Oficina Múltiplas Críticas: reflexões e memória

Uma parceria entre o site Conectedance e o festival Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, que realizou sua 11ª edição entre 24 e 30 de maio de 2021, resulta nesta publicação de três textos produzidos na oficina Múltiplas Críticas, ministrada por Néri Pedroso durante o evento.

O conselho editorial, composto por Ana Francisca Ponzio (editora do Conectedance), Néri Pedroso e Sandra Meyer, considera que as escritas de Nailanita Prette, Nora Silva e Peter Lavratti têm abordagens distintas, que ajudam a constituir reflexões e memória em torno do festival – mais importante evento de dança da região sul do Brasil (saiba mais sobre a edição de 2021 em https://conectedance.com.br/diaadia/11o-multipla-danca-pujante-mesmo-on-line/).

Além do Conectedance, também o site Midiateca de Dança está publicando estes textos, identificados abaixo pelos nomes dos três autores.

Foto: Gregory Batardon
"Normal", espetáculo do brasileiro Guilherme Botelho, radicado na Suíça, onde dirige a companhia Alias

Nailanita Prette*

 

O Múltipla Dança, festival internacional dedicado à dança contemporânea e suas infinitas possibilidades, hoje já integra o calendário dos trabalhadores, fazedores, movedores da área. Como diz uma das grandes personalidades da dança Sandra Meyer (2020), artista, pesquisadora e professora, o Múltipla Dança vem para dar corpo as multiplicidades presentes na dança contemporânea e também sediar outra vertente de festivais, saindo da esfera da competitividade. Quando se fala em eventos de dança em especifico da região Sul do Brasil é impossível não lembrar o espetacular Festival de Dança de Joinville (SC), que garante visibilidade internacional à cidade e a arte da dança. Porém uma questão que sempre permeia é: qual dança está em Joinville ou em festivais similares?

O Múltipla Dança, também realizado no Sul do País, apresenta outra forma de apreciar a dança, sua premissa tem como característica a pesquisa e a criticidade da dança contemporânea (MEYER, 2020). Em sua persistente 11ª edição, pode-se até dizer que no cenário brasileiro é um dos festivais pioneiros dedicados à essa linguagem. Mas o que seria a dança contemporânea? Questão cara e com múltiplas respostas, a programação do Múltipla Dança presenteia com esse retorno. Inúmeros pesquisadores dissertam sobre a indagação, entre eles a discussão de Laurence Louppe (1938-2012), crítica, historiadora e pesquisadora em dança. No seu livro “A Poética da Dança Contemporânea” (2012), ela afirma que a dança contemporânea ultrapassa a designação dos códigos em dança quando comparada a outras linguagens. Para ela, a filosofia dessa modalidade está em outro lugar, o corpo/sujeito e sua presentificação orgânica e real do mundo contemporâneo e suas relações. Abraçando uma abordagem interdisciplinar, não aponta técnicas, mas sim metodologias que nascem das investigações e caminhos produzidos pelo mover, a dança contemporânea é a dança do corpo, é a dança do signo do corpo (LOUPPE, 2012). Justo essas relações o Múltipla Dança evidencia, além de amenizar a carência no atual cenário de um festival não competitivo e que priorize as múltiplas identidades dos modos contemporâneos de dançar.

Neste 2021, o evento propôs também outras formas de dança com a ação inédita chamada Intervenções Digitais em que dois dos sete convidados, os bailarinos Vitoria Correia e Bruno Miranda têm como base a linguagem do balé clássico. O corpo dos intérpretes apresenta essa construção, os movimentos com fluxo contínuo, peso leve, espaços definidos, verticalizam e não buscam a entrega ao chão, mas que trazem as premissas contemporâneas, pois são atravessados, mostram a dança feita no momento que estavam imersos. Os cenários escolhidos pelos dois evidenciam seus cotidianos, desnudam as corporeidades e as trajetórias marcadas em seus movimentos. A dança urbana da b-girl Tais Matos, outra dos sete convidados, também traz uma linguagem amplamente incorporada em seus modos de dançar contemporâneos.

No 11º Múltipla Dança os espetáculos nacionais e internacionais foram disponibilizados gratuitamente na plataforma Youtube, os solos, as conversas com os artistas criadores e outros trabalhos pelo Instagram do evento. Nesta edição totalmente on-line é impossível apagar o que se vive no Brasil, assombrado pela pandemia da covid-19 que perdura há mais de um ano em um misto de anestesia, medo, raiva, indignação e mais um turbilhão de sentimentos. Imersos em tempos de quedas: baques na saúde, na economia, na vida, nos corpos. Assim, como em “Normal” da Cia. Alias (Suíça) do coreógrafo brasileiro Guilherme Botelho. Essa obra causou muitos devires, justamente por causa do período pandêmico, aqueles corpos caindo e levantando na maioria das vezes ainda em seu recuperar reverberavam o peso da queda. Os corpos ao verticalizarem deixavam seus rastros da queda e novamente sediam a gravidade, uma relação cíclica. Em outras conexões fora do espetáculo, os suspiros de esperança, os movimentos que partem do se deixar cair e vão carimbando marcas no corpo, assim como a pandemia que já provoca novas (in)tensões nas corporeidades e formas de estar no mundo.

O Múltipla Dança apresentou trabalhos a priori ecléticos, mas que conversam entre si: na verdade são múltiplos. “Trottoir” do artista brasileiro Volmir Cordeiro impacta com corpos coloridos – figurinos de cores vibrantes. A tradução de trottoir é calçada e o espetáculo aborda as relações presentes nesse local da rua, que por sua vez é um lugar de passagem, onde muitas histórias, vidas marcam presença com seus corpos diariamente. Para além, é um espaço de atravessamentos, de construção de corporeidades. No tempo pandêmico ir as ruas foi algo tirado, passou a ser um ato de coragem e de necessidade por excelência.

Apreciar os corpos que se tocam e se constroem em “Trottoir” relembram as quedas de “Normal” e como os humanos dependem um do outro para ser afirmarem como seres sociais, de rua. Quando um cai, todos caem. “Trottoir” é vivo, queima, acorda, “Normal” é como uma anestesia que leva ao estado de vertigem, como a obra “Vertigem”, do artista Rodrigo Andrade, outro convidado das Intervenções Digitais. No corpo, a vertigem se reverbera em movimentos lentos, espaço indireto, peso pesado que sede a gravidade, a pele gelada, mas por dentro desnorteios, “Vertigem” reflete as sensações interiores, mas com a força de lutar contra algo, sempre indo contra a maré de queda, de não se entregar à gravidade ou outras situações. De um lado, a entrega do corpo que é chamado para o chão que age como um imã e, de outro, a luta para não se entregar. Até que ponto negar a queda nos torna mais forte, nos deixa mais resistente? Finalizo recordando Tais Matos com o corpo feminino em uma linguagem que por muito tempo foi habitada majoritariamente por homens, a música apresentada juntamente com o futebol, em específico nos jogos masculinos, agora dançada por uma mulher. Movimentos fortes, vigorosos, ela com semblante aberto oferece a esperança. Uma dança que faz sentir confiança e força, quando a artista finaliza sua obra e abre os braços, ela abraça. E assim, como Tais Matos seguimos. Vai Brasil com a esperança que nos resta, com o corpo aberto e a certeza de que dias melhores virão. Vamos acreditar, cair e levantar quantas vezes mais for preciso.

*Mestranda em artes na linha de artes da cena pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), licenciada e bacharela em dança pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), técnica em dança pela Escola Técnica de Arte Municipal Santa Cecília. Artista e professora das artes do corpo com ênfase em modos contemporâneos de dançar e performance. Com estudo e interesse nas áreas das corporalidades, corporeidades, construção e fruição do corpo na arte.

REFERÊNCIAS

LOUPPE, Laurence. Poética da Dança Contemporânea. Tradução: Rute Costa. Lisboa. Orfeu Negro, 2012.

MEYER, Sandra. Múltiplas Danças | Múltiplas Críticas | Múltiplas Escritas. In: CESAR, Marta; XAVIER, Jussara (organizadoras). Múltipla Dança: festival internacional de dança contemporânea [livro eletrônico]. Florianópolis, SC: Jussara Xavier, 2020.

Foto: Divulgação
Compromisso inclusivo: aprendizagem em torno de audiodescrição para espetáculos de dança, em oficina de Lilian Vilela

Nora Silva*

 

(…) a dança é uma arte que deriva da vida mesma,

pois não é mais do que a ação em conjunto do corpo humano.

Porém uma ação transferida para o mundo,

para uma espécie de espaço-tempo,

que já não é totalmente o mesmo da vida prática (…)

Paul Valery

 

Descobrir a enigmática morada das palavras certeiras se desvela como um grande desafio, porém a busca por palavras que dancem é ainda maior. Ao fechar os olhos a mente se apresenta com um papel em branco onde a narração se transforme em movimento e surge: uma mulher, a pele tem a tonalidade do café misturado com uns pinguinhos de leite como o cabelo castanho encaracolado dá passo às novas e brancas propostas dos anos. Os olhos marrons precisam da intervenção dos óculos para ver, a boca com lábios carnudos deixa aparecer dentes brancos e grandes.

O corpo? Ah, o corpo! Ele se distribui em escassos 1,58 metros, onde a dança é uma bela lembrança escondida debaixo desse contorno arredondado. Essa mulher é real ou será aquela criada na sua mente, quais as escolhas ao descrever, quais os pontos cegos na observação, o que é real?

Dentro deste mundo às vezes distópico, às vezes criador de oportunidades, o encanto pelo aparecimento de um espaço gerador de conhecimento permite o reencontro com velhos desejos e mantém em vigor o pensamento de que tudo está em constante movimento e mudança.

Fazer uma autodescrição foi o convite da professora e audiodescritora Lilian Vilela na oficina “Dança em Palavras: Experiências com Audiodescrição”, no 11º Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, neste pandêmico 2021.

“A audiodescrição é uma atividade de mediação linguística, uma modalidade intersemiótica, que transforma o visual em verbal, abrindo possibilidades maiores de acesso à cultura e à informação, contribuindo para a inclusão cultural, social e escolar. A audiodescrição é um recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em eventos culturais, gravados ou a vivo, como peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles, espetáculos de dança, eventos turísticos, esportivos, pedagógicos e científicos tais como aulas, seminários, congressos, palestras, feiras e outros, por meio de informação sonora”, segundo a definição de Lívia Motta.

Porém, como veem a dança os cegos, como ver os movimentos, as cores, como dar conta do espaço e tempo por onde a dança transita?  Inúmeras questões disparam: e se todos pudéssemos enxergar sem os olhos, dançar nos corpos dos outros, entender que ser cego não é uma limitação senão um convite para novas experiências, para abrir todos os sentidos?

Na oficina de Lilian Vilela, a descoberta que as cores vibram. Na oficina de Lilian Vilela, a descoberta que as cores vibram, tem gosto e infinitos estados por vezes, intransitados por quem têm a visão limitada aos olhos. Se ampliássemos a sensibilidade poderíamos ver “a cor passarinho das flores” , ou sentir o cheirinho da cor vermelho tomate ou perceber o som do vermelho daquela goiaba madura que escorrega da boca do bailarino mineiro Oscar Capucho,que também é a nossa boca.

Como uma nova linguagem, a audiodescrição aparece na dança quase como uma provocação para valorar, entender e aceitar que apreciar um espetáculo artístico vai além dos olhos. Quantas vezes, você vidente, assistiu algo e não conseguiu enxergar a arte que nele aparecia?

A dança talvez se diferencie das outras expressões artísticas porque seu produto não é tangível, é impossível levar para casa o objeto por ela produzido. Única e irreplicável, só pode ser apreciada de forma íntegra no exato momento da representação.

O bailarino, o coreógrafo e todos os envolvidos no processo criativo são sujeitos com capacidade para aprender e apreender o mundo circundante; portanto, nesse universo se encontra o público que retém a mesma capacidade para mudar o espaço enquanto se modifica a si mesmo.

O público que comparece na sala para desfrutar um espetáculo de dança acompanhado com audiodescrição altera a dinâmica da obra permitindo que o fluxo da comunicação se renove.

Na tradução das duas linguagens pertencentes a sistemas diferentes, nasce a dança que fala, as palavras que dançam e fazem dançar um espectador presente com todos os seus sentidos que pressentem e criam uma nova identidade para a dança.

As artes nas quais o corpo se interpõe de maneira tão presente, como a dança, devem ser repensadas em termos de transfigurações inclusivas, que pedem novas concepções do fazer, criar e representar. É necessário atender as subjetividades que habitam no corpo do indivíduo e entendê-lo também como um corpo dançante capaz de interagir com o outro no seu espaço e tempo.

A partir da premissa -pensamos como nos movemos e nos movemos de modo similar a como pensamos -será que é possível flexibilizar os pensamentos tanto quanto os músculos? Se a dança vai construindo espaço e tempo ao se desenvolver, constrói também estruturas de pensamento?

O dicionário define inclusão como a integração absoluta de pessoas que têm necessidades especiais ou específicas numa sociedade. Definir

políticas inclusivas e sua implementação transformam um projeto em realidade social. Por isso, é necessário ressignificar o modo de representar a dança, identificar e ampliar o seu espectro magnético para torná-la mais inclusiva.

A audiodescrição demanda engajamento com o destinatário da narração, e com a obra e seus integrantes. Do mesmo modo, requer plena concentração e textos descritivos sem interpretações e/ou julgamento de valor.

O audiodescritor está em constante processo de aprendizado, é um facilitador de desenvolvimento do campo do imaginário. Através de seu relato vai provocando climas e clímax que lhe permite ao público cego se tornar um espetador-criador ao desenhar a sua própria versão da obra.

Essa será a maior instigação deixada pela oficina. Estabelecer, coreografar palavras para que a dança possa ser lida (ouvida) de frente para trás, de cima para baixo e vice-versa, mas acima de tudo de dentro para fora.

*Graduada em dança clássica e dança contemporânea, Universidad Nacional de las Artes, Argentina; graduada em expressão corporal-dança, Universidad Nacional de las Artes, Argentina e ex-intérprete de dança contemporânea e dança teatro em grupos independentes, Argentina.

 

Foto: José Luiz Pederneiras
Grupo Corpo em "Breu", de Rodrigo Pederneiras

Peter Lavratti*

 

Pela primeira vez, tive o privilégio de acompanhar uma boa parte da programação do Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, evento importante da cidade de Florianópolis (SC) que em 2021 alcançou a 11ª edição. Inteiramente no formato on-line, permitiu o privilégio, que se dá por uma razão relacionada à própria constituição da iniciativa: o público precisou se organizar para apreciar uma parcela da agenda intensa proposta pela curadoria, lindamente desenhada por Jussara Xavier e Marta César. Com data e hora marcadas, entre os dias 24 e 30 de maio, elas propuseram espetáculos, oficinas, conferências dançadas, mostra de videodança, diálogos, intervenções digitais, homenagens e lançamento de livro.

Assim, já aponto uma das pérolas da edição, pois a curadoria incorporou o que é inerente a um evento presencial, o momento do acontecimento. Era necessário estar presente! Uma oportunidade que coloca o público em outros modos de operação nesses tempos virtuais em que há um excesso de eventos e informações e, naturalmente, o hábito de deixar para “ver depois”, um comportamento que acaba desvanecendo potências.

A abertura do Múltipla Dança contou com o espetáculo “Normal” da Cia. Alias, fundada pelo brasileiro Guilherme Botelho na Genebra (Suíça). Já visto em formato presencial no Brasil no encerramento da Bienal Sesc de Dança de 2019, em Campinas (SP) e no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo. Interessantes as manifestações no chat do Youtube de pessoas que tiveram a experiência de assistir ao trabalho no palco, comentar sobre a sua potência, mesmo na tela. Um indício de que sim, apesar de todas as controvérsias, o espaço da tela é lugar possível e potente de relações de apreciação entre obra e espectador. Embora estejamos vivendo um momento de saturação desse modo remoto, ainda assim é fundamental que a produção artística seja vista, discutida, promova diálogos e nos coloque nesse estado maravilhoso (e, às vezes, difícil) de questionar a própria percepção das coisas vistas e sentidas.

A transmissão de “Normal” se inicia: no palco, os seis bailarinos dispostos em grupo coeso, voltados com suas faces para a diagonal, ao fundo, no lado direito, numa posição e intenção corporal que sugere que eles darão um passo à frente. Mas não! Começam sucessivamente os movimentos de queda para trás, embora sustentem o intento daquilo que há à frente dos seus corpos. E é nesse vocabulário de gestos de cair e se levantar que o grupo vai avançando paulatinamente para frente, ocupando o espaço da cena e, também o espaço emocional do espectador. Não é possível ficar indiferente com a proposição de Botelho e não se afetar pelo trabalho entrando em um estado contemplativo. Cada gesto novo incorporado na partitura (sim, pois quedas e recuperações têm nuances, sutilezas, diferentes fontes iniciais do movimento) nos “move” internamente, mexe com a percepção visual, a cinestesia, no seu lugar potente de provocar e transformar as concepções.

Não pude deixar de lembrar de minha atuação como bailarino no Grupo Corpo, em específico, em “Breu” (2007). Assim como em “Normal”, o espetáculo começa com um grupo de bailarinos dispostos em diagonal no fundo, avançam aos poucos para frente, mas as concepções e poéticas são outras. Em “Normal”, luz, figurino, presença cênica dos intérpretes e ambiente cênico são simples, sem grandes artifícios, mas com um importante e responsável diferencial, pois segundo Botelho, há um material no chão que ajuda a absorver o impacto dos corpos. Além disso, a partitura coreográfica aposta na força do grupo “dançando junto”, com apenas leves e breves variações sutis no tempo, um olhar, a somatória de gestos ou um movimento diferente específico daquele intérprete. Já em “Breu”, há um cenário preto de placas e linóleo reflexivo construído que simula espelhos, dando a impressão de que o grupo de 20 bailarinos é uma multidão. O figurino gráfico de Freusa Zechmeister em preto e branco segue na linha de seus trabalhos anteriores, nos quais a malha colante evidencia os corpos dos bailarinos. A luz de Paulo Pederneiras dá diferentes ambiências à cena, recorta e se modifica permanentemente durante a peça. O vocabulário gestual de Rodrigo Pederneiras consiste de células coreográficas comuns a todos os bailarinos, porém organizadas em blocos. Cada grupo realiza essas células em ordens diferentes, dando a sensação de uma cena verborrágica. Além disso, o vocabulário gestual das quedas de Pederneiras é seco, duro e direto para o chão e cabe a cada intérprete descobrir a forma mais “saudável” de agenciar o próprio corpo nesse contexto de precisão entre movimento, vigor físico e a conexão da coreografia com a trilha sonora composta pelo Lenine. A cena de abertura de “Breu” não dura 60 minutos, talvez perto de cinco minutos.

Afinal, são trabalhos de épocas diferentes, concepções outras. Botelho ativou minha memória na carne! Trabalhar na montagem, ensaiar e apresentar “Breu” foi um momento difícil da carreira, pois após essa experiência descobri uma lesão séria no quadril que obriga a conviver diariamente com uma dor e uma limitação, por vezes, insuportável. Na época da lesão, a cirurgia foi descartada porque não estava funcionando bem para alguns casos (o do tenista Gustavo Kuerten, por exemplo). Além disso, somam-se questões hereditárias, tabagismo e dietas mal administradas. Assistir aos 60 minutos de quedas de “Alias” faz pensar muito na repetição. Uma amiga, apropriando-se de Freud, diz com frequência que “repetir é reelaborar”. Quando Botelho escolhe um plano de composição, explorando apenas “um” viés de cair e levantar, sua dramaturgia diz que essa evolução opera de muitas maneiras. E essa é uma das maravilhas do trabalho, porque nesse tempo de alta velocidade estudos já indicam que uma pessoa tem capacidade de atenção visual na tela de apenas oito segundos para, em seguida, passar para outro conteúdo. Poder contemplar um espetáculo por um longo período de tempo, aguça a percepção sobre todas nuances possíveis em um “único” gesto, esgarça a apreciação nos detalhes. E, então, percebe-se que de um gesto único, múltiplos movimentos e sentidos vão se transformando dentro da gente. Avesso à ação de debate pós-espetáculo, porque talvez egoisticamente, prezo por ficar “degustando” de forma às vezes solitária, às vezes na conversa entre amigos sobre as percepções advindas da obra. O “tempo” interno de organização da experiência sempre me pareceu fundamental. No entanto, no caso de “Alias”, continuei on-line e acompanhei a fala de Guilherme Botelho mediada por Marta Cesar. Saber das intenções do artista, bem como observar as reações do público presente no chat, foi sensacional. Ponto para o festival que quebrou meu hábito e transformou minha concepção.

Tanto as quedas de Botelho quanto as de Pederneiras fazem refletir sobre assuntos de essencial importância: o primeiro deles refere-se à uma mudança de comportamento e de pensamento sobre as formas de preparação do corpo para um espetáculo. Muito já se avançou sobre isso, mas é fundamental que os bailarinos em formação atentem para as diversas abordagens somáticas como elementos de seus rituais corporais diários, uma compreensão que deveria circular nas escolas de dança.

Outro assunto, se refere à organização dos artistas da dança com o Legislativo, em busca de soluções possíveis para a dignidade do profissional em transição ou fim de carreira. Há alguns projetos sobre a questão da aposentadoria especial para bailarinos que estão em passos lentos na Câmara dos Deputados. É preciso avançar nas propostas legislativas que regulamentam a profissão, um assunto amplo e complexo que merece outros textos e aponta para a necessidade urgente de consolidação da atividade que, comparada a outras categorias, carece de marcos legais específicos. Muitos alunos talentosos desistiram da carreira por essas razões, artistas incríveis escolheram outros caminhos e deixaram de criar pelas mesmas razões. É triste!  Enquanto isso, a produção de dança vai “invalidando” cada vez mais e mais profissionais por sua dedicação integral e irrestrita. Não se trata apenas sobre invalidez mas sobretudo sobre dignidade! Afinal, um bailarino hoje pode, sob condução de um bom advogado, conseguir a aposentadoria por incapacidade física. E quando o desejo é continuar atuando, como fica o lado emocional deste artista?

Assunto delicado, porque envolve os bastidores das instituições e porque os próprios bailarinos dificilmente falem sobre a questão. Precisamos retomar esses e outros diálogos com os artistas, sindicatos, universidades, festivais, companhias públicas e privadas, em articulação com os representantes políticos nos órgãos competentes. Precisamos também estudar os programas de apoio aos bailarinos existentes em outros países para aproximar contextos e realidades. Em sua conferência dançada, Regina Advento comentou brevemente o assunto, pois na Alemanha há programas de apoio aos artistas que permitem agenciar a transição de carreira. Quem sabe assim, quando for o momento de “queda” dessas novas gerações, ela não seja tão seca e dura como hoje? Ou que, ao menos, possa ser algo mais controlado, como aquilo visto nas sutis mudanças da composição de Botelho, em que os bailarinos mudam a disposição cênica da diagonal para se estabelecerem de frente ao público, posição em que executam as quedas, ao invés de para trás, para a direita e para a esquerda sucessiva e controladamente. Quem sabe assim, possamos dar esse passo à frente com solidez, como categoria artística? Curioso no 11º Múltipla Dança o fato de que boa parte da programação internacional apresentou o trabalho de brasileiros vivendo no exterior.

Sim, falar sobre a consolidação da profissão é extremamente amplo, pois passa por diferentes assuntos e instâncias, mas esses buracos legais são abismos e devem ser reestruturados. Sem negligenciar os avanços das pesquisas, ações e projetos que circulam no Brasil, muito menos desqualificar o potencial das micropolíticas, o objetivo está em focalizar na urgência de que todo esse conhecimento consiga operar em um campo mais expandido, aproveitando o momento da alta velocidade e a possibilidade de amplo acesso as pessoas por meio das redes sociais. Todos esses assuntos coexistem e estão intrinsecamente relacionados à possibilidade de construção de um ambiente de trabalho mais profícuo e potente. Nesse sentido, recordar, NÃO repetir e reelaborar, contrariando Freud, parece-me uma alternativa urgente.

* Artista da dança, bacharel em artes plásticas pela Escola Guignard – Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e pós-graduando em linguagens e poéticas da dança na Universidade Regional de Blumenau (Furb). Foi bailarino da Cia. de Dança Palácio das Artes e Grupo Corpo (BH), Cisne Negro e Raça Cia. de Dança (SP). Atua como professor de dança, coreógrafo e artista plástico.