Com “frescor, ousadia, originalidade, corpos livres e afeto”: assim Erika Palomino planeja a retomada da dança no Centro Cultural São Paulo

O Centro Cultural São Paulo (CCSP) sempre foi um espaço referencial para a dança. Palco de programações constantes, que marcaram o calendário cultural da capital paulista, o CCSP foi inaugurado em 1982 com a apresentação de um espetáculo histórico: Bolero, do Balé da Cidade de São Paulo.

Idealizado na gestão de Klauss Vianna como diretor artístico do Balé da Cidade, Bolero foi uma criação de Emilie Chamie, que assinou direção geral e cenografia, com coreografia de Lia Robatto. Embora depois tenha sido apresentado no Theatro Municipal, Bolero foi pensado, originalmente, para os espaços do CCSP, mais especialmente o Foyer e o Teatro de Arena.

Na época, o Balé da Cidade vivia uma fase transformadora, com um elenco que agregava o Grupo Experimental criado por Klauss Vianna, o qual reunia dançarinos-criadores que pesquisavam linguagens diversas e provocavam uma renovação na dança paulistana. E o CCSP surgia como um espaço que se propunha a dialogar com a evolução das artes.

Vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, o CCSP também esteve sujeito, ao longo de sua existência, aos altos e baixos que as políticas públicas impõem ao setor cultural. Nos últimos dois anos, a programação de dança minguou no CCSP. Mas, em 2019, com a nomeação de Alê Youssef para o cargo de Secretário de Cultura, o belo espaço situado nas confluências da Rua Vergueiro e Avenida Vinte e Três de Maio, a poucos quarteirões da Avenida Paulista, promete retomar fôlego.

Para dirigir o CCSP, Youssef convidou a jornalista e consultora de moda Erika Palomino. Disposta a dar destaque à dança, Erika chamou Sônia Sobral, que já foi responsável pelo Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, para a curadoria de dança do CCSP.

Desde fevereiro de 2019, quando assumiu a direção do CCSP, Erika concentra sua atenção nas múltiplas possibilidades de uma programação que deve colocar a dança novamente em destaque, junto de outras expressões artísticas. Nesta semana, quando se comemora o Dia Internacional da Dança (em 29 de abril), Erika inaugura Toda Aquela Dança, primeiro evento sob sua direção e sob a curadoria de Sônia Sobral (veja programação em https://bit.ly/2URcvDl).

Em entrevista ao Conectedance, Erika Palomino fala sobre seus planos para o Centro Cultural São Paulo e a retomada da dança na programação deste espaço icônico na vida cultural paulistana.

 

Após uma bem-sucedida carreira como jornalista cultural e consultora de moda, o que lhe motivou a aceitar a função de diretora do Centro Cultural São Paulo?

Erika Palomino – Tenho uma formação multidisciplinar e há alguns anos venho me dedicando mais ao estudo de outras áreas, como arte, filosofia, me interessando pelo cruzamento delas, atuando também como diretora criativa e curadora em diversos trabalhos. Assim, ainda que inesperado, o convite do Secretário de Cultura Alê Youssef é coerente com minha trajetória. Aceitei motivada pela possibilidade de poder contribuir pela arte e pela cultura, neste momento do país. Também pelo fato de que o secretário pretende, para o equipamento, que ele seja um ambiente de representatividade e diversidade, de manifestações artísticas livres, modernas, ousadas, disruptivas, referência de novas linguagens e experimentações para a população, resgatando também a vocação do CCSP para as vanguardas. Em resumo, um projeto que tem muito a ver com o que venho realizando em 30 anos de atividade na área da cultura.

Quais seus planos para o Centro Cultural São Paulo?

Erika Palomino – O plano motriz é o das curadorias sobrepostas, integradas, trabalhando de forma complementar e colaborativa. A vida não se dá mais em gavetas, e nossos interesses e formas de atuação são também múltiplos. Além da volta da dança, temos as curadorias de teatro, cinema, música, e temos curadorias novas, como a de Moda (com Karlla Girotto) e a de Performance (com Mauricio Ianês). Nosso objetivo é atuar como um coletivo, potencializando forças e provocando a transversalidade, por meio, por exemplo, com Hélio Menezes (na Literatura) e Diane Lima chegando no time de Artes Visuais. Queremos reforçar a importância da arte e da cultura no cotidiano, ser um lugar de acolhimento, proteção, liberdade. O CCSP ocupa um lugar afetivo na cidade, todo mundo tem muito carinho pelo espaço, tem uma história aqui. Queremos fazer com que as pessoas venham com mais frequência, e incentivar o pertencimento, que se dá de maneira orgânica – e histórica. Queremos oferecer uma programação moderna, de qualidade, gratuita sempre que possível, quando não, a preços acessíveis (e a renda dos espetáculos tem sempre reversão de bilheteria para artistas e produtores). Queremos ser o pulso, o coração cultural da cidade.

Você escreveu sobre dança no jornal Folha de S.Paulo. O que esta área representa para você?

Erika Palomino – Fiz dança por 10 anos, tinha uma meta de ser profissional, passava o dia na academia, além de sempre ter estudado muito a literatura de dança e assistido a muitos espetáculos. Não consegui, porque não era tão talentosa nem tinha físico para tanto (rs). Antes da internet, bem jovem, eu ia para Nova York e me enfurnava no Lincoln Center para ver performances e espetáculos do acervo de artes visuais que eles mantêm lá. Na Folha, quando entrei, em 1988, comecei a fazer matérias de dança porque tinha essa base teórica também, e com certa cara de pau aos poucos comecei também a fazer importantes entrevistas e depois também críticas. Era a época do Carlton Dance de La La La Human Steps, Bill T. Jones, Michael Clarke… De companhias brasileiras como o Marzipan e o Grupo Corpo. Foi um período muito rico. Lá por 1992 para 93 eu comecei minha coluna, a Noite Ilustrada, e com dois filhos pequenos, mais o dia a dia do jornal, não conseguia mais ir a todos os espetáculos, então abri mão de cobrir dança, não achava que conseguia mais ter a dedicação que essa responsabilidade pedia. Amo muito dança, teatro, coxias… E ter estudado dança a sério me deu a disciplina que levei para a vida. Até hoje.

Como você vê a dança como expressão contemporânea?

Erika Palomino – O corpo, o movimento, a música. O desafio das linguagens, a expressão do indivíduo, das subjetividades. A relação entre as pessoas na dança… A sublimação que podemos experimentar assistindo à dança. É sem dúvida uma das manifestações mais vivas do contemporâneo, ganhando ainda contornos sociais e políticos, transcendendo mesmo o palco, perfeita para as telas de celulares e do YouTube, aproximando as pessoas. Além disso, agora todo corpo pode dançar, e isso é lindo e libertador.

A dança já foi uma expressão muito presente na programação do CCSP. Você pensa em resgatar a intensidade dos programas de dança no CCSP? Quais seus planos e como a dança deve ocupar o CCSP a partir de agora? 

Erika Palomino – De fato, a dança faz parte do DNA do CCSP. Foi um lugar muito importante para o setor, sem falar que a ocupação que o pessoal da dança (em suas diversas linguagens) faz nos corredores do CCSP talvez hoje seja a principal marca do equipamento. Fiquei muito feliz por ter conseguido trazer de volta a curadoria de dança, depois de um hiato de dois anos, e a escolha de Sônia Sobral foi estratégica, pelo respeito que ela tem junto à categoria, por sua personalidade, sua visão de mundo, sua generosidade e ousadia, sem falar no humor delicioso. A ideia não é resgatar a intensidade, mas abrir espaço mesmo, para projetos, coreógrafas, coreógrafos, linguagens e movimentos que se insiram nesse drive que mencionei antes, não somente de modernidade, mas de refletir de forma contemporânea e livre as questões acerca do corpo, de gênero, as discussões raciais. Também vamos ter residências, oferecer aulas, e também conversar muito, acolher, abraçar.

A programação de dança do CCSP sob sua gestão será inaugurada com o evento Toda aquela Dança, que parece traçar uma reflexão sobre a memória em conexão com o presente e o futuro. Qual o significado deste evento e que perspectiva ele procura apontar?

Erika Palomino – Achamos importante prestar nossa homenagem e mostrar respeito a tudo o que foi feito antes. A perspectiva é quase um clichê: o de que só podemos entender o presente e desenhar o futuro a partir do que já vivemos e fizemos, ainda mais num país de memória fraca feito o nosso (fora o apagamento e a negação em curso por aí). E sobretudo quando se fala de artes cênicas – tão carentes de registro. Por fim, o Arquivo Multimeios, dedicado a este segmento, no CCSP, é o maior do gênero no Brasil, um acervo excepcional que muita gente ainda não sabe que existe e que está disponível para consulta por qualquer pessoa (eu mesma não sabia!). São registros visuais e audiovisuais de 30 anos da cultura brasileira, de dança, teatro, circo, mas também artes plásticas, cinema, música, shows. Queremos divulgar esse acervo e por isso convido todo mundo pra vir conhecer e estudar, é só marcar hora pelo tel. (11) 3397-4039/4040 ou pelo email ammccsp@prefeitura.sp.org.br.

O que podemos esperar na programação de dança deste ano do CCSP?

Erika Palomino – Frescor, ousadia, originalidade, corpos livres, afeto.

Quais as condições financeiras do CCSP hoje? Há um orçamento favorável para que o CCSP recupere vitalidade na vida cultural da cidade? Como pretende contornar possíveis limites financeiros?

Erika Palomino – O CCSP é um colosso com mais de 46 mil metros quadrados, um grande equipamento que tem sim um orçamento possível para sermos referência na vida cultural da cidade (é mais uma questão de missão, de vocação, de direcionamento, do que de budget). Naturalmente queremos mais, fazer mais, e oferecer mais para a população. Por isso, parcerias com a iniciativa privada e outros modelos estão na pauta, sobretudo por meio da Associação dos Amigos do Centro Cultural São Paulo, que deverá ter sua atuação amplificada em nossa passagem por aqui. Criatividade, boa vontade, determinação, resiliência e coragem fazem parte desta receita.