novas histórias e significados. O rosto de Kazuo retratado por Emidio é plena expressão da condição humana. Transmite uma trajetória de vida pessoal como também espelha um microcosmo comum a todos nós.

Neste livro agora lançado pelas Edições Sesc, Emidio acrescenta, com parcimônia, seus comentários sobre as circunstâncias que cercaram as fotos realizadas. São reminiscências pessoais, em que a apreensão subjetiva cria uma poética complementar à das imagens.

A singularidade deste livro também se dá por Emidio estar reconhecendo a real dimensão artística de Yoshito Ohno que, nos últimos anos, expõe cada vez mais a sua própria identidade, independente do papel que acabava assumindo junto ao pai.

Em 2013, em sua primeira apresentação em São Paulo após a morte de Kazuo, também no Sesc Consolação, Yoshito mostrou um trabalho tão intenso e instigante quanto o do próprio pai. Porém, com uma personalidade que denota o que ele também apreendeu de Tatsumi Hijikata, precursor do butô, como Kazuo. Em 1959, a performance que inaugurou o butô foi protagonizada por Hijikata e Yoshito Ohno.

Atualmente, as apresentações de Yoshito são aguardadas com expectativa e este novo e importante momento do artista já foi devidamente percebido por Emidio Luisi.

Kazuo e Yoshito Ohno são tão importantes no trabalho de Emidio quanto o Ballet Stagium, que ele também fotografou intensamente, desde que esta companhia de dança surgiu na cena paulistana, em 1971.

Embora sob a opressão da ditadura militar, o Ballet Stagium rompeu barreiras e lançou novos parâmetros ao levar para o palco uma linguagem contundente, sintonizada com as questões políticas, sociais e culturais do Brasil. Fazendo da dança uma expressão acessível a todas as plateias, o elenco dirigido por Márika Gidali e Décio Otero percorreu o país para dançar tanto em teatros quanto em aldeias indígenas e praças públicas.

Ao fotografar o Stagium sem se limitar à plasticidade do corpo em movimento  – uma característica que poucos fotógrafos conseguem extrapolar, Emidio revelou sua sensibilidade pelas artes cênicas, particularmente a dança. Sob o olhar de Emidio, a dança não é mero registro estático, mas expressão viva e em transformação.

O livro sobre Kazuo e Yoshito Ohno conta ainda com textos de Christine Greiner que, pode-se afirmar, é hoje a maior teórica sobre butô no Brasil. Também estudiosa da cultura japonesa, ela proporciona ao leitor um amplo painel sobre a evolução da fotografia no Japão.

Além do valor documental, artístico e poético, trata-se de um livro que vale como experiência de vida – como bem absorveu Emidio Luisi junto de Kazuo Ohno.

 

*Ana Francisca Ponzio, editora do Conectedance, é jornalista cultural, crítica e curadora na área de dança. Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.

 

FICHA TÉCNICA

Kazuo e Yoshito Ohno

Autor: Emidio Luisi

Formato: 23 x 23 cm

Português/Inglês

Preço: R$ 110,00

As publicações das Edições Sesc São Paulo podem ser adquiridas em todas as unidades Sesc SP (capital e interior), nas principais livrarias e também pelo portal www.sescsp.org.br/livraria

Lançamento do livro Kazuo e Yoshito Ohno e encontro com Emidio Luisi: em 23 de março/2016, 20h, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo (SP). Haverá projeção de imagens do livro, comentadas pelo auto

Foto: Emidio Luisi
Yoshito Ohno