A alma caleidoscópica – e dançante – de Thom Yorke em ‘Anima’, filme de Paul Thomas Anderson

* Por Solange Argon

Quando o som do Radiohead despontou no Brasil, atracou na vida de muita gente como a internet o fizera ‒ de modo lento. Na minha, ao menos, foi assim, de mansinho. Ainda sem acesso à rede e sabendo apenas que a banda estava abrindo shows da também britânica R.E.M., o que me chamava a atenção era o nome de seu vocalista. Sem nunca tê-lo visto escrito, eu brincava que o artista carregava no sobrenome o muro medieval da “velha” York e, no nome, o muro invisível da hipercontrolada Washington. Foi preciso ter em mãos o terceiro álbum da banda, o emblemático OK Computer, para interromper imediatamente esse gracejo, que me acompanhava nas rodas de conversa no centro acadêmico da faculdade, e perceber que Thom Yorke, e não Tom York, havia chegado para ficar, em definitivo, em nosso repertório musical.

À frente de Radiohead, Yorke nos conduziu a lançamentos de importantes álbuns, com incorporações crescentes do jazz e de elementos eletrônicos, mas também nos desamparou com alguns intervalos de tempo – que nos pareciam uma eternidade – entre um lançamento e outro, que coincidiram com bloqueios criativos decorrentes de períodos de instabilidade emocional que o líder do grupo enfrentou, e ainda enfrenta, ao longo de sua carreira.

Em projeto solo, que conduz de modo paralelo à produção da banda e por meio do qual já presenteou seus fãs com dois álbuns (com um intervalo de oito anos entre os dois lançamentos), Yorke, no final de junho deste ano, lançou Anima, fruto de uma produção que envolveu o trabalho de estúdio e o registro de performances musicais ao vivo.

O disco é acompanhado de um curta-metragem dirigido pelo cineasta estadunidense Paul Thomas Anderson (Magnólia, 1999; Sangue negro, 2007) e exibido pelo serviço de streaming Netflix e em algumas salas de projeção IMAX. Na tela, um sonho distópico dançado, um espelho que se movimenta com licença poética e reflete, como em um caleidoscópio, a própria alma de Yorke, em um gênero audiovisual híbrido que traz elementos do videodança e do videoclipe. Se o segundo se alimenta da dança há décadas, não é de hoje, no entanto, que o primeiro também se apropria de recursos tecnológicos e estilísticos dos clipes musicais, e essa retroalimentação foi, em Anima, muito bem administrada pela parceria de Anderson com o franco-belga Damien Jalet, artista independente da dança que coreografou o curta-metragem.

Jalet já havia trabalhado com Yorke no ano passado, assinando a coreografia do filme de terror Suspiria: a dança do medo (direção de Luca Guadagnino), para o qual o vocalista do Radiohead compôs a trilha sonora.

Como em outras produções musicais, no disco Anima Yorke se vale de uma ambientação distópica para trabalhar sua própria ansiedade, e o filme homônimo configura-se como uma partitura dançada desse psiquismo, ora produtivo, ora embotado. O artista multifacetado e a trupe de dançarinos que o acompanha nessa coreografia de dança contemporânea têm, como trilha sonora para seus movimentos, três músicas pertencentes ao disco concomitantemente lançado: “Dawn Chorus”, “Not the News” e a melódica “Traffic” fazem alusão a fortes experiências – para não dizer traumáticas e sufocantes –, das quais o eu lírico volta mais fortalecido ou para as quais este olha enquanto ocupa o papel de um espectador externo.

De uma forma ou de outra (implicado ou distanciado), a busca pelo equilíbrio diante do caos se dá pela carinhosa relação afetiva – protagonizada por Yorke e sua namorada, a atriz italiana Dajana Roncione – em meio aos movimentos de corpos controlados/sufocados por e em uma sociedade que, aos olhos do filósofo francês Michel Foucault, não seria tão distópica assim, uma vez que parece, há tempos, já vivermos nela.

Dos videoclipes, a linguagem comum a esse gênero talvez tenha sido a característica mais sorvida: na passagem dos dançarinos pelas catracas de uma estação de metrô, em sequências que trazem um efeito ritmado, impossível não puxar pela memória o videoclipe Bad (1987), de Michael Jackson, não pelo movimento adolescente dos bad boys, mas pela destreza na ocupação de um espaço público em uma época na qual termos como parkour e site-specific não eram amplamente usados em dança como hoje em dia. Em Anima, parece que Jalet esculpiu o clipe icônico da década de 1980, a ponto de retirar dele todo o afetamento característico da época. Então, em um trecho da segunda parte do filme, deixou como produto final, assim como fazia o escultor suíço Alberto Giacometti, apenas a essência – tão minimalista quanto as composições de Yorke.

Já dos videodanças, algumas filmagens noturnas ambientadas nas ruas da misteriosa Praga, capital da República Tcheca, remontam a cenas externas de Contragolpe (1997), videodança de Pascal Magnin, cineasta suíço especializado em dança para câmera. Embora com temáticas distintas (o filme de Magnin discute a violência doméstica), é possível conectá-los plasticamente pela atmosfera sombria criada, sem contar a existência, em ambos, de vagões de metrô usados como elemento cenográfico e filmados interna e externamente. Ainda outro diálogo pode ser colocado em pauta diante do videodança Rainhas por um dia (1996), também dirigido por Magnin, pela sensualidade graciosa de duos cujos intérpretes se valem da técnica de contato-improvisação para se cortejarem, assim como o faz o casal interpretado por Dajana e Thom.

Na terceira parte do filme, há um flash de cenas externas e diurnas. Ainda que no curta-metragem não haja figurino semelhante ao usualmente utilizado pela Pina Bausch Tanztheater Wuppertal, mais especificamente aos costumes femininos, a atuação da trupe sobre uma bonita relva sob árvores conversa de modo amistoso com cenas coreográficas interpretadas pela companhia alemã, que se valeu de parques e gramados de sua cidade-sede em alguns de seus trabalhos. Jalet, como artista independente, já realizou trabalhos na companhia de Pina Bausch, levando para o grupo de dança-teatro alemão sua técnica, que envolve o trabalho da força centrífuga, e certamente refinando a dramaticidade e o olhar clínico para locações, características tão marcantes em Pina. Como entre as linguagens audiovisuais, essa mutualidade de influências entre artistas de estilos e técnicas distintos é orgânica e muito agradável de se perceber.

E, por falar em força centrífuga, que também pressupõe deslocamentos de planos e de centros corporais de força, em Anima o combate à gravidade é retomado, recordando que tal recurso já havia sido explorado em Skid, coreografia criada em 2017 por Jalet para a apresentação teatral da Gothenburg Dance Company. Embora no curta-metragem haja efeitos ilusórios de filmagem, a ideia da grande plataforma sobre a qual dançarinos se movimentam com dificuldade é presente em ambas as coreografias, que tratam, de maneiras diferentes – mas não menos convergentes – da resistência e, porque não, da resiliência. Propostas físico-existenciais também foram trabalhadas na impactante Celui qui tombe (“Aquele que cai”), coreografia criada pelo artista corporal francês Yoann Bourgeois três anos antes de Skid, deixando cada vez mais evidente que esses dilemas são bastante caros ao questionamento humano, sobretudo nos tempos atuais.

Em Anima, Yorke, detentor de 50 anos de história corporal, cumpre com propriedade sua função na trupe de dançarinos. Como um sísifo contemporâneo, que já carregou duras pedras e viu recentemente uma rolar para sempre – com a perda precoce de sua ex-mulher, vítima de um câncer –, o artista faz de seus próprios fantasmas matéria-prima para recomeçar e, em movimento contrário às suas crises de ansiedade, sabe qual o tempo necessário para subir – e também recuar – na rampa de sua vida psíquica.

 

* Solange Argon é psicóloga, arte-educadora, especialista em Linguagens da Arte pela Universidade de São Paulo e autora e editora de materiais didáticos de Arte.

 

 

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