Sagração revigora o Balé da Cidade de São Paulo

A última temporada do Balé da Cidade de São Paulo (BCSP), que aconteceu de 4 a 7 de julho no Theatro Municipal de São Paulo, buscou no passado da companhia o alimento necessário para revitalizar o seu presente. Sob a condução da atual diretora, Iracity Cardoso, o BCSP parece anunciar uma nova fase. Iracity faz parte da sua história. Foi bailarina do Corpo de Baile Municipal, como era chamada a companhia nos anos 1970, e participou da sua reestruturação artística, ao lado de Antonio Carlos Cardoso, Marilena Ansaldi e Célia Gouvêa, transformando o entendimento da dança que lá se produzia, ao atualizá-lo com as discussões promovidas no país, em plena ditadura militar. Também assumiu interinamente, em 1978, o cargo de direção da companhia. Nos anos 2000, foi assessora internacional do BCSP. Conhecimento de causa, portanto, não lhe falta, e sua trajetória lhe confere a capacidade de estar à frente desta companhia ou de outra do mesmo porte.

Como parte da comemoração dos 45 anos do BCSP, que é corpo estável do Theatro Municipal, a temporada foi composta pela remontagem das obras Uneven (2010), do espanhol Cayetano Soto, e A Sagração da Primavera (1985), de Luis Arrieta, argentino radicado no Brasil. Ao eleger essas duas coreografias, a diretora deixou claro que a sua gestão primará pela qualidade técnica e artística do elenco – lembremos que o repertório tem um papel fundamental na vida de uma companhia de dança.

Em Uneven, que foi criada em 2010 para o Aspen Santa Fe Ballet, Soto exerce a sua capacidade de compor duetos numa construção de deslocamento, cuja inquietude dos movimentos é a tônica dramatúrgica da peça. A dança acontece sem nenhum artifício, é a trama produzida entre os corpos dos bailarinos e o espaço, que anunciam o vigor e o rigor da coreografia.

Linhas retas, diagonais, lateralidade e profundidade vão sendo desenhadas nos corpos dos bailarinos e da música. O violoncelista Raïff Dantas Barreto, que interpreta o compositor David Lang, faz parte da peça não só como um ótimo músico, mas como um integrante da trupe. Elenco, música, coreografia, iluminação, figurino, linóleo (tapete utilizado para a dança, que se apresenta com desenho especial, promovendo uma geometria singular no espaço, criando uma extensão que avança/escorre para fora da moldura cênica), estão intimamente ligados, dando a impressão de que contrastam com o título, cuja tradução é “desigual”.

O nome parece, na verdade, expor que se trata de uma obra que aponta alternativas frutíferas para se pensar a composição, já que ela não se enquadra à ideia de uma coreografia com contornos nítidos (com, por exemplo, início, meio, fim, tema ou história); ao contrário, a dança se explicita nos corpos. Aqui, vale chamar a atenção para o trabalho de remontagem da bailarina Mikiko Arai e das assistentes Kênia Genaro e Suzana Mafra, dada a complexidade da obra.

Cayetano já havia coreografado para o BCSP em 2008, mas, de lá para cá, o elenco mudou muito. Alguns bailarinos que já haviam trabalhado com Soto, como Érika Ishimaru, Marisa Bucoff e Gleidson Vigne, que fazem parte do seleto grupo dos que estão há mais tempo na companhia, lidaram com a obra com muita competência.

A Sagração da Primavera foi um presente. Criada em 1985, remontada em 1993, a estreia da obra marcou um momento histórico da companhia, que ficou sem diretor nomeado de maio a julho, sendo A Sagração uma obra emblemática no ano de 1985. Além disso, sua ousadia artística e sua técnica lhe renderam críticas entusiasmadas à época. A sensibilidade de Arrieta é parte constitutiva do seu fazer. Artista intimamente ligado ao BCSP, foi bailarino e diretor da companhia e é o coreógrafo que mais tem obras assinadas em seu repertório, o que contribui muito para a sua importância na instituição.

Grupo, tribo, cânon, energia, espacialidade, musicalidade, tensão, desejo, vitalidade, estilhaço, técnica e rigor são alguns dos vocábulos presentes n’A Sagração de Arrieta. Não está em questão, quando assistimos à versão de 2013, o fato de ser uma coreografia de 30 anos atrás. Ela se revigora, se refaz. Em não sendo uma peça do almoxarifado público, tem vida própria, e a cada revisitar uma outra obra aparece, não por conta de uma nova roupagem cênica, mas por seus próprios movimentos que, ao entrarem em contato com os corpos, vão criando novos agenciamentos revitalizantes. Esse modo de remontar acontece se não há o desejo impossível de se “fazer exatamente como era antes” ou de se “buscar a origem”, e sim o de se entender como a obra conversa com o contexto em que ela será redita. O desapego, nesse caso, é fundamental.

A remontagem é de Lumena Macedo e Suzana Mafra, profissionais de referência do BCSP que fizeram parte dos elencos de 1985 e 1993 e que conhecem muito bem esse difícil ofício que é remontar uma obra. Kênia Genaro, que também é assistente, dessa vez voltou à cena, destacando-se no grupo graças à sua maturidade artística.

Essas duas obras selecionadas por Iracity, e qualquer outra que compõe o repertório de uma companhia, precisam de tempo, de continuidade do fazer, de repetição, para que a tão perseguida qualidade tenha seu momento de auge. É sabido que o período de montagem, nessas instituições, precisa ser reavaliado, bem como a possibilidade de a companhia voltar, com mais frequência, à cena. Esses são dados que fragilizam o produto final.

Dessa forma, nesse processo de renascimento da companhia, com a direção de Iracity Cardoso, que o “desigual” equalize algumas das arestas e dos rombos artísticos e burocráticos produzidos ao longo dos anos para sagrar um período primaveril no BCSP. É nesse sentido que as obras dessa temporada nos ajudam a pensar na atualização do passado como possibilidade no presente.