Com ‘O idiota’, de Marcos Abranches, levamos à cena a morte e trazemos dela um espelho. Por Solange Argon

Por Solange Argon*

Em seu livro Francis Bacon – sob a superfície das coisas, Luigi Ficacci afirma que “os quadros de Bacon forçam-nos a compreender a natureza humana, a sua força concreta e funcional, e os seus sentimentos mais extremos”. Para o crítico italiano, “o ponto de partida para a sua atividade artística foi a sua própria vida”1.

A vida e a obra de Bacon foram fonte de inspiração para Corpo sobre tela, coreografia estreada em 2014 pelo dançarino e coreógrafo paulistano Marcos Abranches. Identificado com partes significativas da biografia do pintor anglo-irlandês, Abranches tomou como ponto de partida para pesquisa e criação dessa peça sua própria vida, indissociada da totalidade do seu corpo.

Já no espetáculo coreo-performático O grito, estreado em 2019 como nova versão da coreografia originalmente criada em 2015, o dançarino valeu-se do Expressionismo alemão para pôr em cena, sob orientação dramatúrgica do coreógrafo Sandro Borelli, as angústias da existência humana, cuja densidade foi imortalizada pelo pintor norueguês Edvard Munch em tela homônima na qual Abranches mergulhou para essa criação.

Em 2020, contudo, esse processo criativo foi expandido e, paradoxalmente, circunscrito: retomando a parceria com Borelli, agora o dirigindo, Abranches criou O idiota, solo coreográfico inspirado na obra homônima do escritor russo Fiódor Dostoiévski, que dialoga não só com questões individuais do artista, mas sobretudo com as que se encontram no campo das agonias coletivas que, ao contrário das angústias, têm origem definida: o Brasil em desgoverno.

Foto: Alex Merino

Com presença cênica que atesta sua fase de maior maturidade artística e pela qual recebeu o VIII Prêmio Denilto Gomes de Dança como melhor intérprete, em O idiota, em cartaz novamente de modo remoto, Abranches surpreende pelo belo trabalho corporal realizado, fruto de intenso ensaio orientado por Borelli. Seu tônus muscular em estado ótimo atribuiu um refinamento à contração abdominal, ao alongamento dos membros inferiores e ao controle da velocidade gestual, ações que dão estofo à composição da dramaticidade que a complexa personagem concebida pelo artista exige.

Ao trazer para a cena o clima de mal-estar em âmbito nacional ocasionado pela negligência política de um ano no combate ao vírus Sars-Cov-2, o confinamento entre as paredes escuras do espaço cênico onde a peça é realizada implica uma simbologia bastante sugestiva: com elas, Abranches estabelece um jogo de forças intenso, tratando-as ora como obstáculo, ora como escora, assim como fazem muitos de nossos governantes, para os quais o agenciamento da pandemia e sua manutenção são vitais para a sustentação de sua própria incompetência.

Em uma atmosfera de sufocamento, após correr em busca do nada e chegar ao plano baixo, a personagem de Abranches, carregada de exaustão e desesperança, apoia as costas em umas das paredes, acende um cigarro, dá duas ou três tragadas e, em seguida, o esmaga entre os dedos, deixando claro que, a despeito da calamidade que essa doença em escala global vem causando, a experimentação do prazer, seja ele qual for, nos está sendo cada vez mais cerceada por instâncias políticas que intentam nos lobotomizar artística e socialmente e o fazem por meio de reformas trabalhistas e educacionais sem precedentes. Não à toa, com o protagonista sentado em uma poltrona, um livro robusto é folheado e, após arrancar algumas gargalhadas de seu leitor, é literalmente jogado ao esquecimento.

Nessa construção de camadas passíveis de muitas leituras e impactos, a compaixão com que Dostoiévski molda o príncipe Míchkin (personagem principal do romance O idiota) – ideal que deveria prevalecer em uma nação que tem enterrado quase 2 mil vítimas por dia2 – é trazida por Abranches ao nosso contexto sociopolítico e colocada em xeque por frases, de cunho irresponsável e perverso, proferidas pelo representante do cargo público mais elevado do país, algumas das quais reproduzidas em cena pelo dançarino. A propósito, em um dos momentos de sua performance, o fundo musical que sugere um culto neopentecostal, no qual se entoa o verso “[…] quem anda com você mas não lhe quer bem […]”, não poderia ser mais contundente.

Foto: Alex Merino

Em O Idiota de Dostoiévski, a morte tangencia a trama pelo veio autobiográfico do escritor russo: seu exílio forçado na Sibéria, decorrente da substituição ao fuzilamento do qual foi absolvido, deixou marcas indeléveis em seu psiquismo que penetraram seu romance. Já em O Idiota de Abranches, a morte não tangencia a peça: nós, como espectadores, é que a levamos à cena. Em uma epidemia comprovadamente propagada3, morrem nossos parentes, morrem nossos amigos, morrem nossos ídolos, morrem nossas esperanças, morrem nossos desejos, morrem nossos prazeres. São mortes reais e mortes simbólicas que nos atormentam diariamente e que nos empurram cada vez mais para um poço fétido, escuro e cuja profundidade aumenta quanto mais ele se abre próximo a quem tem menos – menos condições, menos privilégios, menos acesso.

Abranches não se vale de seu corpo artístico como recurso para lutar contra esse cenário grotesco em que nos encontramos. Também não o usa como ferramenta para denunciá-lo. Seu corpo é a própria luta, a própria denúncia e, em O idiota, o dançarino coloca diante de nós um espelho que despe nossos corpos das forjadas roupagens de normalidade com as quais os cobrimos e exibe nossa nudez repleta de limitações e apatia. Um espelho que escancara nossa falsa moralidade e que reflete nosso distorcido conceito de amor cristão, ambos anos-luz distantes da idiotia narrada por Dostoiévski.

Cabe a nós decidir se, após o arrebatamento que Abranches nos causa com sua obra, assumimos nossa nudez, nos vestimos novamente de hipocrisia ou nos mantemos no modo repetitivo de tirar e pôr essa capa fascista enquanto anunciamos com a boca nossa benevolência e chutamos com a ponta dos pés os desvalidos. Seja qual for nossa escolha ante esse espelho poderoso que o artista nos oferece, não nos esqueçamos, no entanto, que, diante de um genocídio, e diferentemente do mito de Medusa, mantém-se petrificado quem resiste a olhar – para si mesmo.

Foto: Alex Merino

 

* Solange Argon é psicóloga, arte-educadora, autora e editora de materiais didáticos de Arte. Mestranda em Educação pela Universidade de São Paulo e especialista em Linguagens da Arte pela mesma instituição, tem como objeto de pesquisa a dança no currículo escolar.

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1 FICACCI, Luigi. Francis Bacon (1909-1992) – sob a superfície das coisas. Tradução de Ana Margarida Obst. Colônia: Taschen, 2010. p. 7.

2 BRASIL registra recorde de 1.910 mortes por covid em 24h, diz Ministério. G1, 3 mar. 2021. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/03/03/covid-19-coronavirus-mortes-casos-03-de-marco.htm>. Acesso em: 3 mar. 2021.

3 BRUM, Eliane. Pesquisa revela que Bolsonaro executou uma “estratégia institucional de propagação do coronavírus”. El País Brasil, 21 jan. 2021. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-21/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma-estrategia-institucional-de-propagacao-do-virus.html>. Acesso em: 3 mar. 2021.

 

SERVIÇO:

O Idiota

8 a 31 de março de 2021 – 20h30

Segundas e terças-feiras: exibição do vídeodança O Idiota e do vídeoarte inspirado na obra de Gal Oppido.

Quartas-feiras: apresentação do espetáculo ao vivo, seguido do vídeoarte de Gal Oppido e bate-papo com Sandro Borelli, Marcos Abranches e convidados.

Local: Zoom.  Reserva de ingressos pelo link do Sympla (https://www.sympla.com.br/marcosabranchesecia).

Capacidade da sala virtual: 60 pessoas.

Duração: 90 minutos.

Classificação etária: 18 anos.

Ingressos gratuitos.

 

Ficha técnica do espetáculo –  Concepção e direção geral: Marcos Abranches. Direção artistica e coreográfica: Sandro Borelli. Intérprete-criador: Marcos Abranches. Vídeoarte e fotos: Gal Oppido. Desenho de luz: Sandro Borelli. Trilha sonora: Pedro Simples. Colaboradores: Caio Franzolin e Ricardo Neves. Preparação corporal: Jorge Garcia, Mariana Muniz, Pedro Penuela, Ricardo Neves e Sandro Borelli. Registro em vídeo do espetáculo na íntegra: Alex Merino. Assistente de produção: Maria Julia Tóffuli. Direção de produção: Solange Borelli/ Radar Cultural Gestão e Projetos.  Divulgação social mídia: Renato Fernandes

Ficha técnica da vídeoarte O Idiota (feito a partir de performance de Marcos Abranches, com direção de Sandro Borelli) – Direção, cinematografia e câmera: Gal Oppido. Texto: Adriano Nunes. Edição e trilha: Nikolas Chacon. Voz: Rubens Caribé. Áudio em cena: Pedro Borelli.