Daniel Kairoz, novo representante da dança no Conselho da Cidade de São Paulo, fala sobre sua escolha para a função, suas expectativas e ideias

Daniel Kairoz, 29 anos, paulistano. Define-se como coreógrafo, cineasta e filósofo. Mesmo no meio da dança, não é conhecido por todos. Por isso, causou surpresa quando foi eleito para representar a dança de São Paulo no Conselho da Cidade.

A eleição, convocada pela Cooperativa Paulista de Dança e os movimentos A Dança se Move e Mobilização Dança, ocorreu no último dia 12 de agosto, às 17h, no saguão da Galeria Olido. No total, 146 participantes votaram. Daniel recebeu 56 votos.

Sandro Borelli, presidente da Cooperativa Paulista de Dança, teve 44 votos e Sofia Cavalcante, do Mobilização Dança, foi votada por 46 pessoas. Os dois, junto com Daniel, compunham uma representação formada poucos dias antes, quando a classe se reuniu para discutir, entre outros assuntos, a escolha da coreógrafa Deborah Colker, do Rio de Janeiro, como única representante da dança no Conselho da Cidade.

A ausência de um representante de São Paulo no Conselho, o que evidenciou que foi formado sem uma interlocução com a classe de dança da cidade, provocou protestos entre os profissionais da área, logo que esta notícia começou a circular, nos últimos dias de julho. Na verdade, o Conselho da Cidade foi formado em março deste ano pelo prefeito Fernando Haddad, que tomou posse em janeiro. Segundo informações do portal da Prefeitura, o Conselho, que foi pouco divulgado, reúne 136 representantes de movimentos sociais, entidades de classe, empresários, cientistas, pesquisadores, artistas e lideranças religiosas. É apresentado como um “novo canal de diálogo entre a administração municipal e a sociedade”.

A repercussão da insatisfação dos profissionais da dança de São Paulo, na imprensa e nas redes sociais, chegou até a Prefeitura, que logo divulgou (não oficialmente), que estava aberta uma vaga para um representante paulistano. Para escolhê-lo, a classe se reuniu e os nomes de Sandro Borelli, Sofia Cavalcante e Daniel Kairoz surgiram como uma composição. Mas, como o Conselho aceitaria somente um nome, decidiu-se pela votação.

Mais jovem dos três, presença recente inclusive nas reuniões da classe (representadas atualmente pela Cooperativa Paulista de Dança e os movimentos A Dança se Move e Mobilização Dança), Daniel acabou ganhando visibilidade e novas responsabilidades.

Em entrevista ao Conectedance, ele fala sobre sua escolha para o Conselho da Cidade, sobre suas ideias e seu trabalho como artista da dança.

Conectedance – A sua escolha para representar a dança de São Paulo no Conselho da Cidade surpreendeu muita gente. V. se surpreendeu? Sente-se preparado para esta representação?

Daniel Kairoz – Me surpreendi sim. Estava com uma sensação paradoxal. Achava que não seria o mais votado e ao mesmo tempo, sentia que seria o mais votado. Era uma sensação bastante conflituosa.

Havia o Sandro Borelli, a Sofia Cavalcante, pessoas muito mais experientes do que eu, que estão na linha de frente da luta dos artistas da dança por um reposicionamento político da dança, não só na cidade de São Paulo, mas também no Estado e no país.

Talvez esta minha sensação de que seria o mais votado, esteja atrelada ao momento político que estamos vivendo, vi que muitas pessoas ali presentes estavam felizes com a indicação do meu nome para o Conselho, houve pessoas que foram lá votar porque viram na minha figura a abertura de uma perspectiva diferente no fazer político em meio aos artistas da dança, em consonância com as agitações políticas que estamos vivendo.

Conectedance – Sente-se preparado para esta representação?

Kairoz – Não sei se podemos falar em representação, acho muito questionável esta democracia pautada na ideia de representação. Posso representar muitas coisas através da minha figura, do meu modo de ser, do meu modo de me colocar no mundo, mas não posso representar uma classe de artistas, o que posso é ser um porta-voz, uma porta de entrada para todas estas vozes, para uma multidão de dançarinos.

Mas não acho que eu possa falar em nome de todos, isso é muito perigoso. Por isso vou propor um canal direto de comunicação entre mim e os artistas da dança, para efetivar este meu posicionamento como porta-voz e não como representante. Porém, ali dentro do conselho sei que serei visto como representante, mas isso não será um problema se o canal de comunicação com os artistas da dança estiver afinado.

Conectedance – O que moveu você a participar da mobilização que exigia da Prefeitura um representante de São Paulo para o Conselho da Cidade? E o que o motivou a se incluir entre os que poderiam representar São Paulo no Conselho?

Kairoz – Venho  acompanhando há um certo tempo as lutas dos artistas da dança, acho que desde 2004 mais ou menos, e sei que esta luta é mais antiga ainda, sou bastante próximo de diferentes artistas da dança de São Paulo, de diferentes gerações.

Venho também participando de outras ações políticas que não estão diretamente relacionadas com as reivindicações da dança. Inclusive participando e convocando as pessoas da dança a participar das manifestações deste ano organizadas pelo MPL (Movimento Passe Livre), contra o aumento da tarifa dos ônibus, que desembocaram numa grande onda de outras manifestações e trouxeram à tona toda uma situação que já vinha se desenhando há um certo tempo, mas que agora se explicitou e que, acredito, se prolongará por mais um bom tempo.

Em meio a todos estes acontecimentos, me pareceu importante voltar a participar das reuniões do A Dança se Move, e isso coincidiu com a reunião em que uma das pautas era o Conselho da Cidade. Coloquei nesta reunião que achava importante que esta pessoa que fosse para o Conselho, fosse alguém que estivesse articulado com diferentes instâncias da vida política da cidade, não só da dança. Que pudesse se posicionar com relação ao Plano Diretor, ao Arco do Tietê, que são duas pautas colocadas no site da prefeitura para serem discutidas pelo Conselho, às manifestações de rua e a outros assuntos que dizem respeito à cidade, e naquele momento em que eu falava, as próprias pessoas que estavam na reunião, falaram, “então porque você não vai?”, “porque não se indica? “, e eu aceitei, topei entrar como um terceiro nome a ser indicado para o Conselho da Cidade.

Conectedance – Na verdade, as pessoas indicaram uma composição entre Sandro Borelli, Sofia Cavalcante e você, um trio capaz de se complementar, de representar uma voz única e trabalhar em conjunto, não foi assim?

Kairoz – Exato, e assim acreditei que fosse acontecer. Decidimos isso naquela reunião, que não lutaríamos por apenas uma cadeira, mas por três. Creio que apenas esta composição poderia representar a dança de alguma forma. Repare, falo que a composição iria representar e não que cada um de nós três representaria uma subcategoria dentro da categoria maior “dança”. Não podemos falar em uma voz única, mas numa composição de vozes, numa polifonia. Temos de começar a pensar nisso, uma política polifônica, sem redução das diferenças em denominadores comuns, isso é matar as diferenças e é o que mais vejo nos lugares onde se propagam a afirmação da diferença.

 Conectedance – Houve suposição de que você teria organizado um grupo de amigos, colegas ou simpatizantes para somar votos a seu favor no dia da escolha. É verdade?

Kairoz – Acho engraçada e triste essa suposição, pois é como se houvesse uma disputa entre nós da dança. O que aconteceu ali, a meu ver, é que muitas pessoas se motivaram a ir na assembléia votar, justamente porque meu nome estava entre os indicados, mas não porque eu tenha chamado e angariado votos. Fiquei feliz porque depois da votação várias pessoas vieram falar comigo animadas, querendo participar mais das discussões e das reuniões do A Dança se Move.

Temos de tomar cuidado para não reproduzirmos os modos caducos de fazer política que tanto criticamos. Os pequenos poderes não me seduzem – e todo poder é pequeno. E não sei… fiquei pensando muito nisso, que estamos vivendo também um momento de mudança de gerações. Há uma mudança estrutural e paradigmática em curso, e precisamos deixá-la acontecer. Precisamos articular os tempos. Outros modos de fazer e pensar a política estão aflorando, e talvez eu represente isso ali. Acredito que seja urgente aliarmos o nosso fazer poético, enquanto artistas, com nossas posturas e ações políticas, a partir de uma articulação entre as gerações.

Conectedance – O que esta escolha significa para você? Quais perspectivas você vê nesta participação no Conselho?

Kairoz – Vejo nesta escolha um sintoma deste momento histórico que estamos vivendo. Momento de rupturas – e reativamente de forças extremamente reacionárias, somadas a aberturas da temporalidade – e consequentemente de fechamentos. Uma mudança geracional e o surgimento de outros modos de fazer política. Sou artista, e me coloco como tal, e a possibilidade de cruzamento entre o poeta e o político é extremamente saudável para o nosso momento. Não sei se vejo muitas perspectivas no Conselho, tenho a intuição de que terei de criá-las ali, em diálogo com os outros conselheiros e com os artistas da dança. Se falam que existe diálogo em São Paulo, acho que o mínimo que devemos fazer é efetivar esta fala e fazer dela um acontecimento.

Conectedance – Explique-se melhor: você refere-se a mudança de gerações e também fala de forças extremamente reacionárias. A demanda por outros modos de fazer política, em âmbito nacional, não é uma bandeira de uma geração, mas de uma população que parece saturada dos vícios políticos históricos e nefastos do Brasil…

Kairoz – Repare que quando falo em mudança geracional, falo também de uma articulação dos tempos. As forças reacionárias surgem reativamente às mudanças em curso. Há um medo das mudanças, das incertezas. Geração não tem a ver apenas com anos vividos, mas com todo um modo de pensar, olhar, de articular o mundo. E vejo que é esta a mudança que está em curso. Uma mudança estrutural e paradigmática. E cabe a nós deixarmos ela acontecer, ou reacionariamente, criarmos barreiras a estas mudanças. É um momento muito delicado, onde serão desenhados caminhos políticos que irão perdurar por um bom tempo daqui pra frente, por isso é tão importante as vozes múltiplas, as polifonias, a participação de todos. Seria muito estúpido reduzirmos a uma mera questão de idade. O que deve ser descartado são exatamente estes modos viciados e nefastos que até hoje imperam na política e na história do Brasil e o modo de pensamento que sustenta estes vícios, mas não as pessoas.

Conectedance – Como representante da dança no Conselho, como pretende cultivar a ponte, a interação com a classe, com os artistas da dança de São Paulo?

Kairoz – Escrevi uma carta aos artistas da dança de São Paulo, onde me coloco com relação ao Conselho, à ideia de representação e também proponho algumas possibilidades de comunicação entre nós. Através da carta convido o Sandro Borelli e a Sofia Cavalcante a serem meus conselheiros, uma vez que só nos concederam uma cadeira, quando pedíamos três. Proponho também que criemos um cronograma de encontros entre o A Dança se Move, a Cooperativa Paulista de Dança, e todos os artistas interessados, para conseguirmos já nos programar para participar delas, e me comprometo a utilizar este espaço que estamos criando, para compartilhar com todos, as discussões do Conselho.

Conectedance – Quais as principais dificuldades que um artista jovem como você encontra em uma cidade como São Paulo? À parte as dificuldades, o que há de positivo na cidade para quem trabalha com dança?

Kairoz – Não acho que seja uma questão de juventude, mesmo porque, às vezes me sinto um velho de 83 anos. A principal dificuldade que vejo nesta cidade é a ausência de um campo de ressonância, de reverberação dos gestos artísticos. Tem propostas de uma força imensa sendo realizadas em dança por aqui, como por exemplo o LOTE, projeto de residência artística coordenado pelo coreógrafo Cristian Duarte e o COMO Clube, sob coordenação de Thelma Bonavita, em parceria com outros artistas. Para mim, são duas propostas coreográficas que conseguem reunir o fazer político com o gesto poético e são também dois exemplos de campos de ressonâncias que estão sendo construídos, ambos com subvenção do Fomento à Dança de São Paulo.  Porém, no instante seguinte em que vêm ao mundo, são abafadas pela câmera anecóica da mediocridade à qual estamos subjugados. Parece que há uma cartilha a seguir para manter tudo como está, e quem ousa pensar de outro modo, propor outros modos de ação artística, é massacrado pela mediocridade reinante. Somos imensa minoria. Lembro da Hilda Hilst falando que cospem na cara dos que pensam.

Quando falo de campo de ressonância, falo de uma complexa composição das diversas instâncias do campo que chamamos de arte – artistas, obras, críticos, publicações, produtores, instituições públicas e privadas, política pública, teatros, bibliotecas, galerias, curadores, programadores etc. O que sustenta a articulação destas diferentes instâncias, o que as coloca em movimento, são os gestos artísticos. E, infelizmente, a última coisa que importa para a boa parte destas instâncias do campo da arte, são os gestos artísticos.

Com relação aos aspectos positivos… não sei se podemos falar de aspectos positivos. Mas o mínimo é exigirmos e ajudarmos a construir uma politica pública para a dança e também para as artes em geral. É vergonhoso que numa capital como São Paulo não haja política pública para as artes, que não haja interesse na produção artística que está abrindo novos horizontes para a arte. Como falei anteriormente, é necessário um campo de ressonâncias para que os gestos artísticos se façam públicos, reverberem no espaço político.

Conectedance – Você diz que os gestos artísticos aos quais você se refere não estão sendo levados em conta pela maioria, inclusive os artistas da dança, é isto?

Kairoz – Exato, mesmo os artistas. É um ponto muito delicado. Me parece que a maior preocupação em voga entre a grande maioria dos meus contemporâneos é a possibilidade de se sustentar financeiramente pela arte. Não digo que isso seja questionável, como disse é uma discussão muito delicada. Porém, quando isso está à frente, como a maior das preocupações, é claro que o fazer artístico se torna secundário. Primeiro, garanto meu cachê, depois eu crio. Isso faz com que nos submetamos a condições de trabalho ridículas, como as que o Sesc vem oferecendo para os artistas da dança, a Virada Cultural, etc. Os exemplos são muitos. Essa inversão traz sérias consequêcias para o campo da arte e no caso, mais especificamente, para o campo da dança.

Essa questão merecia maior atenção, podemos conversar mais disso numa próxima oportunidade.

Conectedance – Qual sua formação em dança?

Kairoz – Não acho relevante falarmos em formação. Afinal, o que é formação em dança? Há diferença na formação de um dançarino ou de um coreógrafo? É possível falar em formação para artistas? Existe formação para coreógrafos? Coreógrafo é um dançarino aposentado?

Vejo um fantasma de uma certa ideia de formação em dança, pautada no treinamento corporal, vagando por aí. Ninguém se preocupa mais se um artista visual sabe pintar ou não um quadro, mas na dança ainda se preocupam se vc mexe bem seu corpo ou não. Pior, se você corresponde ao que “alguns” acham que é “mexer bem”. É muito perverso. É um atraso para o nosso fazer artístico.

Conectedance – Você fala de nichos específicos de dança na cidade. Porém, no fazer político, não é necessário pensar a dança em toda sua abrangência, considerando inclusive propostas com as quais você não se identifica diretamente? Cite uma proposta com a qual não se identifica? Você a excluiria de seu campo de ação política?

Kairoz – Esta é uma questão bastante complexa, não sei se conseguiremos adentrá-la assim. Não me parece que o que está em jogo seja uma questão de identificação. Falar em identificação me leva a pensar em afinidade, preferência, gosto. E isso tudo pouco importa para a arte e para a política. Político é o que diz respeito a todos, independente das preferências e dos gostos.

Pensar a dança no seu fazer político é olharmos coreograficamente para os modelos que estão sendo reproduzidos nos diversos nichos da dança, olhar se há a emergência de outros modos de produção que até então não existiam. Estarmos atentos para a visão de mundo que está em jogo em cada coreografia, ou modos de organização e produção propostos. E isso independentemente de estarmos falando de uma academia de dança de salão, de uma academia de balé, de jazz, de um grupo de dança contemporânea, de dança de rua. Não é uma questão de gosto, nem de preferência estética, mas de pertinência artística e histórica. Precisamos abandonar o campo estético se quisermos adentrar o campo da arte.

Como falei acima, romper com os modelos coreográficos hegemônicos é um gesto político. E cada nicho tem seus fantasmas específicos, seus modelos a serem rompidos.

Conectedance – O que acha da Lei do Fomento à Dança de São Paulo?

Kairoz – A lei de Fomento à Dança é uma conquista imensa dos artistas da dança de São Paulo, do movimento Mobilização Dança, mas ainda é muito pouco. É inadmissível que uma cidade como São Paulo não tenha políticas públicas para as artes. É preciso pensar uma articulação maior entre as diversas instâncias que compõem os campos artísticos. A Lei de Fomento sozinha não faz isso e não pode fazer. Precisamos ir além.

Conectedance – Quais seus trabalhos mais significativos como artista da dança?

Kairoz – Ultimamente tenho me dedicado a ressoar gestos artísticos de outros artistas, seja através das minhas criações, como o filme Exgotamento, que  produzi sem nenhum tipo de apoio ou patrocínio, onde ressoam gestos do filosonista [filósofo do som] e auricultor [alguém que cultiva a escuta] Felipe Ribeiro, seja por meio da editora independente Phármakon, que me permite editar e publicar textos de artistas que tenham uma produção poética consistente, mas que não possuem apelo comercial, como a artista visual Gisele Nogueira, o poeta Fagus, a arquiteta Maíra Benedetto, o já mencionado Felipe Ribeiro. Também coordeno o fãzine de crítica de dança, publicação impressa independente que está no segundo número. Neste fãzine proponho a crítica como um espaço de ressonância para as obras ou questões que dizem respeito à dança. O primeiro foi em torno do trabalho Big Bang Boom, da coreógrafa de Curitiba Michelle Moura, e o segundo é sobre o Estudos para Claraboia, da Morena Nascimento e da Andréia Yonashiro. O próximo será em torno da ideia de site specific que vem se propagando na dança.

Vejo tudo isso como proposições coreográficas.

Desde o final de 2012 coordeno um grupo de estudos coreográficos, onde procuramos adentrar nas questões que dizem respeito a esta prática.

Este grupo foi um jeito que encontrei de continuar minhas pesquisas, em diálogo com outros artistas da dança e que também me permitisse desdobrar um texto que venho escrevendo desde o ano passado. É uma coleção de fragmentos de pensamentos em torno da prática coreográfica. Chamei provisoriamente de Ficções Filosóficas/Aforismos Coreográficos. Estes fragmentos foram sendo escritos durante minha residência no LOTE#1, coordenado pelo coreógrafo Cristian Duarte.

Aproveito para deixar expresso um convite a todos os artistas, não só da dança, que tiverem interesse em participar deste grupo. Os encontros estão acontecendo na Oficina Cultural Oswald Andrade, segundas e quintas-feiras, das 18h30 às 21h30.

Ano passado, com apoio do Festival Cultura Inglesa, consegui apresentar a coreografia mais ambiciosa que realizei até agora e que chamei de tempestعاصفة. O título é composto pela palavra tempestade em inglês e em árabe . Em árabe pronuncia-se ”arrácifa”. As duas palavras devem ser lidas ao mesmo tempo, pois em inglês a leitura é da esquerda para a direita, porém em árabe é da direita para a esquerda.

Este trabalho é um acidente coreográfico composto por quatro coreografias independentes (luz, som, fumaça, movimentos do dançarino), que possuem um mesmo ponto de partida, o quadro Snowstorm, do pintor inglês W.Turner. Elas foram rigorosamente construídas sem nenhum tipo de contato entre elas, porém acontecem simultaneamente na caixa preta do teatro. Penso aqui num diálogo com as experiências de John Cage e Merce Cunningham, só que levadas a um certo limite.

Ao propor coreografias da luz, do som, do corpo, da fumaça cenográfica, procurei incluir outras matérias no jogo estrutural do inesperado. A fumaça foi um elemento muito importante nesta coreografia porque com ela consegui cancelar o teatro, fazendo com que todo um teatro desaparecesse. Este trabalho me deixou muito feliz e merecia ser visto mais vezes, pois só o apresentei durante o Festival Cultura Inglesa.

Quem quiser conhecer alguns de meus trabalhos pode visitar meu site, http://kairoz.hotglue.me/.