Bem-vinda de volta, ‘Rubedo’: Solange Argon avalia o espetáculo de 2016 de Mauricio de Oliveira e da Siameses Companhia de Dança, que retornou à cena em 2019

Por Solange Argon*

Soa o terceiro sinal do teatro do Sesc Bom Retiro, em São Paulo. Os espectadores, ainda que de maneira morosa, começam a aquietar-se, à exceção de um pequeno menino que expressa a agitação típica da primeira infância. Até que, como em um passe de mágica, em poucos minutos após o início do espetáculo essa agitação é substituída por uma espécie de hipnotismo, quando, da coxia, surge aos nossos olhos uma criatura fantástica de traços transgêneros. O menino, então, pergunta em tom alto à sua mãe, “Que bicho é esse?”, e a maneira como o despertar desse estado hipnótico aconteceu extraiu do restante da plateia um riso desarmado e harmônico, contribuindo de modo espontâneo para um vínculo de fruição muito lúdico entre público e artistas.

Esse curto – mas não menos intenso – momento mágico aconteceu na noite de 9 de maio, na reestreia de Rubedo, coreografia concebida em 2016 por Mauricio de Oliveira e criada em parceria com o elenco da Siameses Companhia de Dança, fundada e dirigida pelo artista há 14 anos.

Rubedo encerra a trilogia alquímica – iniciada por Nigredo (2012) e sequenciada por Albedo (2014) – dirigida pelo coreógrafo goiano residente em São Paulo com inspiração na Psicologia Arquetípica do psicólogo estadunidense James Hillman, alicerçada, por sua vez, nos estudos de Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica.

Do período em que integrou o Frankfurt Ballet, Oliveira absorveu de forma contundente a estética de movimento proposta por Willian Forsythe, estadunidense que dirigiu a companhia de dança alemã até meados da década de 1990, e permite que essa influência se evidencie com bastante clareza em suas obras coreográficas. Além dos deslocamentos de peso que partem da pelve e das flexões de improváveis articulações – fortes marcas de Forsythe –, o coreógrafo vale-se do vigoroso sistema da Iyengar Yoga para construir proposições que compõem seu trabalho de docência artística-corporal.

Também em suas aulas de dança, durante consistente trabalho de aquecimento e mobilidade ósseo-muscular, Oliveira costuma solicitar aos participantes que deixem todas as células de seus corpos respirarem. E talvez essa seja a tônica que confira ao seu estilo o traço mais autoral: nas apresentações cênicas de suas peças, é possível sentir a respiração de cada célula dos corpos dos dançarinos de sua companhia. E nesses momentos se revela um Mauricio de Oliveira alquímico, capaz de transformar o que seria um resíduo corporal humano em élan vital e irradiá-lo do palco a quem está na plateia aberto à experiência estética da fruição, transmutação simbólica da matéria que faria os medievos alquímicos Avicena, Alberto Magno e Tomás de Aquino o aplaudirem de pé.

Após explorar em Nigredo e Albedo os dois primeiros estados psicofísicos descritos na Alquimia, nos quais, respectivamente, o corpo e, simbolicamente, a alma se desintegram e se purificam, com Rubedo Oliveira injeta sangue no corpo e na alma de seu elenco e, com isso, faz a temperatura elevar-se. Em outras palavras, nessa terceira peça o veterano coreógrafo expõe aos espectadores a essência do último estágio alquímico: a experiência total da vida, única forma possível de conceber-se um corpo vivo.

Uma “vida viva” tão cara aos dias de hoje, sobretudo quando o desmantelamento desmedido e desgovernado da educação e da cultura em nosso país retira, em nome de uma censura torpe e a passos largos, cor e calor humanos, secando corpos-psiquismos que dessas instâncias se nutrem e escurecendo o céu com nuvens trevosas de desesperança. Uma atmosfera que muito se assemelha ao imaginário que construímos acerca do longo período histórico alcunhado Idade Média.

Para Johan Huizinga, historiador holandês, as excreções e a procriação são as funções corporais que mais causam repugnância nos seres humanos, o que ele contextualiza como a “parte mais patética da moral medieval”. Paralelos de causar arrepios são encontrados diariamente na intenção maléfica dos néscios discursos políticos do atual governo brasileiro, que faz da escatologia a força-motriz para incutir na população o asco à mesma escatologia que cria, fazendo dessa reverberação o véu que esconde sua total inabilidade para gerir o país.

Nas palavras de Huizinga, em seu Outono da Idade Média – livro em que o autor procurou libertar esse período histórico da larga associação a algo trevoso, dada a infinidade de descobertas e criações fundamentais –, o horror ao que é humano dá-se por este ser “[…] formado de semente muito suja, recebida numa comichão da carne”. Mas a comichão da carne traz vida pulsante. A comichão da carne também é o que permite ao ser humano integrar em si os instintos, as repressões, as dores, as alegrias, as doenças, a saúde, as sombras e os crescimentos. E por isso essa comichão da carne tanto assusta os falsos moralistas, e por isso contra ela presenciamos uma cruzada doentia que é duramente refletida na educação e na cultura. E é sobre essa comichão da carne – e não aquela transformada em algo sujo e repugnante pelos sem-vida – de que fala Rubedo.

E do que fala a graciosa criança sentada no colo de sua mãe diante do primeiro dia de reestreia do fim dessa trilogia? Talvez tenha expressado em palavras que sentiu aproximar-se dela o fruto da respiração das células corporais do elenco de Oliveira, cujas formações e trajetórias são distintas, mas que, em uníssono ao estado de espírito proposto por seu diretor artístico, compõem um mosaico afinado e maduro que transita com propriedade entre a dança e a dramaturgia. Talvez o corpo-psiquê dessa criança, ainda em estado bastante puro, tenha sentindo o bonito e limpo processo simbólico da comichão da carne.

Justamente pelo vermelho vivo que essa remontagem coreográfica nos traz, como um poderoso ato de resistência artística, Rubedo em São Paulo merece ser recebida por quem está aberto a ressignificar os versos de Jorge Ben Jor e a entoar em coro, inspirado pela pureza do nosso espectador mirim, “Os alquimistas chegaram / chegaram os alquimistas”.

Bem-vinda de volta, Rubedo. Em tempos de formação trevosa, és muito bem-vinda.

Leia mais sobre Rubedo em: https://bit.ly/30CV8FF.

Vídeo sobre Mauricio de Oliveira e Siameses Companhia de Dança: https://bit.ly/30Fxsk6

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*Solange Argon é psicóloga, arte-educadora, especialista em Linguagens da Arte pela Universidade de São Paulo e autora e editora de materiais didáticos de Arte.