Baryshnikov se renova mais uma vez

A vitalidade artística de Mikhail Baryshnikov deve-se principalmente à sua abertura permanente para novas experiências. Aos 66 anos de idade, ele continua belo, jovial e instigante, como o artista da dança que também virou sinônimo de renovação. Sua mais recente investida é The Old Woman (A Velha), peça teatral dirigida por Robert Wilson, na qual ele contracena com o ator Willem Dafoe.

Sucesso retumbante desde que estreou na Europa em 2013, The Old Woman é cartaz em São Paulo e Rio de Janeiro, entre 24 de julho e 10 de agosto.

Foto: Clarissa Lambert
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Na antevéspera da estreia em São Paulo, Baryshnikov e Willem Dafoe participaram de uma entrevista coletiva no Sesc Pinheiros, onde o espetáculo será apresentado na capital paulista.

Para um auditório lotado de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas, Baryshnikov e Dafoe responderam, bem-humorados, a perguntas desencontradas, como é comum neste tipo de situação, na tarde de terça-feira, 22 de julho/2014.

Entre os assuntos abordados, eles falaram que, apesar da intensidade física exigida pela peça, não houve uma preparação corporal específica para a interpretação de The Old Woman.

Willem Dafoe, embora seja conhecido por sua atuação no cinema, teve ampla experiência com o Wooter Group, companhia novaiorquina de teatro experimental, com a qual trabalhou por 28 anos (de 1977 a 2005). Multicisciplinar, o Wooster Group associa dança e tecnologia a suas criações, o que confere a Dafoe a versatilidade necessária para trabalhar com artistas como Bob Wilson e Baryshnikov.

Dafoe contou que quando começaram a ensaiar The Old Woman, Bob Wilson não definiu qual personagem seria feito por ele ou Misha. “Ele insere certos elementos arquitetônicos, certos objetos cênicos, nos dá as páginas com o texto, acrescenta instruções formais e pede que nós encontremos soluções. Foi preciso ser flexível e nos submetermos aos jogos de Bob com o espaço, com nossos corpos, com os objetos cênicos.”

A esta explicação de Dafoe, Misha acrescentou: “Bob constrói tudo ao mesmo tempo”. Segundo o bailarino, o diretor tem a capacidade de conjugar todos os elementos cênicos e seus ensaios, no palco, envolvem todos os profissionais ao mesmo tempo, seja de luz, cenografia, som.

A sensibilidade coreográfica de Wilson foi ressaltada por Misha, que confere ao diretor uma certa assinatura do movimento. Slow motion, posições que lembram as figuras em perfil da arte egípcia, são algumas características das movimentações que Wilson propõe. Houve ocasiões, segundo Misha, que o próprio diretor chegou a demonstrar certas sequências, dançando. “Bob é um ótimo dançarino”, reconheceu Misha. A partir de certas possibilidades que lhe foram apresentadas pelo diretor, Misha seguia para seu próprio estúdio, para explorá-las e traduzí-las para seu próprio corpo. “Mas, muitas vezes Bob me deu carta branca para desenvolver movimentos”.

Misha ainda acrescentou que é possível notar, no trabalho de Bob Wilson, influências de coreógrafos como Martha Graham (1894-1991), Jerome Robbins (1918-1998), Merce Cunningham (1919-2009). O corpo que, em algum momento, sustenta a imobilidade, como num estado de suspensão, comum no trabalho cênico de Wilson, vem, segundo Misha, de Martha Graham.

O bailarino também apontou as fortes influências da arte asiática na obra de Wilson, seja das expressões ancestrais do Cambodja, do Japão, como os teatros nô e kabuki, assim como o expressionismo alemão.

No entanto, durante os processos de criação, Misha explica que Wilson convida o intérprete a expressar a si mesmo, sem se ligar a influências específicas. E elogia: “Bob faz um teatro formal e permite ao ator ir ao máximo de sua capacidade”.

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Willem Dafoe

Willem Dafoe também se referiu aos talentos de Wilson. “Eu gosto muito de trabalhar com ele e esta é a segunda vez que isto acontece”, disse o ator, que em 2011 participou de The Life and Death of Marina Abramovic (Vida e Morte de Marina Abramovic), misto de ópera, artes visuais e teatro, sobre a artista performática sérvia que dá nome ao espetáculo. Em cena, Dafoe contracenou com a própria Abramovic, que fez o papel dela mesma. “Sou moldado pelo teatro, pelos elementos formais do teatro. Às vezes não tem nada mais bonito do que se transformar em um objeto, na luz, na arquitetura teatral e Bob permite que façamos isto”.

Misha mencionou que, em The Old Woman, faz coisas que nunca havia experimentado antes. “Eu canto durante 30 segundos e isto foi assustador para mim”, disse, rindo. Ao mesmo tempo, ele relembrou que começou sua carreira aos nove anos, na Rússia. “Naquela idade eu já me apresentava em teatros porque na escola coreográfica russa os alunos automaticamente já se apresentam em teatros de forma profissional. Assim, ainda criança, já participava de balés como O Quebra Nozes, A Bela Adormecida. Ou seja, estou me apresentando em palcos há 60 anos, continuamente. Neste último mês de junho completaram-se 40 anos de minha presença nos palcos americanos. Depois de tanto tempo atuando em tantos espaços distintos, no teatro, na TV, no cinema, trabalhando com diferentes coreógrafos e diretores, adquire-se uma certa bagagem”, relatou.

“No final, você é o que você é, mas Bob Wilson consegue extrair o que há de mais profundo no ator”, disse. “Bob nos leva para zonas de desconforto”, disse Misha. E brincou: “Talvez com Willem não tenha sido tão desconfortável, pois ele trabalha com diretores de cinema como Lars von Trier”. Rindo, Willem respondeu: “Eu fico desconfortável quando estou na zona de conforto”.

Sobre o contraponto entre o humor e o trágico, presente em The Old Woman, Misha disse que, muitas vezes, estes estados extremos, transmitidos por trás de uma máscara, são captados de diferentes formas pela plateia – algo trágico pode tornar-se divertido e vice-versa. “Isto é um convite à participação do público, que interpreta o que é engraçado ou não”. Durante esta explicação, Misha lembrou de Buster Keaton, ator preferido de Bob Wilson, cuja cara pálida às vezes é divertida, mas em outros momentos pode transmitir tristeza.

Complementando, Dafoe ressaltou que a obra de Wilson lida com os opostos. Mas, ao mesmo tempo, o diretor não quer que os artistas incorporem o que o público deve sentir. “Quando estávamos fazendo A Vida e a Morte de Marina Abramovic, em muitas cenas que afinal referiam-se à biografia de Marina, ela se sensibilizava e começava a chorar. Nestes momentos, Bob dizia a ela: “Deixe o público chorar, mas você não chora”.

Alguém lembrou que Dafoe fazia aniversário naquele 22 de julho e perguntou como ele pretendia comemorar: “Trabalhando, ensaiando”, disse o ator, que está completando 59 anos.

The Old Woman, que marca o encontro singular de Bob Wilson, Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe, representa a concretização de um desejo antigo, do diretor e do bailarino, de realizarem um trabalho juntos. “Conheci Bob há cerca de 20 anos, sempre o admirei como espectador, e em jantares e conversas, frequentemente comentávamos que poderíamos fazer algo em conjunto. Passamos por uma série de projetos até chegar neste”, disse Misha.

O bailarino contou que quando Wilson lhe enviou o texto de The Old Woman, de Daniil Kharms, autor russo que conhecia desde criança, ele se apaixonou pelo projeto. O processo de criação se iniciou então no Watermill Center, laboratório para artes performáticas dirigido por Wilson em Nova York. “Trabalhamos por uma semana, com estudantes, em workshops. Havia improvisações do próprio Bob e ao final ele disse que não sabia quais seriam os desdobramentos, mas tinha certeza que The Old Woman seria protagonizada por dois atores. Sugeriu Willem, que eu conheço há 30 anos”. Pela versatilidade do ator, Wilson e Misha concluíram que Dafoe seria o artista certo para completar o projeto. 

Mais sobre a temporada brasileira de The Old Woman em

http://www.conectedance.com.br/evento/mikhail-baryshnikov-willem-dafoe-robert-wilsonthe-old-woman-a-velha/

Foto: Clarissa Lambert
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Willem Dafoe
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