A dança contemporânea ignora o público?

Há muito tem se discutido sobre a falta de público para a dança contemporânea. Por que as propostas estéticas e reflexivas dos atuais espetáculos não conseguem seduzir o cidadão comum a ponto de fazê-lo sair de casa e ir ao teatro?

Longe de ser um artigo acadêmico, esta reflexão é simplesmente pautada em 33 anos de militância artística e pelo fato de acreditar que a situação à qual me refiro foi criada e é alimentada por nós.

Explico: as ferramentas ou signos usados na construção de um trabalho coreográfico são, muitas vezes, de difícil acesso a quem nunca viu dança contemporânea. O artista passou a ignorar o público e a declarar, talvez influenciado pelo discurso de pesquisadores e acadêmicos, que dança de pesquisa ou de experimentação não se atrela às grandes plateias por um motivo básico: o público comum está a anos luz de compreender a vanguarda. Será?

Quantas e quantas vezes ouvimos de companheiros nossos: “Tem pouca gente assistindo porque é de difícil entendimento para eles”; “o público precisa conhecer os códigos adequados para apreciar a dança contemporânea”; “meu espetáculo é para pouco público mesmo”. E por aí vai…

Também se tornou comum ouvir: “Espetáculo em processo de construção”. Para nós, do meio, tudo bem, mas e o público leigo?

Ele, o público leigo, quase sempre não é informado do que vai ver e quando o coitado do desavisado aparece no teatro, meu Deus!!! Sai desta dura experiência jurando nunca mais assistir a um espetáculo de dança contemporânea, quer dizer, apenas “dança dos famosos” ou coisa parecida.

Outro fato que considero determinante é o distanciamento do drama, da lágrima e da emoção. Quase tudo se tornou hermético demais. Ao público restou o incômodo de ser um boneco acomodado na poltrona do teatro, sentindo-se um idiota por não compreender o que está ali, bem à sua frente.

A insistência em um discurso arrogante, no qual se acreditava que só havia vida pensante dentro dos seus próprios domínios, foi tanta que a dança acabou construindo sua própria armadilha e se aprisionou nela mesma. Não percebeu que se tornou egoica, solista de sua própria coreografia, voyeur de si mesma. E o público se sentiu alijado deste universo criativo.

Talvez por conta disso, a dança foi perdendo o pouco espaço que tinha na imprensa e consequentemente não houve renovação de profissionais qualificados nesta área, pelo contrário, esta profissão está em vias de extinção. A crítica, salvo algumas exceções, desapareceu dos veículos de comunicação e, o que poderia ser um bom combustível para impulsionar as produções, faz parte do passado.

Penso que ainda o artista esteja mais preocupado com a sua labuta que aqui poderia também chamar de “umbigo” do que propriamente na formação do seu público. Se o artista materializa o desejo de expressar-se em sua obra é essencial investir na difusão de suas produções e é preciso ter para quem comunicá-las!

Não cabe mais pensar na formação de público, não cabe mais não investir em planos de ação e numa assessoria de imprensa que trabalhe e compactue com ele. Acredito ainda que quem não puder arcar com este ônus será obrigado a se organizar coletivamente para fazer frente às necessidades centrais de produção e divulgação, por que não?

A nós não há outro caminho, a não ser o que nos leve de fato ao coletivo.

O artista não deve abrir concessões ao modelo mercadológico atual, mas deve sim, e é urgente, reconquistar as plateias que desejam ter suas almas tocadas. E a dança pode fazer isso. Temos belos exemplos: Pina Bausch, Kazuo Ohno, Denilto Gomes, Umberto Silva, Marilena Ansaldi, entre tantos outros grandes artistas da dança ligados à vanguarda e à emoção.