Sobre cavalos e tutus

Ideias nos perseguem. Hoje, estudando para uma prova que devo prestar em breve, lembrei-me de algo que aconteceu mais ou menos dois anos atrás.

Uma aluna, ao apresentar em minha aula seu trabalho em fotografia e performance, citou a autora Annateresa Fabris e seu livro Identidades virtuais: uma leitura do retrato fotográfico (UFMG Editora, 2004). Grudou-se em minha memória os retratos sobre cavalos feitos no século 19 pelo fotógrafo francês André-Adolphe-Eugène Disdéri (1819-1889), estudados pela autora.

As imagens criavam caricaturas irreais e seriam as primeiras personalidades virtuais descoladas de qualquer função de realidade. Fotografar-se sobre um cavalo tornou-se moda especialmente entre os que não tinham condições de ter de fato o animal. Pelo menos na imagem o sujeito sentado sobre o cavalo aparentava ser aquilo que desejava.

No momento em que minha aluna mostrou as imagens de Disdéri, minha mente gritou quieta: seria o balé o cavalo no retrato das meninas de hoje?

A autora americana Jennifer Homans descreve, no livro Apollo´s Angels (Random House, 2010), como a burguesia aspirou e teve pela primeira vez a possibilidade de ascender à nobreza durante o reinado de Luis XIV na França. Em um reinado empobrecido e com desejo de diminuir o poder da aristocracia, Luis XIV passou a distribuir títulos de nobreza a pessoas que o interessavam. Mas ser nobre não era somente uma questão de dinheiro: a nobreza arraigava-se nos mínimos detalhes de comportamento. Nobres tinham uma educação corporal desde a infância, que incluía regras de etiqueta, postura, esgrima, equitação e balé. Sendo assim, aulas de dança tornaram-se uma moda entre a burguesia recentemente enriquecida dos séculos 16 e 17 na Europa. Pela primeira vez o balé se tornou uma mercadoria que o capitalismo passaria a valorizar cada vez mais, ao longo dos séculos: um signo de status passível de transação econômica, acessível a quem pudesse comprá-lo.

Se até a fundação em Paris da Academia Real de Dança (em 1661, por Luis XIV), mulheres figuravam raramente e como coadjuvantes em espetáculos de balé, ao longo dos séculos 18 e 19 a primazia da bailarina se efetivou. Aos poucos, o gênero foi sendo associado à feminilidade e o bailarino tornou-se o coadjuvante que acentua o brilho da bailarina em elevações, giros, apoios, equilíbrios etc. Hoje em dia, é comum pais entusiasmarem-se com o desejo das filhas de aprender balé e se desesperarem quando o mesmo acontece com o filho.

Teóricos pós estruturalistas como Jacques Derrida e Jean Baudrillard escreveram sobre como o desenvolvimento do capitalismo acentuou, nas transações econômicas, o descolamento do significante de seu significado – se antes objetos eram precificados pela qualidade do material e da artesania, hoje o mesmo objeto pode ter preços diversos dependendo da marca nele acoplada. A mesma calça jeans, produzida numa fábrica chinesa, pode ser vendida em lojas diferentes com preços diferentes. Se hoje esse é um fato comum, seu gene já estava presente nas fotografias de Disdéri: pouco importava ter o cavalo, os retratados desejavam uma imagem rápida, fantasiosa. Em suas fotografias, Disdéri anunciava a personalidade contemporânea descrita por Fabris: projetada, fragmentada, espelhada e ela mesma sem referente.

Estudar balé clássico efetivamente demanda uma dedicação descomunal, um esforço muitas vezes incompatível com a realidade e o desejo do indivíduo. Sendo assim, como é impossível comprar de fato um cavalo e cuidar dele com a dedicação necessária, compra-se, muitas vezes, uma imagem: alguns anos de balé na infância, algumas apresentações de final de ano, algumas fotografias no facebook… Num embaralhamento da imagem projetada de si (muitas vezes de crianças que ainda nem sabem quem realmente são), mistura-se a bailarina clássica com as princesas da Disney e as meninas posam contentes… não mais sobre cavalos, mas dentro de um collant e tutus cor de rosa.

 

* Juliana Moraes é bailarina, coreógrafa, curadora e professora. Doutora e bacharel em Dança pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mestre e especialista pelo Laban Centre de Londres. Professora do curso de Artes Visuais da Faculdade de Belas Artes (SP). Fundou e dirigiu a Cia. Perdida entre 2008 e 2013.