Susanne Linke mantém vivo o legado do tanztheater alemão

Susanne Linke (1944) pertence, ao lado de Pina Bausch (1940-2009) e Reinhild Hoffmann (1943), a uma geração alemã de artistas visionárias que introduziram novas formas de conceber e realizar dança. Adeptas dos preceitos do coreógrafo e pedagogo Kurt Jooss (1901-1979), de quem foram alunas, elas absorveram dele a ideia de que o intérprete deve trabalhar com ótima precisão, sinceridade e humanidade. Para tanto, teriam que lapidar as possibilidades que cada indivíduo traz no corpo, valendo-se de diferentes técnicas de dança e conhecendo diferentes formas de arte.

Com a morte prematura de Pina Bausch em 2009, Susanne Linke e Reinhild Hoffmann permanecem como criadoras pioneiras dentro do tanztheater (1) e também como as artistas que atualmente têm maior significado dentro da chamada German Dance. Em 2009, Linke retornou ao Brasil para apresentações memoráveis no Festival Internacional Mesa Verde, realizado em Porto Alegre de 11 a 22 de novembro. Naquela ocasião, ela reconheceu a grande responsabilidade que tem em suas mãos, diante de uma contemporaneidade em que os valores e a própria dança se modificam quase diariamente. Como mestra, Linke continua em diálogo com as novas gerações de bailarinos em diferentes institutos de dança, onde é convidada para criar coreografias.

Outro desdobramento de sua atuação tem ficado por conta de trabalhar como coaching, o que lhe permite repassar seus famosos solos para bailarinos talentosos. Linke também costuma realizar a direção coreográfica de dançarinos em criações autorais, em diversas partes do mundo. Dessa maneira, faz com que seu legado permaneça vivo e ao mesmo tempo se atualiza por meio das informações que esses jovens corpos trazem, transformando, reafirmando ou recriando suas obras. Com isso, seu legado é repassado por uma espécie de tradição corporal – assim como ocorria nas antigas culturas, que se valiam da tradição oral.  

Ao longo de sua trajetória, Linke desenvolveu novas formas de movimentação e um caminho muito próprio. Em suas obras, os movimentos são marcados pelo controle, a contenção e uma enorme precisão. A exatidão na maneira de agir com as formas e com seus conteúdos foi aprendida por Linke durante o período de formação com Mary Wigman (1886-1973), a grande pioneira da dança de expressão, e na Folkwang Hochschule de Essen. Com Wigman, Linke aprendeu como um sentimento é percebido em um movimento e como esse processo se relaciona com o espaço.  Sentimento de vibração – ou Vibratogefühl – é como se chama a movimentação nos trabalhos desenvolvidos por Wigman. Isto significa que a parte inferior do corpo relaciona-se com a terra, enquanto a parte superior do conecta-se com o céu. Entre esses dois polos deve existir uma tensão que vibra com todas as energias e dinâmicas e com isso ocorre um resultado no espaço.

Depois de Linke ter entendido, por meio de Wigman, a força da expressão do corpo, ela buscou nos ensinamentos de Jean Cébron (1927) e Hans Züllig (1914-1992), professores da Folkwang Hochschule de Essen, a beleza, a sutileza, o polimento da forma e especialmente a precisão nos trabalhos de pés e pernas.

Essa formação complementar, na tradicional escola de Essen, trouxe um olhar centrado na forma e na técnica, mas mesmo assim não afastou Linke de seu impulso inicial de criação, nem tampouco de sua essência. Desde o início Linke pretendeu encontrar uma linguagem que demandasse uma técnica sólida, de muita precisão e que traduzisse o que seu corpo pretendia falar, só que dentro de uma dimensão situada além da forma.

Ao coreografar, Linke questiona todas as combinações de movimentos, os quais são por ela virados do avesso, recolocados sob controle para novamente serem questionados, num intenso processo de composição. Para ela, todo movimento tem de ser lapidado até que sua mais sutil ramificação seja sentida no corpo, para daí perceber-se para qual caminho a emoção conduz.

Poderíamos listar mais de 30 coreografias de sua autoria, incluindo criações e remontagens para diferentes companhias de dança europeias como Ópera de Paris, Netherlands Dans Theater, norte-americanas como a de José Limón ou ainda o brasileiro Grupo Corpo, para o qual ela remontou Mulheres, em 1988. Contudo são osSolos que compõem um dos capítulos mais significativos de sua carreira. Aplaudidos internacionalmente, eles representam seus pontos-âncora, por meio dos quais ela pode estabelecer suas buscas mais profundas e fazer com que suas investigações alcancem o novo, outra vez.

Ao seu público, Linke proporciona a possibilidade de visualizar uma transparência em suas criações. Para que isso se concretize, em suas obras ela concilia a técnica de dança aos planos físico e espiritual.

Uma de suas obras mais conhecidas é o solo Im Bade Wannen (Na Banheira), de 1980. Com este solo, Linke, que completou 65 anos em junho de 2009, abriu o programa da noite denominada Solo Evening with Solos, apresentado no belo Theatro São Pedro de Porto Alegre nos dias 21 e 22 de novembro último, para um público totalmente encantado.

A temática do solo gira em torno da frustração e do aborrecimento que uma mulher sente no banheiro. Utilizando-se de gestos do cotidiano, a coreógrafa limpa a banheira, anda em volta do objeto fazendo repetidos círculos, talvez concentrada em pensamentos perdidos, até que finalmente essa “bacia” de banho parece ganhar vida própria e tornar-se um partner. Nesse momento, a protagonista pode esquecer todo o vácuo de sua vida.

Além de atingir um instante extremamente poético, a personagem também mostra uma possibilidade de transcendência dentro de seu dia a dia. Ao realismo captado com um olhar bem direcionado na dificuldade, há por outro lado a capacidade de superar essa situação.

O segundo solo apresentado no Festival Mesa Verde foi Wandlung (Mutações), de 1978. Criado e dançado pela própria Susanne Linke ao longo de sua carreira, em Porto Alegre foi lindamente interpretado pela jovem bailarina alemã Mareike Franz, de 26 anos. Atual em sua concepção, esse solo é muito significativo tecnicamente porque a princípio ele se apresenta como um despertar, um espreguiçar de movimentos muito simples. Porém, à medida que se desenvolve, apresenta uma caligrafia muito própria, baseada em técnica precisa e apurada.

Um dos tópicos mais fascinantes na obra de Linke é o elemento andrógino, ou seja, como as dimensões feminina e masculina atuam no corpo. Linke investiga como essas duas partes brigam uma com a outra o tempo inteiro, mas também como elas podem encontrar um equilíbrio, permitindo certa liberdade para a coreógrafa falar sobre o que realmente pretende. Ao invés de dramatizar a relação entre os sexos opostos, ela procura uma aproximação, algo em comum entre os dois, que possa levá-los ao alcance da felicidade. A luta não acontece no exterior, mas dentro de cada indivíduo. Para a coreógrafa parece indispensável uma troca de energias capaz de desenvolver um equilíbrio, para que assim a felicidade possa ter algum significado.

Fiel a esse pensamento é Flut (Maré), de 1981, terceiro solo do programa apresentado em Porto Alegre. Desta vez, a interpretação coube ao bailarino e coreógrafo suíço Urs Dietrich. A maturidade e a extensão expressiva da movimentação de Dietrich tomam conta da cena e, mesmo que tenhamos na lembrança esboços da versão dançada por Linke, a atuação dele não deixa por menos: muito coesa, revela um corpo profundamente identificado com o que está executando. Em entrevista, o artista comentou que trabalhar com Linke não é nada fácil. Mas, ele enfatizou que aprendeu muito com a generosidade criadora da coreógrafa, durante as mais de duas décadas de trabalho conjunto. De 1994 a 1996 ele dirigiu junto com ela o Ensemble Bremen Tanztheater. Depois, trabalhou como coreógrafo convidado e em 2000 assumiu sozinho a direção do grupo.

O quarto solo apresentado no festival foi Kaikou-Yin, de 2008. Essa obra, cujo título significa “metempsicose” em japonês, expressa o animal que existe no homem e o que há de humano no animal. Ao som do conhecidoAdagietto da 5ª Sinfonia de Gustav Mahler, foi brilhantemente dançado por Linke. Sob uma luz muito pontual, mostra a intérprete, como no solo  Wandlung (Mutações), utilizando o chão – seja andando ajoelhada, o que possibilita associar suas ações a um elegante animal de quatro patas, seja movendo-se como se estivesse deslizando sobre o palco, tamanha a desenvoltura, leveza e suspensão. Uma surpreendente artista madura, que parece ocupar para sempre e divinamente o espaço cênico: foi assim que Linke se mostrou para um público emocionado e agradecido, que a acolheu com longos e merecidos aplausos.

Durante sua estada em Porto Alegre, Linke manifestou, com vivacidade, bom humor e encantamento, o seu desejo de voltar sempre ao Brasil. Salientando que gosta muito do país, ela deixou expectativas: disse que gostaria de aqui montar alguma de suas coreografias ou mesmo dirigir um projeto de coaching. Claro, será bem-vinda.

Mais sobre Tanztheater: http://lapettcia.wordpress.com/

[1] Tanztheater – Movimento de dança que ocorreu na Alemanha a partir de 1932. Sua característica foi a transcendência da técnica do balé clássico utilizada conjuntamente com a dramaticidade do teatro. Seu precurssor foi  o coreógrafo e pedagogo Kurt Jooss (1901-1979). Entre seus seguidores mais conhecidos que transitam na contemporaneidade encontramos as coreógrafas Pina Bausch (1940-2009), Reinhild Hoffmann (1943) e Susanne Linke (1944). 

* Sayonara Pereira é doutora em artes pela Universidade de Campinas, onde hoje é professora colaboradora. Também é bailarina, coreógrafa, pesquisadora e pedagoga em dança licenciada pela Hochschule Für Musik Köln (Alemanha). Em 1985, convidada pela bailarina e coreógrafa Susanne Linke, estudou na Folkwang Hochschule. Em Essen, onde essa escola se localiza, atuou profissionalmente entre 1985 e 2004. A partir de 2010 integrará o corpo docente da Escola de Comunicação e Artes – Departamento de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo.