As perspectivas incertas das artes performáticas

Faz certo tempo que superamos o estado de total ausência de recursos públicos para as artes performáticas, a época em que a paixão criativa era a única força para o desenvolvimento daquilo que hoje chamamos história artística brasileira.

As leis de incentivo e fomento à cultura, implantadas pelos governos federal, estadual e municipal ao longo da última década mudaram significativamente a situação do fazer artístico no Brasil. Essas leis surgiram, antes de tudo, devido à militância e ao trabalho organizado dos próprios artistas, que souberam articular seus interesses em colaboração com alguns representantes políticos, sensíveis à causa cultural.

Se é verdade que as novas leis contribuíram para a transformação, ampliação e diversificação do trabalho artístico, não é menos verdadeiro que a vontade governamental de criar uma política cultural consistente mantém-se demasiado distante da potência econômica do país e de sua ambição de liderança no cenário político internacional.

As leis e programas possibilitam a realização de projetos, mas não a remuneração digna de seus executores. A situação do artista contemporâneo que destina seu trabalho à criação e investigação no campo das artes performáticas – seja com foco na dança, no teatro, no circo ou na música – segue complexa, difícil e imprevisível.

O fomento à pesquisa artística continuada ainda não possibilita a continuação dessa pesquisa. Compreensivelmente, um grande número de artistas de todas as idades e com trabalhos que variam entre o incipiente e o constitutivo da história artística brasileira, se voltam para os mesmos e limitados fundos. E na maioria das vezes, grupos beneficiados por uma edição de determinado edital cultural não conseguem, após seu término, renovar o acesso aos recursos. Os grupos perdem integrantes, os trabalhos criados se perdem.

Nesse contexto, é inevitável constatar que o interesse prático das instituições governamentais nos artistas que construíram a história cultural do país é praticamente nulo. O interesse principal das administrações está voltado à realização de seus próprios programas e à utilização dos mesmos para fins eleitorais.

A concentração prioritária nos editais de fomento é parte desse problema. Existem departamentos que cuidam da comunicação e administração desses editais e de seus respectivos recursos, mas não existem departamentos públicos que se dedicam a pensar a cultura em cooperação com os geradores da arte.

No Brasil, um artista que durante décadas contribuiu com a história cultural de seu país, pode com facilidade ficar fora do circuito de uma hora para outra. Não porque perdeu a potência ou vontade criativa, mas em função do dinamismo dos editais, da ausência de programas diferenciados para artistas iniciantes e de longa trajetória ou simplesmente por não ter amigos nos júris.

É importante lembrar que essa história se construiu em sua maior parte através do trabalho de artistas que trabalharam por vocação, sem recursos públicos. Em outras palavras, quem hoje ocupa algum lugar na administração cultural ou nas curadorias artísticas faz isso graças aos esforços árduos de artistas que o precederam e que em grande parte ainda estão artisticamente ativos.

Observam-se também alguns efeitos colaterais provenientes dos próprios editais. Entre estes vale destacar o “emprego temporário” e a “contrapartida social”.

Com o emprego temporário de um artista num determinado projeto fomentado possibilitou-se por um lado o seu sustento precário durante a duração do projeto. Por outro lado, o artista agora acostumado ao recebimento de recursos fica na condição permanente de buscar novos projetos. A antiga condição da pesquisa continuada, com base na afinidade artística, rompeu-se por motivos econômicos, mas a nova economia ainda não garante novas formas de continuidade de trabalho.
A contrapartida social – em forma dos espetáculos a preço popular ou cursos de formação artística gratuitos – abalaram o mercado de trabalho do artista não fomentado.

Estabeleceu-se a curiosa ideia de que, em meio a uma sociedade totalmente capitalista, o trabalho artístico deve ser de graça, incluindo a concepção do artista como trabalhador cultural do Estado, implicando sua alienação ideológica.  Como consequência, deparamo-nos com um público e pessoas em busca de formação profissional, dispostos a pagarem por qualquer bem de consumo, menos para a arte. A não ser que essa arte do entretenimento prove sua qualidade por ingressos de valor muito elevado.

O papel da imprensa nessa situação – em que a arte ainda não assumiu um papel integral na formação e vida qualificadas do cidadão, mas ocupa em grande medida a função de uma distração espetacular de sua vida desqualificada – é preponderante e lamentável. Na última década o jornalismo cultural voltado às artes cênicas sofreu sérios revezes, principalmente em relação a projetos que não contam com financiamentos portentosos. Se de um lado o lucro dos jornais decorrentes dos anúncios cresceu de forma dramática, por outro lado, a quantidade e a qualidade de reportagens sobre trabalhos de investigação artística diminuíram em excesso. A diferença de presença midiática entre espetáculos de entretenimento patrocinados e artistas contemporâneos (mesmo que fomentados) sem tais recursos é brutal e esmagadora. Como a grande imprensa conduz o interesse do público, a mera menção honrosa de um espetáculo num roteiro cultural corresponde quase a uma condenação à inexistência.

O que mantém o artista vivo, nesse quadro de ausência de uma política pública consistente, diferenciada, suprapartidária e de longo prazo, continua sendo sua vontade de potência, sua energia criativa. Mas essa energia é tão indispensável quanto insuficiente para garantir a continuidade de seu trabalho num nível que corresponde à experiência e ao padrão artístico alcançado.

A Taanteatro Companhia, após mais de vinte anos de realizações artísticas e didáticas encontra-se outra vez numa situação similar a muitos de seus pares, a de completa incerteza de como e quando estará novamente com condições de produzir e mostrar seus trabalhos com a devida qualidade.