Bienal Sesc de Dança realiza 12ª edição com programação on-line

Um dos eventos mais importantes do calendário brasileiro da dança – a Bienal Sesc de Dança – acontece em 2021, de 2 a 10 de outubro, em versão totalmente on-line, refletindo a realidade sob a pandemia do novo coronavírus.

É a 12ª edição do evento, cuja programação, inteiramente gratuita, será transmitida no perfil do Instagram do Sesc Ao Vivo (@SescAoVivo), no canal do YouTube do Sesc São Paulo (Youtube.com/sescsp) e Plataforma Sesc Digital (sesc.digital).

A programação oferece transmissões ao vivo e gravadas de mais de 20 espetáculos, ações cênicas e formativas nas quais público e artistas poderão compartilhar experiências e visões. Participam artistas de diferentes regiões do Brasil e de países como Coreia do Sul, Portugal, França, Estados Unidos e Uruguai.

A programação completa está disponível no site da Bienal: bienaldedanca.sescsp.org.br

Foto: Laurent Philippe
Salia Sanou e Germaine Acogny em "Multiple-s"

Cena 11 e Salia Sanou na abertura da 12ª Bienal

O grupo Cena 11, dirigido por Alejandro Ahmed em Santa Catarina, abre a Bienal com o espetáculo Matéria Escura. A obra deveria estrear na Alemanha, em abril de 2020. Mas, com o adiamento provocado pela pandemia, o grupo teve que reinventar seu modo de trabalhar, e por consequência a própria peça coreográfica. Matéria Escura acontece de forma simultânea, digital e fisicamente, com transmissão e edição em tempo real. É a primeira vez que o grupo está às voltas com a linguagem de programação e softwares, forjando um ecossistema que quebra linearidades.

De Burkina Faso, radicado na França, Salia Sanou inaugura a programação internacional com Multiple-s. O artista usa a figura “cara a cara” para expressar o confronto, a complementaridade e a alteridade, em três duos sucessivos com a coreógrafa franco-senegalesa Germaine Acogny, a escritora canadense Nancy Huston e o músico francês David Babian, o Babx.

Foto: Alex Ribeiro/visormágico.
Ismael Ivo

Homenagens a Ismael Ivo e Lia Rodrigues

O coreógrafo e bailarino paulistano Ismael Ivo, que faleceu subitamente em abril deste ano, vítima da Covid-19, será homenageado com o lançamento do filme Ismael Vivo, produzido pela TV Cultura, além da exibição de outras obras coreografadas pelo artista.

Os 30 anos da Lia Rodrigues Companhia de Danças também serão homenageados com sete vídeos-cadernos idealizados como uma coleção em torno do universo poético, político e artístico da companhia. É uma colagem de momentos de ensaio, apresentações, inspirações, imagens, fotografias e depoimentos dos artistas. Aquilo que Somos Feitos, Formas Breves, Pindorama, Para que o Céu não Caia Fúria são espetáculos dedicados ao repertório do coletivo. Já o Caderno Covid 19 e o Caderno Maré refletem os últimos tempos. O projeto surgiu a partir de um convite do Teatro HAU, Hebbel am Ufer, de Berlim (Alemanha), para que a companhia produzisse material sobre seu trabalho para ser divulgado de maneira on-line.

Foto: Sammi Landweer
Lia Rodrigues Companhia de Dança em "Fúria"

O corpo confinado nos espaços e nas telas permeia critérios curatoriais

A curadoria da Bienal de 2021 reuniu um grupo transversal de programadores do Sesc de São Paulo, que se debruçou nas discussões que a dança tem lançado e enfrentado nestes quase dois anos de pandemia, com o corpo confinado nos espaços e nas telas.

“A Bienal Sesc de Dança chega à sua 12a edição e segue pela via na qual obra e público ainda se veem mediados por câmeras e telas, dando seguimento aos protocolos sanitários necessários nos dias atuais”, afirma Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo. E complementa: “Contexto que atravessa nossos corpos há mais de um ano e meio, a atual pandemia traz contingências que constantemente fazem surgir novos modos e novas dinâmicas nos terrenos da criação estética e sua fruição, assim como da própria ação cultural e educativa. Ainda assim, mesmo com a incerteza como tônica, tal perspectiva não foi capaz de refrear algo que nos caracteriza como seres munidos de linguagem: a expressão”.

A iminência do desconfinamento foi uma das principais questões que permearam o pensamento curatorial, e essa discussão se reverbera na ocupação de diferentes espaços das Unidades do Sesc Campinas, Pompeia, Vila Mariana, Guarulhos e 24 de Maio. Os artistas foram convidados a criar e adaptar trabalhos, levando em consideração a relação dos corpos com as arquiteturas e apresentação da dança ainda mediada pela tela.

A equipe curatorial buscou uma transversalidade na programação entre o corpo e o pensamento. Logo na abertura, o escritor e sociólogo Muniz Sodré ministra a aula magistral Dança e Corporeidade, que reflete sobre o corpo humano enquanto compreensão primordial do mundo e as inúmeras possibilidades criativas da dança.

Linguagens emergentes – e urgentes – pontuam a programação

Ameaças às florestas e aos povos indígenas, os efeitos do racismo estrutural, a intolerância à população LGBTQIA+ e o estigma sobre a sexualidade de pessoas com deficiência são as temáticas que marcam a programação da Bienal Sesc de Dança de 2021.

Foto: Liz Santana
"Despacho Desferido", de Jaqueline Elesbão

Entre as estreias nacionais, há espetáculos com enfoque no universo afrodiaspórico. Jaqueline Elesbão (Salvador) traz Despacho Deferido, onde a bailarina e ativista une capoeira, projeção, tradições culturais afro-brasileiras para escancarar o racismo estrutural e denunciar o sexismo.

A premissa do feminismo negro impulsiona Na Fresta da Certeza, o Vermelho Escuro, de Luciane Ramos-Silva (São Paulo).

IKU, do Núcleo Ajeum (São Paulo) faz uma reflexão sobre as mortes em tempos de pandemia e das vidas negras. O coletivo está sediado na periferia da zona sul de São Paulo, entre as regiões do Jardim São Luis, Campo Limpo e Capão Redondo.

Adnã Ionara (Campinas, São Paulo) estuda as relações entre música e dança e a afrodiáspora em Imalè Inú Ìyágba.

Foto: Matheus Freitas
Davi Pontes e Wallace Ferreira em "Delirar o racial"

Em Delirar o Racial, a dupla Davi Pontes e Wallace Ferreira (Rio de Janeiro) lidam com uma série de ações que envolvem a incerteza, a desordem e o provisório para pensar uma ética fora do tempo para vidas negras.

João Paulo Lima (Fortaleza) investiga o corpo e a pessoa com deficiência –ele mesmo é amputado de um membro inferior. Em dose dupla na Bienal, o artista fala do fetiche por pessoas amputadas em Devotees. Em seu outro trabalho, N’Otro Corpo, foca em uma dança que veio empoderar e questionar a hegemonização do corpo.

Foto: Artur Luz
João Paulo Lima em "Devotees"

Alexandre Américo (Natal) reflete sobre a condição de isolamento voluntário e positivo em contraste com o advento do chamado distanciamento social imposto pela pandemia no solo Goldfish. 

Do andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo, Beatriz Sano e Eduardo Fukushima (São Paulo) criaram O que Mancha.

Renan Martins & Frankão, brasileiros radicados em Portugal, apresentam Viaduto, baseado em festas de rua, principalmente em espaços que não são necessariamente para este objetivo. Na montagem, os artistas exprimem suas origens brasileiras, pois têm como referência o Baile Charme do Viaduto de Madureira e o extinto Viaduto da Perimetral.

Por meio de uma plasticidade coreográfica, a Ninety9 Art Company (Coreia do Sul) expressa o han, a quintessência da sensibilidade coreana que significa ressentimento ou tristeza em Abismo. A jovem criadora Jang Hye-rim revisita as tradições e, por meio de sutilezas, usa a dança como um envio de eco à alma.

Foto: 99 Art Company
Ninety9 Art Company, da Coreia do Sul, em "Abismo"

Em 131 OUT, Sara Marasso (Portugal) e Stefano Risso (Itália) fazem um convite para olhar de forma diferente o espaço exterior, os espaços das cidades e as relações humanas. A coreografia coloca em cena um bailarino, um músico e seu contrabaixo.

Ainda entre os internacionais, Joana Castro (Portugal) está à frente da performance/instalação Darktraces que lida com a morte, transformação e regeneração, um ciclo que termina e começa outro, onde figuras se vão construindo a partir da destruição de outras, corpos que se (des)multiplicam em outros corpos e danças.

A parceria latino-americana entre Fausto Ribeiro e Lucía Sismondi – Istmo Nómade (Brasil/Uruguai) deu origem a NO HACER NADA pulverizar, um solo sobre a situação da espera e os efeitos dela, uma percepção que ficou ainda mais aguda com a pandemia e com a inspiração no escritor argentino Jorge Luis Borges.

A mostra de videodanças apresenta obras de artistas jovens da dança contemporânea produzidas para as mídias “da palma da mão”, que usam ferramentas de videochamada, videoclipe, e até mídias sociais como o TikTok. Explorando essa linguagem, haverá o laboratório Danças Para Todas As Telas: Partilhas com curadoria formada por Isis GaspariniRodrigo Gontijo e Vanessa Hassegawa. A atividade propõe desdobramentos dos projetos selecionados em diálogo com as obras que compõem a mostra de videodança. Ao longo dos três encontros, serão discutidas possibilidades para desenvolver tais projetos a partir da exploração prática do movimento dançado e da orientação das diversas formas de registros poéticos mediados pelo audiovisual. A proposta é que os participantes tragam recortes de seus processos criativos para uma partilha coletiva.

A mostra de filmes Ó, meu corpo! Uma coleção de filmes incorporados, com curadoria da pesquisadora Amaranta César, apresenta uma seleção de trabalhos que aborda a presença do corpo no cinema brasileiro contemporâneo. Atentos aos novos formatos, dois podcasts serão produzidos e lançados na Bienal, Uma Rádio na Paisagem, de Gustavo Ciríaco, e Mover(-se): Sete Peças Para Deslocar-se de Dentro pra Fora, produzido e desenvolvido pelo Coletivo Teatro Dodecafônico.

A causa LGBTQIA+ é um dos cernes da programação e está inserida em Conversa Pra Boy Dormir, união do Coletivo Mexa e GRUA (São Paulo), que aborda questionamentos de gênero e identidade com uma performance que se infiltra no espaço urbano. Uýra Sodoma (Manaus) é uma entidade indígena criada por Emerson Pontes, biólogo, educador e artista visual multimídia. Sua performance mostra uma arte LGBTQIA+, de resistência em defesa da flora, da fauna e do povo amazônico.

Foto: Leandro Moraes
"Conversa Pra Boy Dormir", união do Coletivo Mexa e GRUA (São Paulo)

O público infantil também tem opções na programação. Clarice Lima (São Paulo) traz Bichos Soltos em Casa, onde quatro bailarinas com um figurino/fantasia/criatura/fantástica movimentam-se de forma dinâmica questionando a relação entre o homem, a natureza e o ambiente doméstico. Já Elisabete Finger (São Paulo) apresenta Buraco, que tem como objetivo abrir um espaço para uma aventura sensorial e sensível para os pequenos ao explorar as possibilidades de ser e mover um corpo em contato/colisão com outras matérias.

Foto: Patrícia Araújo
"Bichos soltos em casa", de Clarice Lima

O diretor americano Peter Sellars encerra a programação com Este Corpo é Tão impermanente…, que traz no elenco a cantora do sul da Índia Ganavya Doraiswamy, o dançarino de improvisação Michael Schumacher e o calígrafo Wang DonglingAs obras de Sellars exploram questões que conectam o contemporâneo e o atemporal, com uma compreensão do poder da arte como meio de ação social e expressão moral.

Confira a programação completa no site bienaldedanca.sescsp.org.br a partir de 25/10.

Serviço:

12ª BIENAL SESC DE DANÇA

2 a 10 de outubro de 2021

Abertura, 2 de outubro: Matéria Escura, com Grupo Cena 11, às 19h; Multiple-s, de Salia Sanou, às 21h.

Transmissões: perfil do Instagram do Sesc Ao Vivo (@SescAoVivo), no canal do YouTube do Sesc São Paulo (Youtube.com/sescsp) e Plataforma Sesc Digital (sesc.digital).

Programação completa: bienaldedanca.sescsp.org.br

Grátis. 100% on-line


Laboratório Danças para Todas as Telas: Partilhas
Dia 8/10, sexta, das 19h às 22h.
Dias 9 e 10/10, sábado e domingo, das 10h às 13h.
Grátis. 16 anos.
Vagas limitadas. Atividade na plataforma Zoom, através do envio de link, até o dia da atividade, apenas para os selecionados.