Com estreia de ‘GIL’, Grupo Corpo abre Temporada de Dança de 2019 do Teatro Alfa e inicia turnê brasileira

Como em todas as criações do coreógrafo Rodrigo Pederneiras para o Grupo Corpo, os movimentos do novo balé, GIL, nasceram da música. Mas, a trilha engendrada por Gilberto Gil para o novo espetáculo, a convite do diretor artístico Paulo Pederneiras, chegou trazendo um paradoxal desafio ao coreógrafo: ali estavam, juntos e indissociáveis, o conhecido e amado Gilberto Gil… e um compositor inteiramente novo. “Era um Gil que eu não conhecia e, ao mesmo tempo, o Gil de quem sou tiete desde que ouvi sua música pela primeira vez”, diz Rodrigo. A solução do paradoxo – fenomenal síntese – sobe à cena a partir de 7 de agosto de 2019, estreia nacional do novo espetáculo no Teatro Alfa, em São Paulo, que depois segue em turnê para Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

A fagulha inicial para erguer a coreografia veio, então, de fora da música – um gesto inicial, buscado no candomblé. “Gil é filho de Xangô e usei como ponto de partida o movimento associado à presença do orixá: uma das mãos do bailarino bate no peito e a outra, nas costas”, conta o coreógrafo. “E assim o balé começou a se construir”.

A “riquíssima trilha”, nas palavras de Rodrigo, se traduziu nos duos, trios e conjuntos que se alinham e desarmam, nos uníssonos e contrapontos gestuais, peças sempre renovadas do vocabulário marcante do coreógrafo. Mas GIL não tem o clássico momento do pas-de-deux, “A trilha não traz o tradicional adágio, a parte mais lenta da música, onde frequentemente está o pas-de-deux”. Curiosamente, a única criação de Rodrigo que também não tem o clássico dueto é Sete ou Oito peças para um Ballet, o programa complementar.

As muitas singularidades de GIL, a bem da verdade, já haviam começado na proposta de Paulo Pederneiras ao compositor.  “Gil sempre esteve no nosso radar”, diz o diretor artístico. “Na primeira conversa, já me veio a ideia de sugerir que a coreografia se chamasse GIL. Normalmente o músico tem liberdade total – e agora não foi diferente – mas a sugestão que se debruçasse sobre a própria obra se consolidou naquele momento. E GIL se inscreve, então, entre os compositores que dão nome a coreografias do Grupo Corpo – já tínhamos feito essa homenagem a Bach, Nazareth e Lecuona”.

Foto: José Luiz Pederneiras
Grupo Corpo em GIL

A Música

Foto: Michelle Deslandes
Gilberto Gil

“Recebi o convite do Grupo Corpo com alegria mas também com certa preocupação na medida em que a ideia era a de denominar a peça GIL, concentrar a criação no trabalho, que tem muitas influências baianas, do samba, da música pop em geral” conta o compositor, que enxerga no arco da trilha de 40 minutos quatro temáticas, ou ambientes musicais – a de um choro instrumental; uma abordagem camerística (com inspiração “em Brahms ou Satie”, aponta ele); um terceiro momento de liberdade improvisadora e, finalmente, uma construção abstrata baseada em figuras geométricas. “Círculo, triângulo, retângulo, pentágono, a volta ao círculo e finalmente a dissolução numa linha reta”, explica Gilberto Gil.

Assim, a trilha de GIL também foge do habitual encaminhamento para o fim: “em vez de um ápice, temos quase um fade out, um ralentando”, descreve Rodrigo. O fechamento da trilha traz ainda um poema concreto recitado por Gil, onde as cinco letras de CORPO se desdobram em CRAVO, CEDRO, FLORA, PALCO, PERNA, BRAÇO, PEDRA.

Pontuam os 40 minutos da trilha frases de canções de Gilberto Gil – retrabalhadas, mas perfeitamente reconhecíveis nas suas variações. Ali estão fragmentos de Aquele Abraço, Realce, Tempo Rei, Andar com Fé, Toda Menina Baiana, Sítio do Picapau Amarelo, Raça Humana. Nos arranjos, se alternam os tambores ancestrais e as distorções do aparato eletrônico; o afoxé e o naipe de sopros de pegada jazzística; a modinha e o berimbau. As citações bailam entre si, entrecruzando-se e dialogando enquanto o arco da trilha avança. “Com a divisão em quatro segmentos, atendemos à alternância entre movimentos mais densos, mais rítmicos, e momentos mais suaves, mais baladísticos. Ouvindo o resultado final, percebo que há muitos elementos da minha dimensão rítmica mesmo, elementos da Bahia, da música afro-baiana”, conclui o compositor.

Cenário, luz e figurinos

Foto: José Luiz Pederneiras
Grupo Corpo / GIL

“Gil é uma figura luminosa, plural – e qualquer corte, qualquer tentativa de definição é redutora”, pondera o diretor artístico Paulo Pederneiras, que assina o cenário e divide a concepção da iluminação com Gabriel Pederneiras. “A imagem é a de um tapete – de 20m de altura por 12m de largura – que desce do urdimento até a boca de cena, em fundo infinito; um linóleo de um amarelo aberto, sólido”. Na iluminação, Paulo buscou um novo recurso: “mergulhamos num universo completamente novo usando moving lights, equipamento comumente usado em shows musicais. Haverá também, por assim dizer, contradança de bailarinos e as luzes, sempre brancas”.

Os vinte bailarinos estão vestidos de uma “brasilidade moderna”, na definição de Paulo. Os figurinos criados por Freusa Zechmeister – malhas inteiriças – têm base negra onde estão aplicados recortes multicoloridos extraídos da/inspirados na criação da artista plástica Joana Lira. São flores, listras, triângulos, grafismos – “tudo a ver com o Brasil, com a África. E com a alegria”, conclui o diretor artístico.

(texto: Luciana Medeiros)

Grupo Corpo revive Sete ou Oito Peças para um Ballet em 2019

Como ocorre habitualmente nas temporadas anuais do Corpo, os programas reúnem uma estreia ou a obra mais recente do grupo, e uma criação que compõe o repertório concebido por Rodrigo Pederneiras, coreógrafo residente da companhia, fundada em Belo Horizonte (MG) em 1975.

Em 2019, a obra escolhida para completar o programa que marca a estreia de GIL, é Sete ou Oito Peças para um Ballet, com trilha de Philip Glass e Grupo Uakti, que estreou em 1994.

Foto: José Luiz Pederneiras
Grupo Corpo em Sete ou Oito Peças para um Ballet

A partir de oito temas surgidos da parceria inédita entre o instrumentista e compositor norte-americano Philip Glass e o grupo instrumental mineiro Uakti, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras desvencilha-se, pela primeira vez, do rigor formal que marca suas criações para construir uma obra despojada, onde a partitura de movimentos emerge como uma série de esboços, apontamentos ou estudos para uma coreografia. Inacabados, na aparência. Mas irretocáveis, pela genialidade da forma.

Como em uma pintura contemporânea, onde as correções podem ser incorporadas ao resultado final, os movimentos dos bailarinos do Grupo Corpo se sucedem em variações que vão da estética “suja” própria dos ensaios a um primoroso acabamento formal. Nesse sentido, Sete ou Oito Peças para um Ballet propõe mais do que vaticina. O componente obsessivo, frio e exato dos temas especialmente criados para o balé pelo ícone maior da música minimalista norte-americana leva Pederneiras a orquestrar repetições de movimentos que beiram o automatismo, executados, na maior parte das vezes, em solo, em contraposição a movimentos orgânicos do grupo, carregados da sensual latinidade intrínseca à sonoridade única produzida pelo Uakti.

O cenário de Fernando Velloso e os figurinos de Freusa Zechmeister buscam nos primórdios da corrente minimalista da pintura americana a inspiração para as listras em verde, azul e tons de amarelo que dão identidade visual ao espetáculo, enquanto o branco reina absoluto na iluminação de Paulo Pederneiras.

(Texto: Angela de Almeida)

 

Temporada 2019 do Grupo Corpo

GIL (40 minutos) e Sete ou Oito Peças para um Ballet (40 minutos)

Classificação etária: livre

 

São Paulo (SP) – 7 a 18 de agosto – Quarta a sexta às 20h30, sábado às 20h, domingo às 18h – Teatro Alfa (rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel. 11/5693-4000 e 0300 789-3377). Ingressos: R$ 190 (plateia) e R$ 75 (plateia superior). Venda por telefone, na bilheteria do Teatro Alfa e online www.ingressorapido.com.br.

Belo Horizonte (MG) – 27 de agosto a 1º de setembro – Terça a sábado às 20h30, domingo às 19h – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, tel. 31/3236-7400). Ingressos: R$ 130 (plateias I e II) e R$ 100 (plateia superior). À venda na bilheteria do teatro ou online www.ingressorapido.com.br.

Rio de Janeiro (RJ) – 10 a 15 de setembro – Terça a sábado às 20h, domingo às 17h – Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Praça Floriano, s/nº, Centro, tel. 21/2332-9191). Ingressos: R$ 900 (frisas e camarotes, 6 lugares) a R$ 60. Vendas na bilheteria do teatro ou online www.ingressorapido.com.br.

Porto Alegre (RS) – 2 e 3 de novembro – Sábado e domingo às 21h – Teatro do Sesi (av. Assis Brasil, 8787, Sarandi, tel. 51/3347-8787). Venda de ingressos em breve. Ingressos: R$50,40 à R$145,60 (https://bit.ly/36wo1GC).

 

Temporada de Dança de 2019 do Teatro Alfa prossegue

com Ballet Jazz de Montréal, Quasar, Sankai Juku e Deborah Colker

Foto: Marc Montplaisir
Ballet Jazz de Montréal

Depois do Grupo Corpo, a Temporada de Dança de 2019 do Teatro Alfa apresenta Les Ballets Jazz de Montréal com Dance Me, espetáculo que reúne coreografias de Andonis Foniadakis, Annabelle Lopez Ochoa e Ihsan Rustem. Dance Me inspira-se na obra do poeta e autor-compositor canadense Leonard Cohen e estreou em 2017, quando a companhia celebrou seus 45 anos de existência. Quando: 30 de agosto a 1º de setembro.

Foto: Divulgação
Quasar

A atração seguinte é a Quasar, companhia brasileira de Goiânia (GO), que apresentará O que ainda guardo, coreografia de Henrique Rodovalho inspirada em composições icônicas da bossa nova. Quando: 14 e 15 de setembro.

@Sankai Juku
Sankai Juku

Também em setembro, a consagrada companhia japonesa Sankai Juku apresenta seu novo espetáculo – ARC – Chemin de Jour, do coreógrafo Ushio Amagatsu. Quando: 28 e 29 de setembro.

Foto: Divulgação
Companhia de Dança Deborah Colker

A temporada se completa em outubro, com a Companhia de Dança Deborah Colker, do Rio de Janeiro (RJ), que em comemoração de seus 25 anos de atividades apresentará uma remontagem de Rota, criação de 1977. Quando: 24 e 25 de outubro.

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